quarta-feira, 10 de agosto de 2016

quarta-feira, 6 de julho de 2016

quinta-feira, 31 de março de 2016

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

GUGE - O REINO PERDIDO DO TIBET

UM DOS MAIS BELOS E TERRÍVEIS FILMES SOBRE O TIBET
Guge - The Lost Kingdom of Tibet. HD (52:02) (영어자막) 구게 - 잃어버린 티벳왕국
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domingo, 3 de janeiro de 2016

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

DIMENSÕES DA ESPIRITUALIDADE

DIMENSÕES DA ESPIRITUALIDADE

S. S. Dalai Lama


Irmãos e irmãs, gostaria de falar sobre valores espirituais
definindo dois níveis de espiritualidade. Como seres humanos, nosso
objetivo básico é ter uma vida feliz; todos queremos ser felizes. É
natural, para nós, buscar a felicidade. Esse é nosso objetivo de
vida. A razão é completamente clara: quando perdemos a esperança, o
resultado é que nos tornamos deprimidos e talvez até suicidas.
Portanto, nossa existência é fortemente enraizada na esperança.
Embora não haja garantia de que o futuro chegará, é porque temos
esperança que somos capazes de continuar vivendo. Podemos dizer que
o propósito de nossa vida, nosso objetivo de vida, é a felicidade.



Seres humanos não são produzidos por máquinas. Somos mais do que
apenas matéria; temos sentimento e experiência. Por essa razão,
somente conforto material não é suficiente. Necessitamos algo mais
profundo, o que usualmente chamo de afeição humana, ou compaixão.
Com afeição humana, ou compaixão, todas as vantagens materiais que
temos à nossa disposição podem ser muito construtivas e produzir
bons resultados. Contudo, sem afeição humana, somente vantagens
materiais não nos proporcionarão satisfação, nem produzirão qualquer
medida de paz mental ou felicidade. De fato, vantagens materiais sem
afeição humana podem até mesmo criar problemas adicionais. Portanto,
afeição humana, ou compaixão, é a chave para a felicidade humana.

O primeiro nível da espiritualidade, para os seres humanos de todos
os lugares, é a fé em uma das muitas religiões do mundo. Penso que
há um importante papel para cada uma das principais religiões
mundiais, mas para que elas façam uma contribuição efetiva em
benefício da humanidade do lado religioso, há dois fatores
importantes a serem considerados. O primeiro é que praticantes
individuais das várias religiões —isto é, nós mesmos— devem praticar
sinceramente. Ensinamentos religiosos devem ser uma parte integral
de nossas vidas; eles não deveriam estar separados de nossas vidas.
Algumas vezes, vamos a uma igreja ou um templo e rezamos uma prece,
ou geramos algum tipo de sentimento espiritual e, quando saímos,
nada daquele sentimento religioso permanece. Essa não é a forma
adequada de praticar. A mensagem religiosa deve estar conosco onde
quer que estejamos. Os ensinamentos da nossa religião devem estar
presentes em nossas vidas de forma que, quando realmente precisamos
ou pedimos bençãos ou força interior, mesmo nessas horas esses
ensinamentos estarão lá; eles estarão lá quando passarmos por
dificuldades porque estão constantemente presentes. Somente quando a
religião torna-se uma parte integral de nossas vidas é que ela pode
ser realmente efetiva.
Também precisamos experienciar mais profundamente os significados e
valores espirituais de nossa própria tradição religiosa — precisamos
conhecer esses ensinamentos não só a nível intelectual, mas também,
de forma cada vez mais profunda, através de nossa própria
experiência. Algumas vezes entendemos diferentes idéias religiosas
num nível muito superficial ou intelectual. Sem um sentimento
profundo, a eficácia da religião torna-se limitada. Portanto,
devemos praticar sinceramente, e a religião deve tornar-se parte de
nossas vidas.

