terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
BUDISMO - PSICOLOGIA DO AUTOCONHECIMENTO - integral

BUDISMO - PSICOLOGIA DO AUTOCONHECIMENTO
LEIA O LIVRO INTEGRAL NO NOSSO BLOG
http://historiadosamantes.blogspot.com/
Primeira Parte
Dr. Georges da Silva e Rita Homenko
Aproveitamos para deixar aqui o testemunho de nosso agradecimento a Dom Jayanetti Kulatunga (ex - Bhikkhu Anurudha), que nos iniciou no conhecimento do Budismo, e aos que nos auxiliaram na revisão de textos: Isabel Aizim Diamante, Rogel Samuel, Clarisse de Oliveira nossa colaboradora na parte de datilografia - e a muitos outros que direta ou indiretamente nos auxiliaram nesta obra, O presente trabalho Se fundamentou numa bibliografia que podemos dividir em duas partes: a primeira em fontes principais encontradas nas obras de Rhys Davids, Ven. Walpola Rahula, Lama Anagarika Govinda, Thomas Merton, Dwight Goddard, Ciflovedo, Riokan R. M. Gonçalves, e a segunda parte numa bibliografia geral - ambas descritas detalhadamente no final deste livro.
PRIMEIRO CAPÍTULO I. SIDARTA GAUTAMA, O BUDA O Buda1 nasceu em Kapilavastu, capital do reino dos Sakyas, norte da Índia, no século VI A.C. Seu nome era SIDARTA (SIDDHARTA,2 em sânscrito),3: descendia da família GAUTAMA, e era conhecido como Sakya-Muni o sábio do país dos Sakyas. Seu pai, o rei Sudhodana governava o reino dos Sakyas (atualmente Nepal) Sua mãe era a rainha Maya que faleceu logo após seu nascimento e foi substituída por sua irmã Mahapradjapati. 8 Conta a piedosa tradição budista que Sidarta Gautama nasceu no mês de "Vesak" (maio), sendo levado ao templo onde os sacerdotes encontraram em seu corpo os 32 grandes sinais e os 80 pequenos sinais que o predestinavam a ser um grande homem. o sábio Asita profetizou que ele seria, à sua escolha, um poderoso imperador ou um asceta que libertaria a humanidade dos sofrimentos. Sudhodana, impressionado com a profecia, criou Sidarta numa área confinada do palácio, onde ele ficaria alheio as misérias do mundo. Uma meditação do príncipe Sidarta anuncia a concepção da vida que terá depois. Um dia, enquanto seu pai estava ocupado com a cerimônia do ritual da primavera, o jovem príncipe observava pequeninos e delicados pássaros disputando os vermes e insetos que apareciam numa charrua. o príncipe espantou-se, a principio, de como aqueles pássaros, considerados pelos homens como símbolos da realização espiritual, cujo canto está ao nível dos poetas, como aqueles pássaros podiam ser cruéis e mesquinhos, para com outras espécies de animais menores, como os mais ferozes animais. Assim, ainda na infância, o jovem príncipe viu que os pássaros são obrigados a comer para viver e que para tal são obrigados a disputar o alimento com outros. Assim é a natureza; desta generalização extraímos uma lei universal. Pois não somente a natureza é indiferente ao sofrimento e à crueldade, como é ela mesma quem impõe estas condições a todos os seres vivos, se eles querem subsistir. Magoar ou padecer, ou fazer magoar e padecer - tal é a lei da vida. Desta maneira, podemos dizer que o jovem descobriu a inexistência de um Deus misericordioso, regendo o universo. Aos 16 anos, de acordo com os costumes da época, casou-se com Gopa Yasodhara. Os anos passavam-se alegres e descuidados, até que um dia Sidarta viu um mendigo, um velho, um moribundo e um morto. Este encontro, que o comum dos homens aceita como fato consumado, para o príncipe Sidarta despertou no seu interior uma profunda reflexão sobre a realidade da vida e o sofrimento da humanidade e, não se conformando, resolveu procurar a porta de saída desse sofrimento universal. Aos 29 anos, logo depois do nascimento do seu único filho, Rahula, renunciou aos prazeres mundanos e, vestindo o traje amarelo dos ascetas, pôs-se a vagar em busca da verdade e da paz, começando a cumprir-se a profecia de Asita. Durante seis longos e penosos