O segundo fator refere-se mais à interação entre as várias religiões
mundiais. Hoje, por causa da crescente mudança tecnológica e a
natureza da economia mundial, estamos muito mais dependentes uns dos
outros do que antes. Diferentes países e continentes tornaram-se
mais intimamente associados uns com os outros. Na realidade, a
sobrevivência de uma região do mundo depende da de outras. Portanto,
o mundo tornou-se mais próximo, muito mais interdependente. Como
conseqüência, há mais interação humana. Sob tais circunstâncias, a
idéia de pluralismo entre as religiões mundiais é muito importante.
Em tempos passados, quando as comunidades viviam separadas uma das
outras e as religiões surgiam num relativo isolamento, a idéia que
havia só uma religião era muito útil. Mas agora a situação mudou, e
as circunstâncias são inteiramente diferentes. Agora é crucial
aceitar o fato de que existem diferentes religiões, e a fim de
desenvolver verdadeiro respeito mútuo entre elas é essencial
aproximar o contato entre as várias religiões. Esse é o segundo
fator que possibilitará as religiões mundiais serem mais eficazes em
beneficiar a humanidade.
Quando estava no Tibete, eu não tinha contato com pessoas de
diferentes crenças religiosas. Assim, minha atitude em relação às
outras religiões não era muito positiva. Mas, quando tive a
oportunidade de encontrar pessoas de diferentes crenças e aprender
com essa experiência e o contato pessoal, minha atitude para com as
outras religiões mudou. Compreendi como são úteis para a humanidade
e o potencial contributivo de cada uma para um mundo melhor. Há
séculos, as religiões vêm dando contribuições maravilhosas para o
aprimoramento dos seres humanos, e ainda hoje há um grande número de
seguidores do cristianismo, islamismo, judaísmo, budismo, hinduísmo
e assim por diante. Milhões de pessoas estão se beneficiando de
todas essas religiões.

Para dar um exemplo do valor do encontro de diferentes crenças, meus
encontros com o falecido Thomas Merton fizeram-me perceber que
bonita, maravilhosa pessoa ele era. Noutra ocasião, encontrei-me com
um monge católico que viveu vários anos como eremita numa montanha
bem atrás do mosteiro de Montserrat, na Espanha. Quando visitei o
mosteiro, ele desceu de sua ermida especialmente para falar comigo.
O fato de o inglês dele estar pior do que o meu me deu mais coragem
de falar com ele! Ficamos cara a cara e perguntei, " Nesses poucos
anos, o que você estava fazendo naquela montanha?" Ele olhou-me e
respondeu, "Meditação na compaixão, no amor". Quando ele disse estas
poucas palavras, entendi a mensagem através dos seus olhos.
Realmente desenvolvi verdadeira admiração por ele e por outros como
ele. Tais experiências ajudaram a confirmar na minha mente que todas
as religiões do mundo têm o potencial para produzir boas pessoas, a
despeito das suas diferenças de filosofia e doutrina. Cada tradição
religiosa tem sua própria maravilhosa mensagem a transmitir.
Do ponto de vista do budismo, por exemplo, o conceito de um criador
é ilógico. É difícil para os budistas entenderem esse conceito por
causa do modo que eles analisam a causalidade. Contudo, este não é o
lugar para discutir questões filosóficas. O ponto importante aqui é
que para as pessoas que seguem esses ensinamentos nos quais a crença
básica está num criador, esta abordagem é eficaz. De acordo com
essas tradições, o ser humano individual é criado por Deus. Além
disso, como recentemente aprendi de um dos meus amigos cristãos,
eles não aceitam a teoria do renascimento, e assim, não aceitam
vidas passadas ou futuras. Acreditam somente nesta vida. Contudo,
eles mantêm que esta vida é criada por Deus, pelo criador, e esta
idéia desenvolve neles um sentimento de intimidade com Deus. Seu
ensinamento mais importante é que, como estamos aqui por desejo de
Deus, nosso futuro depende do criador, e porque o criador é
considerado supremo e sagrado, devemos amar a Deus, o criador.