anos, vagou pelo Vale do Ganges, buscando o conhecimento das famosas filosofias de seu tempo; de início discípulo do sábio Alara Kalana, que lhe ensinou a meditação iogue, através da qual alcançou o estado mental conhecido como "a região da percepção e não-percepção". Não convencido dos ensinamentos de seu mestre, Sidarta buscou o grande Uddaka Ramaputra, conseguindo chegar a um grau ainda mais elevado de concentração e percepção que, no entanto, estava ainda longe do que ele buscava. Assim, deixando o mestre, seguido de cinco companheiros embrenhou-se pela floresta de Uruvilva em absoluto ascetismo, buscando o despertar espiritual através da mortificação do corpo. Conta-se que, então, Mara,5 deus dos prazeres, veio à terra pata tentar Sidarta, fazendo tudo ao seu alcance para demovê-lo de seus propósitos, nada conseguindo, entretanto. Tendo chegado ao último grau de esgotamento, quase morrendo de fome, sentindo-se às portas da morte verificou que os sacrifícios não extinguem o desejo, que o conhecimento não se obtém com um organismo enfraquecido, que o sofrimento físico perturba a mente, incapacitando-a de manter a tranqüilidade necessária à meditação. Não satisfeito com as 9 práticas de ascetismo, decidiu voltar a um modo de vida mais natural e seguir seu próprio caminho. As circunstâncias compeliram-no a pensar por si mesmo e a procurar dentro do seu próprio ser a solução almejada que não podia alcançar através dos seus instrutores. Sem ajuda ou orientação de qualquer poder sobrenatural, confiando apenas em seus próprios esforços e intuição, libertou-se de todas as fraquezas, aprimorou o processo de percepção, passou a ver as coisas como elas realmente são por seu próprio conhecimento intuitivo. Assim, finalmente compreendeu a Verdade, a natureza da vida e do Carma que a rege. Aos 35 anos, sentado à beira do Rio Neranjara, perto de Gaya (atual Bihar) ao pé de uma figueira pipal (ficus indica), conhecida mais tarde como árvore Bodhi6 ou Bo (árvore da Sabedoria), atingiu a Iluminação. Pregou seu primeiro sermão - "O Caminho do Meio" - a um grupo de cinco ascetas, antigos companheiros seus, no parque das Gazelas em Isipatana (atualmente Saranath), perto de Benares. Segundo um texto da antiga tradição, Gautama Buda explicou o Caminho do Meio da seguinte maneira: - Há dois extremos, é monges, que devem ser evitados por aqueles que renunciaram ao mundo. - Quais são eles? - Um, é a vida de prazeres, consagrada aos prazeres e à concupiscência, especialmente à sensualidade; essa vida é ignóbil, aviltante e estéril. O outro extremo é a prática habitual do ascetismo, infligindo ao corpo uma vida de cruéis, austeridades e penitências rigorosas, auto mortificações que são penosas, tristes, dolorosas e estéreis. Há uma vida média que é a perfeição, ó monges, que evita estes dois extremos, isto é, levar uma vida humana normal. porém refreando todas as tendências egoístas, e todos os desejos que perturbam nossa mente; é o caminho que abre os olhos e dá compreensão, que leva à paz, à sabedoria e à plena iluminação, ao Nirvana. A partir desse dia ficou conhecido como o Buda, o Sábio, o Iluminado, Bhagavad (BemAventurado), Tathagata7 (Aquele que encontrou a Verdade), Arahant (Liberto), etc. Durante 45 anos ensinou o Caminho a todas as classes de homens e mulheres, reis e camponeses, brâmanes (sacerdotes) e párias, mercadores e mendigos, religiosos e bandidos sem fazer a menor distinção entre eles. Não reconhecia diferença de castas ou grupos sociais: o Caminho que pregava estava aberto a todos os homens e mulheres prontos a compreendê-lo e segui-lo. Foi venerado enquanto viveu, porém nunca proclamou sua divindade. Foi um homem, um homem extraordinário. Faleceu aos 80 anos em Kusinara (atualmente Uttar Pradesh), não deixando nenhum sucessor, mas exortando os discípulos a observarem sua doutrina e disciplina como mestres. O sistema moral e filosófico exposto por Gautama Buda é chamado Dhamma8 em pàli9 ou Dharma em sânscrito, popularmente conhecido por Budismo. 10 Hoje o Budismo está difundido no Ceilão, Birmânia Tai1ândia, Cambodja, Laos, Vietnã, Tibete, China, Japão, Mongólia, Coréia, em algumas regiões da Índia, no Paquistão, Nepal, União Soviética, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, Brasil e muitos outros países. De acordo com a tradição budista, três importantes acontecimentos na vida de Sidarta Gautama ocorreram no dia de lua cheia de Vesak (mês de maio): seu nascimento, sua Iluminação e seu passamento. Festivais são realizados para comemorar esses acontecimentos, conhecidos como celebrações de Vesak. 1. Buda: significa Supremo Iluminado, Desperto, aquele que esta liberto do sono da Ignorância e inundado de Suprema Sabedoria; vem da palavra Budh, que significa "despertar". 2. Siddharta: como termo significa "realização de todos os deuses", abreviação de Sarvarthasiddha. 3. Sânscrito: língua clássica dos brâmanes e sacerdotes; não parece ter sido uma língua popular. Significa "concluído, perfeito"; vem da preposição san que significa "com", e da raiz kr, "fazer". Língua antiga na qual foram escritos os textos religiosos do Hinduísmo e Budismo Mahayana 4. Gautama: significa, em sânscrito, "o mais vitorioso (tama), na terra (gau)". 5. Mara e a tentação, personificada nas paixões humanas; análogo ao "Satanás" bíblico. 6. Bodhi, em páli, significa Iluminação,. Suprema Compreensão, também é chamada a árvore sob a qual o Buda obteve Iluminação. 7. Tathagata: aquele que encontrou a Verdade. Tatha: verdade; agata: chegar, alcançar. Outros epítetos, com respeito ao Buda, são: Sakyamuni: o sábio do país dos Sakyas; Sakyasimba: o leão Sakya; Sugata: o Feliz; Sattha: o Instrutor; Sarvajna: o Onisciente. (Prof. Mário Lobo Leal, O Dhammapada.) 8. Dhamma (páli) ou Dharma (sânscrito): palavra com muitas significações. Derivada da raiz dhr, no sentido de "sustentar", portanto dharma é aquilo que sustenta os esforços da pessoa" quando esta prática de acordo com ele. Também nos textos budistas significa Lei, isto é, a Lei que governa o aparecimento, existência e desaparecimento de todos os fenômenos físicos e psicológicos. Os ensinamentos de Gautama Buda são chamados tradicionalmente de Dharma ou Dhamma. (XIV Dalai Lama, A Visão da Sabedoria. Obra citada.) 9.Pàli: língua derivada do sânscrito, usada pelos monges budistas; língua em que foram originalmente escritos os cânones Budistas da Escola Theravada.
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FELICIDADES!
quinta-feira, 11 de março de 2010
No Ajahn Chah

A Paz que está mais além
"...Meditar significa pacificar a mente de modo a permitir que a sabedoria surja…Para colocar de forma sucinta, é apenas uma questão de felicidade e infelicidade. A felicidade é uma sensação agradável na mente, a infelicidade é justamente a sensação desagradável. O Buda ensinou a separar essa felicidade e infelicidade da mente..."
É muito importante que pratiquemos o Dhamma. Se não praticarmos, então todo o nosso conhecimento será somente um conhecimento superficial, a sua cobertura externa somente. É como se tivéssemos um certo tipo de fruta mas que ainda não a tivéssemos comido. Apesar de termos essa fruta nas nossas mãos, ela não nos traz nenhum benefício. Somente comendo a fruta é que podemos realmente conhecer o seu sabor.
O Buda não louvava aqueles que simplesmente acreditavam nos outros, ele louvava a pessoa que tinha o conhecimento interiorizado. O mesmo que com a fruta, se nós já a tivermos provado, não precisaremos perguntar a ninguém mais se ela é doce ou azeda. Os nossos problemas estão solucionados. Porque estão resolvidos? Porque vemos de acordo com a verdade. Aquele que compreendeu o Dhamma é como aquele que percebeu a doçura ou acidez da fruta. Todas as dúvidas terminam nesse momento.