O que segue-se a isso é o ensinamento que deveríamos amar nossos
semelhantes — esta é a mensagem principal aqui. O raciocínio é que
se amamos a Deus, devemos amar nossos semelhantes porque eles, como
nós, foram criados por Deus. O futuro deles, como o nosso, depende
do criador, portanto, sua situação é igual a nossa. Logo, a crença
das pessoas que dizem "Ame a Deus" mas não mostram amor verdadeiro
para seus semelhantes é questionável. A pessoa que acredita em Deus
e no amor a Deus, deve demonstrar a sinceridade de seu amor a Deus
através do amor dirigido aos semelhantes. Essa abordagem é muito
poderosa, não é?
Assim, se examinarmos cada religião por vários ângulos e da mesma
maneira — não apenas da nossa posição filosófica mas de vários
pontos de vista — não pode haver dúvida de que todas as grandes
religiões têm o potencial para melhorar os seres humanos. Isto é
óbvio. Através de um contato próximo com pessoas de outras fés, é
possível desenvolver uma atitude aberta e de respeito mútuo em
relação a outras religiões. Proximidade com diferentes religiões
ajuda-me a aprender novas idéias, novas práticas, e novos métodos ou
técnicas que posso incorporar à minha própria prática. Da mesma
forma, alguns de meus irmãos e irmãs cristãos adotaram certos
métodos budistas, como a prática da mente unifocada e as técnicas de
desenvolvimento da tolerância, da compaixão e do amor. O benefício é
enorme quando praticantes de diferentes religiões se unem para esse
tipo de intercâmbio. Além de desenvolverem a harmonia entre si,
ganham outras benesses.

Políticos e líderes de nações falam com freqüência em "coexistência"
e "ação conjunta". Por que não nós, religiosos, também? Acho que é
chegada a hora. Em Assis, em 1987, por exemplo, líderes e
representantes de várias religiões mundiais se encontraram para orar
juntos, embora eu não saiba ao certo se orar é a palavra exata para
descrever com acuidade a prática de todas aquelas religiões. Em todo
caso, o que importa é que os representantes de várias religiões se
reuniram e, conforme suas próprias crenças, rezaram. Isso já está
acontecendo e é, creio eu, muito positivo. No entanto, ainda
precisamos fazer mais esforços para aumentar a harmonia e a
proximidade entre as religiões mundiais, pois sem um tal esforço
continuaremos a vivenciar todos esses problemas que dividem a
humanidade. Se a religião fosse o único remédio para reduzir o
conflito humano, mas se este mesmo remédio se tornasse outra forma
de conflito, seria um desastre. Hoje, como no passado, ocorrem
conflitos em nome da religião por causa de diferenças religiosas, e
acho isso muito triste. Mas, como disse antes, se pensarmos aberta e
profundamente compreenderemos que a situação atual é inteiramente
diferente do passado. Não estamos mais isolados, mas somos
interdependentes. Hoje, portanto, é muito importante entender que um
relacionamento íntimo entre as várias religiões é essencial, para
que diferentes grupos religiosos possam trabalhar juntos e realizar
um esforço comum para o benefício da humanidade. Assim, sinceridade
e fé na prática religiosa por um lado, e tolerância e cooperação
religiosa por outro, formam este primeiro nível do valor da prática
espiritual para a humanidade.

O segundo nível da espiritualidade — a compaixão como religião
universal — é mais importante que o primeiro porque, não importa
quão maravilhosa uma religião possa ser, ainda assim ela é aceita
somente por um número limitado de pessoas. A maioria dos cinco ou
seis bilhões de seres humanos em nosso planeta provavelmente não
pratica religião alguma. De acordo com o seu ambiente familiar, eles
poderiam se identificar como pertencentes a um ou outro grupo
religioso — "eu sou hindu", "eu sou budista", "eu sou cristão" —,
mas realmente a maioria desses indivíduos não é necessariamente
praticante de nenhuma crença religiosa. Isto está correto: seguir
uma religião ou não é um direito da pessoa como indivíduo. Todos os
grandes mestres, como Buda, Mahavira, Jesus Cristo e Maomé falharam
em tornar toda a população humana voltada para a espiritualidade. O
fato é que ninguém pode fazer iss Se esses não-crentes são chamados
de ateus não importa. De fato, para alguns estudiosos ocidentais os
budistas também são ateístas, pois não aceitam um criador. Por isso,
às vezes, ao descrever estes não-crentes, adiciono a palavra
"extremo" e os chamo de não-crentes extremos. Eles não apenas são
não-crentes mas também são extremos, presos ao ponto-de-vista de que
a espiritualidade não tem valor. Contudo, devemos lembrar que essas
pessoas também são uma parte da humanidade e também têm, como todos
os seres humanos, o desejo de viver uma vida pacífica e feliz. Este
é o ponto importante.

Acredito que não há problemas em permanecer não-crente, mas enquanto
você fizer parte da humanidade, enquanto você for um ser humano,
você precisa de afeição humana, compaixão humana. Este é realmente o
ensinamento essencial de todas as tradições religiosas: o ponto
crucial é a compaixão ou afeição humana. Sem afeição humana, mesmo
crenças religiosas podem tornar-se destrutivas. Assim, a essência,
mesmo na religião, é um bom coração. Considero que a afeição humana,
ou compaixão, é a religião universal. Crente ou não-crente, todos
necessitam de afeição humana e compaixão, porque compaixão nos dá
força interior, esperança e paz mental. Assim, ela é indispensável
para todos.
Examinemos, por exemplo, a utilidade de um bom coração na vida
cotidiana. Se estamos de bom humor quando nos levantamos de manhã,
com um sentimento caloroso no coração, automaticamente está aberta a
nossa porta interior para aquele dia. Mesmo se uma pessoa pouco
amistosa aparece, não nos perturbamos, e podemos até dizer a ela
alguma coisa simpática. Mas num dia de humor menos positivo, quando
nos sentimos irritados, nossa porta interior se fecha
automaticamente. O resultado é que, mesmo se encontramos nosso
melhor amigo, ficamos pouco à vontade e tensos. Tais situações
mostram a diferença que nossa atitude interior faz nas experiências
do dia-a-dia. Precisamos, pois, a fim de criar uma atmosfera
agradável em nós mesmos, nas nossas famílias e nossas comunidades,
compreender que a fonte desse bem-estar está dentro do indivíduo,
dentro de cada um de nós — um bom coração, compaixão humana, amor.

Uma vez criada uma atmosfera positiva e amistosa, o medo e a
insegurança automaticamente diminuem. Assim, podemos facilmente
fazer mais amigos e criar mais sorrisos. Afinal de contas, somos
animais sociais. Sem amizade humana, sem o sorriso humano, nossa
vida torna-se miserável. O sentimento de solidão fica insuportável.
É a lei natural, isto é, pela lei natural dependemos dos outros para
viver. Se, sob certas circunstâncias, por algo estar errado dentro
de nós, nossa atitude para com nossos semelhantes, de quem
dependemos, se tornar hostil, como poderemos esperar paz de espírito
e uma vida feliz? De acordo com a natureza humana básica, ou lei
natural, a afeição — compaixão — é a chave da felicidade. Segundo a
medicina contemporânea, um estado mental positivo, ou paz mental,
também é benéfico para a saúde física. Logo, mesmo do ponto de vista
de nossa saúde, paz e calma mental são cada vez mais importantes.
Isso mostra que o próprio corpo físico aprecia e responde à afeição
humana, à humana paz de espírito.

Se olharmos para a natureza humana básica, veremos que nossa
natureza é mais dócil do que agressiva. Se examinarmos vários
animais, notaremos que aqueles de natureza mais pacífica têm uma
estrutura corporal correspondente, enquanto os predadores têm uma
estrutura corporal desenvolvida de acordo com a natureza deles.
Compare um tigre com um veado. Há uma grande diferença de estrutura
física entre eles. Quando comparamos o nosso próprio corpo com os
deles, vemos que somos mais parecidos com os veados e coelhos do que
com os tigres. Até os nossos dentes são mais parecidos com os deles,
não são? Bem diferentes dos do tigre. Nossas unhas são outro bom
exemplo — eu não sou capaz de pegar nem um rato, só com as minhas
unhas humanas. Claro, a inteligência humana nos habilita a criar
ferramentas e métodos sem os quais seria difícil fazer muito do que
fazemos. Como vêem, devido ao nosso estado físico, pertencemos à
categoria dos animais dóceis. Acho que é nossa natureza humana
fundamental que se mostra em nossa estrutura física básica.
Diante da situação global atual, a cooperação é essencial,
especialmente em campos como economia e educação. O conceito de que
diferenças são importantes está agora mais ou menos ultrapassado,
como demonstra o movimento por uma Europa Ocidental unificada. Acho
que esse movimento é verdadeiramente maravilhoso e chega em boa
hora. Ainda assim, esse trabalho entre as nações não aconteceu por
causa de compaixão ou fé religiosa, mas por necessidade. Há uma
tendência crescente em direção da conscientização global. Nas atuais
circunstâncias, um relacionamento mais íntimo com os outros
tornou-se um elemento da nossa própria sobrevivência. Portanto, o
conceito de responsabilidade universal baseado na compaixão e num
senso de irmandade é essencial. O mundo está cheio de conflitos —
por causa de ideologia, de religião ou até entre famílias — baseados
em alguém querendo uma coisa e outra pessoa querendo outra coisa.
Assim, se examinarmos as fontes de todos esses conflitos,
descobriremos muitas fontes, muitas causas, até dentro de nós
mesmos.