Quando falamos sobre o Dhamma, embora possamos falar muito, usualmente, isso pode ser resumido em quatro coisas. Elas são simplesmente entender o sofrimento, entender a causa do sofrimento, entender o fim do sofrimento e entender o caminho da prática que conduz ao fim do sofrimento. Isso é tudo. Tudo que experimentamos até agora no caminho da prática se resume nessas quatro coisas. Quando entendermos essas coisas, os nossos problemas terminam.
De onde surgem essas quatro coisas? Elas surgem justamente deste corpo e desta mente, de nenhum outro lugar. Então porque o Dhamma do Buda é tão amplo e extenso? Ele é assim de forma a explicar essas coisas de uma maneira mais detalhada, para ajudar-nos a vê-las.
Quando Siddhattha Gotama nasceu neste mundo, antes que ele enxergasse o Dhamma, ele era uma pessoa comum como qualquer um de nós. Quando ele entendeu o que era para ser entendido, isto é, a verdade do sofrimento, a causa, o fim e o caminho que conduz ao fim do sofrimento, ele compreendeu o Dhamma e se tornou um Buda perfeitamente Iluminado.
Quando nós compreendemos o Dhamma, em qualquer lugar que sentemos, entenderemos o Dhamma, em qualquer lugar que estejamos, ouviremos os ensinamentos do Buda. Quando nós compreendemos o Dhamma, o Buda está dentro da nossa mente, o Dhamma está dentro da nossa mente e a prática que conduz à sabedoria está dentro da nossa mente. Ter o Buda, o Dhamma e a Sangha dentro da nossa mente significa que, boas ou más, saberemos claramente, por nós mesmos, a verdadeira natureza das nossas ações. Foi assim que o Buda descartou as opiniões mundanas, ele descartou os elogios e as críticas. Quando as pessoas o elogiavam ou criticavam ele simplesmente aceitava ambos pelo que eram. Essas duas coisas são simplesmente condições mundanas, assim ele não se abalava com elas. Porque não? Porque ele conhecia o sofrimento. Ele sabia que se ele acreditasse nesse elogio ou crítica, estes lhe causariam sofrimento.
Quando o sofrimento surge ele nos agita, nos sentimos perturbados. Qual é a causa desse sofrimento? É porque não conhecemos a Verdade, essa é a causa. Quando a causa está presente, então o sofrimento surge. Uma vez que surge nós não sabemos como pará-lo. Quanto mais tentamos pará-lo, mais intenso ele fica. Nós dizemos, "Não me critique", ou "Não ponha a culpa em mim". Ao tentar pará-lo dessa forma, o sofrimento fica realmente mais intenso e ele não irá parar.
Portanto, o Buda ensinou que o caminho que conduz ao fim do sofrimento é fazer surgir o Dhamma como uma realidade dentro das nossas mentes. Nos tornamos alguém que testemunha o Dhamma por si mesmo. Se alguém diz que somos bons, nós não nos perdemos nisso; eles dizem que não somos bons, nós não nos perdemos nisso; eles dizem que não somos bons e nós não nos esquecemos de nós mesmos. Dessa forma podemos nos libertar. "Bem" e "mal" são apenas dhammas mundanos, eles são, apenas, estados da mente. Se os seguirmos, a nossa mente se transforma no mundo, nós ficamos tateando no escuro e não sabemos onde está a saída. Se é assim, então ainda não temos controle sobre nós mesmos. Tentamos derrotar os outros, mas agindo assim apenas derrotamos a nós mesmos; porém se temos controle sobre nós mesmos então temos controle sobre tudo - sobre todas as formações mentais, visões, sons, aromas, sabores e sensações corporais. Agora estou falando de coisas externas, elas são assim, mas o exterior também está refletido internamente. Algumas pessoas apenas conhecem o exterior, elas não conhecem o interior. Como quando dizemos para "ver o corpo no corpo". Ver o corpo exterior não é suficiente, precisamos conhecer o corpo dentro do corpo. Então, tendo investigado a mente, devemos conhecer a mente dentro da mente.