Nesse meio tempo, todavia, temos o potencial e a capacidade de
unirmo-nos harmoniosamente. Tudo mais é relativo. Embora haja várias
causas de conflito, existem ao mesmo tempo muitas causas para união
e harmonia. Chegou a hora de pôr mais ênfase na união. Também aqui,
há que haver afeição humana. Por exemplo, você pode ter uma opinião
ideológica ou religiosa diferente da de outra pessoa. Se você
respeitar o direito da outra pessoa e mostrar sinceramente uma
atitude compassiva para com ela, então não importa se a idéia dela
lhe serve, isso é secundário. Enquanto a outra pessoa acreditar,
enquanto puder se beneficiar de tal ponto de vista, ela estará em
seu absoluto direito. Então, precisamos respeitar e aceitar o fato
de que existem diferentes pontos de vista. No campo da economia
dá-se o mesmo: nossos competidores devem obter algum lucro, pois
eles também precisam sobreviver. Quando temos uma visão mais ampla
baseada na compaixão, creio que tudo se torna mais fácil. Compaixão,
mais uma vez, é o fator-chave.

Os conflitos mundiais estão hoje consideravelmente menos tensos.
Felizmente, agora podemos pensar e falar seriamente sobre
desmilitarização. Cinco anos atrás isso seria difícil, mas hoje a
Guerra Fria entre os Estados Unidos e a ex-União Soviética acabou.
Aos meus amigos americanos eu sempre digo: A força de vocês não vem
das armas nucleares, mas dos nobres ideais de democracia e liberdade
dos seus antepassados. Quando estive nos Estados Unidos em 1991,
pude encontrar o ex-presidente George Bush. Na ocasião, falávamos
sobre a nova ordem mundial e eu lhe disse: Uma nova ordem mundial
com compaixão é ótimo. Sem compaixão, não tenho certeza.
Creio que é um bom momento para pensarmos e falarmos sobre
desmilitarização. Já há sinais de redução armamentícia e, pela
primeira vez, de desnuclearização. Passo a passo, vamos vendo uma
diminuição de armas. Penso que nossa meta deveria ser a de livrar o
mundo — nosso pequeno planeta — das armas. Isso não quer dizer,
porém, que devamos abolir todo tipo de armas. Talvez seja preciso
guardar algumas, pois há sempre algumas pessoas e grupos criando
confusão entre nós. Por precaução, e para nos resguardarmos desses
focos, poderíamos criar um sistema internacional de forças policiais
monitoradas regionalmente, que não pertençam a nenhum país mas sejam
controladas coletivamente e supervisionadas por uma organização
internacional, como as Nações Unidas. Sem armas disponíveis, não
haveria perigo de conflito militar entre as nações, nem haveria
guerras civis.
A guerra continua sendo, para nossa tristeza, parte da história
humana, mas acho que chegou a hora de mudar os conceitos que levam à
guerra. Certas pessoas acham gloriosa a guerra, e que através dela
podem se tornar heróis. Essa atitude comum em relação à guerra é
muito errada. Um entrevistador me disse, um desses dias, que os
ocidentais têm muito medo da morte, mas que os orientais a temem
pouco. Eu lhe respondi, em tom de brincadeira, que para a
mentalidade ocidental, a guerra e a instituição militar parecem
extremamente importantes. Guerra significa morte — provocada, e não
por causas naturais. Assim, são vocês, ocidentais, que não temem a
morte, porque gostam tanto da guerra. Nós, orientais, principalmente
nós, tibetanos, não podemos nem pensar em guerra; lutar, para nós,
está fora de cogitação porque o resultado inevitável da guerra é o
desastre: morte, ferimentos e miséria. Portanto, o conceito de
guerra para nós é extremamente negativo. Isso quer dizer que, na
realidade, temos mais medo da morte do que vocês, você não acha?