Porque devemos investigar o corpo? O que é esse "corpo no corpo"? Quando falamos conhecer a mente, o que é essa "mente"? Se não conhecermos a mente então não conheceremos as coisas dentro da mente. É ser alguém que não conhece o sofrimento, não conhece a causa, não conhece o fim e não conhece o caminho. As coisas que deveriam ajudar a extinguir o sofrimento não funcionam porque nós somos distraídos pelas coisas que o agravam. É como se tivéssemos uma coceira na cabeça e coçássemos a perna! Se é a nossa cabeça que está coçando então obviamente não vamos obter muito alívio. Da mesma forma, quando o sofrimento surge, não sabemos como lidar com ele, não conhecemos a prática que conduz ao fim do sofrimento.
Por exemplo, vejam o corpo, este corpo que cada um de nós trouxe a esta reunião. Se somente virmos a forma do corpo não há como escapar do sofrimento. Porque não? Porque ainda não enxergamos o interior do corpo, somente vemos o exterior. Somente o vemos como algo belo, que possui substância. O Buda disse que somente isso não é o suficiente. Nós vemos o exterior com os nossos olhos; uma criança pode vê-lo, animais podem vê-lo, não é difícil. O exterior do corpo pode ser visto com facilidade, mas ao vê-lo nos prendemos a ele, não conhecemos a verdade a seu respeito. Ao vê-lo nós o agarramos e ele nos morde!
Portanto devemos investigar o corpo dentro do corpo. Não importa o que exista no corpo, vá em frente e olhe. Se virmos somente o exterior, não estará nítido. Vemos cabelo, unhas e assim por diante e elas são apenas coisas belas que nos atraem, por isso o Buda nos ensinou a olhar para dentro do corpo, para ver o corpo dentro do corpo. O que é o corpo? Olhem para dentro atentamente! Veremos muitas coisas ali que nos surpreenderão, porque apesar de estarem dentro de nós, nós nunca as vimos. Para qualquer lugar que caminhemos, nós vamos carregá-las conosco, sentados em um carro, nós vamos levá-las conosco, mas mesmo assim não as conhecemos!
É como quando visitamos alguns parentes e eles nos dão um presente. Nós o pegamos e colocamos na nossa mala e depois saímos sem abri-lo para ver o que é. Quando finalmente o abrimos - está cheio de cobras venenosas! O nosso corpo é igual. Se virmos somente a sua casca diremos que ele é agradável e bonito. Nós nos esquecemos. Esquecemos que é impermanente, insatisfatório e não-eu. Se olharmos dentro deste corpo veremos que ele é realmente repulsivo. Se virmos de acordo com a realidade, sem tentar disfarçar as coisas, veremos que ele é realmente patético e cansativo. O desapego irá surgir. Essa sensação de "desinteresse" não quer dizer que sintamos aversão pelo mundo ou algo parecido; é simplesmente a nossa mente sendo limpa, a nossa mente se soltando dele. Vemos as coisas como elas são por natureza. Não importa como queiramos que sejam, elas serão do seu próprio jeito. Quer riamos ou choremos, elas são simplesmente como são. As coisas que são instáveis, são instáveis; as coisas que são feias, são feias.
Portanto o Buda disse que quando experimentamos visões, sons, sabores, aromas, sensações corporais ou estados mentais, deveríamos libertá-los.Quando o ouvido ouve um som, deixe-o ir. Quando o nariz cheira um aroma, deixe-o ir…deixe-o no nariz! Quando as sensações corporais surgem, solte-se do gostar ou não gostar que vem em seguida, deixe que retornem para onde vieram. O mesmo para os estados mentais. Todas essas coisas, deixe que elas sigam o seu caminho. Isso é o conhecimento. Quer seja felicidade ou infelicidade, é a mesma coisa. A isto se chama meditação.
Meditação significa pacificar a mente de forma que a sabedoria possa surgir. Isso exige que pratiquemos com o corpo e a mente de forma a ver e conhecer as impressões sensuais da forma, do som, do sabor, do toque e das formações mentais. Colocando de modo resumido, é somente uma questão de felicidade e infelicidade. A felicidade é uma sensação agradável na mente, a infelicidade é justamente a sensação desagradável. O Buda ensinou a separar essa felicidade e infelicidade da mente. A mente é aquela que sabe. A sensação [10] é a característica da felicidade ou infelicidade, gostar ou não gostar. Quando a mente se entrega a essas coisas dizemos que ela se apega ou assume que essa felicidade e infelicidade merecem ser guardadas. Esse apego é uma ação mental, essa felicidade ou infelicidade é a sensação.