Infelizmente, alguns fatores fazem que nossas idéias sobre a guerra
sejam muito incorretas. É hora, portanto, de pensar seriamente sobre
desmilitarização. Eu senti isso profundamente, durante e depois da
crise do Golfo Pérsico. Claro, todos culparam Sadam Hussein, e não
há dúvida de que Sadam Hussein é negativo — ele errou de muitas
maneiras. Afinal, ele é um ditador, e ditadores são obviamente
negativos. No entanto, sem sua organização militar, sem suas armas,
Hussein não seria aquele tipo de ditador. Quem lhe forneceu as
armas? Os fornecedores também têm responsabilidade. Alguns países
ocidentais lhe forneceram armas sem medir as conseqüências.
Pensar apenas em dinheiro, em lucrar vendendo armas, é realmente
horrível. Certa vez, encontrei uma francesa que passara muitos anos
em Beirute, no Líbano. Ela me disse, com grande tristeza, que
durante a crise em Beirute havia gente de um lado da cidade ganhando
dinheiro com a venda de armas, enquanto do outro lado, no mesmo dia,
havia gente inocente sendo morta pelas mesmas armas. Da mesma forma,
de um lado do planeta há pessoas vivendo suntuosamente com o lucro
auferido da venda de armas, enquanto pessoas inocentes morrem do
outro lado do planeta, vítimas daquelas balas sofisticadas. O
primeiro passo, portanto, é parar a venda de armas. às vezes eu
brinco com meus amigos suecos: Vocês são mesmo maravilhosos.
Mantiveram a neutralidade durante o último conflito e sempre
consideram a importância dos direitos humanos e da paz mundial.
ótimo. Mas, nesse meio tempo, estão vendendo muitas armas. Há uma
pequena contradição aí, não há?
Assim, desde a crise do Golfo Pérsico, prometi a mim mesmo que pelo
resto da minha vida contribuirei para avançar a idéia da
desmilitarização. No que diz respeito ao meu país, já resolvi que,
futuramente, o Tibete deverá ser uma zona totalmente
desmilitarizada. Mais uma vez, para tornar a desmilitarização uma
realidade, o fator chave é a compaixão.

Gostaria de concluir explicando melhor o significado de compaixão,
que freqüentemente é mal entendido. Compaixão verdadeira não está
baseada em nossas próprias projeções e expectativas, mas sim nos
direitos do outro: independentemente da outra pessoa ser um amigo
íntimo ou um inimigo, contanto que ela deseje paz e felicidade e
deseje superar o sofrimento, então, baseado nisso, desenvolvemos
respeito verdadeiro para com seus problemas. Isso é compaixão
verdadeira.
Em geral, chamamos qualquer preocupação com um amigo próximo de
compaixão. Isso não é compaixão, é apego. Nem casamentos duram por
apego, embora o apego geralmente esteja presente. Eles duram porque
também há compaixão. Se os casamentos duram pouco, é por perda de
compaixão; só há apego emocional baseado em projeção e expectativa.
Quando o único vínculo entre amigos íntimos é o apego, mesmo uma
questão menor pode causar uma mudança nas projeções. Assim que nossa
projeção muda, o apego desaparece — porque o apego estava baseado
unicamente na projeção e expectativa.
É possível ter compaixão sem apego — e similarmente, ter cólera sem
ódio. Portanto, precisamos esclarecer as diferenças entre compaixão
e apego, e entre cólera e ódio. Tal clareza é útil em nossa vida
diária e em nossos esforços para a paz mundial. Considero esses
valores espirituais como básicos para a felicidade de todos os seres
humanos, tanto do crente quanto do não crente. ¨

(*) Ensinamento dado em Melbourne, Austrália, no National Tennis
Centre, em 4 de maio de 1992 e publicado em "Dimensions of
Spirituality" Wisdom, 1995. Tradução de Bruno D'Avanzo do Centro de
Estudos Budistas Paramitta de Curitiba PR, em sua visita ao CEBB em
julho 1996, e de José Fonseca do CEB-Bodisatva.