Quando afirmamos que o Buda nos disse para separar a mente da sensação, ele não quis dizer literalmente colocá-los em lugares diferentes. Ele quis dizer que a mente deve conhecer a felicidade e a infelicidade. Quando estamos sentados em samadhi, por exemplo, e a paz preenche a mente, então a felicidade pode vir mas ela não nos atinge, a infelicidade pode vir mas não nos atinge. Isto é o que quer dizer separar a sensação da mente. Podemos compará-lo com a água e óleo numa garrafa. Eles não se combinam. Mesmo se você tentar misturá-los, o óleo permanece como óleo e a água permanece como água. Porque ocorre isso? Porque eles possuem densidades diferentes.
O estado natural da mente não é nem de felicidade nem de infelicidade. Quando uma sensação entra na mente então a felicidade ou infelicidade surge. Se tivermos atenção plena então entenderemos a sensação agradável como sensação agradável. A mente que sabe não irá se agarrar a ela. A felicidade se encontra ali mas está "do lado de fora" da mente, não está enterrada dentro da mente. A mente simplesmente sabe disso com clareza.
Se separarmos a infelicidade da mente, isso significa que não haverá sofrimento, que nós não o experimentaremos? Sim, nós o experimentamos, porém sabemos que a mente é mente e a sensação é sensação. Nós não nos agarramos a essa sensação ou a carregamos conosco. O Buda separou essas coisas através do conhecimento. Ele sofria? Ele conhecia o estado de sofrimento mas não se apegava a ele, dessa forma dizemos que ele extirpou o sofrimento. E também havia a felicidade, mas ele conhecia essa felicidade, quando ela não é conhecida, é como um veneno. Ele não a tomou como parte de si mesmo. A felicidade ali estava através do conhecimento, mas ela não existia na sua mente. Dessa forma dizemos que ele separou a felicidade e a infelicidade da sua mente.
Quando dizemos que o Buda e os Iluminados aniquilaram as contaminações, [11] não é que eles realmente as aniquilaram. Se eles as tivessem aniquilado então provavelmente nós não teríamos nenhuma! Eles não aniquilaram as contaminações, quando eles as conheceram pelo que elas são, eles se soltaram delas. Alguém que seja estúpido irá se agarrar a elas, mas os Iluminados conheciam as contaminações como veneno nas suas mentes, assim eles as varreram para fora. Eles varreram para fora as coisas que lhes causavam sofrimento, eles não as aniquilaram. Alguém que não saiba disso verá algumas coisas, assim como a felicidade, como boas e então irá agarrá-las, mas o Buda as conhecia e simplesmente as varria para fora.
Mas quando a sensação surge nos entregamos a ela, isto é, a mente carrega consigo aquela felicidade e infelicidade. Na verdade elas são duas coisas distintas. As atividades da mente, sensações agradáveis, sensações desagradáveis e assim por diante, são impressões mentais, elas são o mundo. Se a mente sabe disso ela pode lidar igualmente com a felicidade ou a infelicidade. Porque? Porque ela conhece a verdade acerca dessas coisas. Alguém que não a conhece, as vê como sendo iguais. Se você se apega à felicidade será ali onde irá surgir a infelicidade mais tarde, porque a felicidade é instável, ela muda o tempo todo. Quando a felicidade desaparece, surge a infelicidade.
O Buda sabia disso porque ambas a felicidade e a infelicidade são insatisfatórias, elas possuem o mesmo valor. Quando surgia a felicidade ele a soltava . Ele tinha a prática correta, vendo que ambas as coisas possuem valores e desvantagens iguais. Elas se submetem à lei do Dhamma, isto é, elas são instáveis e insatisfatórias. Uma vez que nascem, elas morrem. Quando ele viu isso, o entendimento correto despertou e a prática correta se tornou clara. Não importa que tipo de sentimento ou pensamento surgia na sua mente, ele sabia que era simplesmente o jogo contínuo da felicidade e infelicidade. Ele não se apegava a elas.
Pouco após a sua iluminação o Buda deu um sermão acerca de entregar-se ao prazer e de entregar-se à dor. "Bhikkhus! Entregar-se ao prazer é o caminho relaxado, entregar-se à dor é o caminho tenso". Essas foram as duas coisas que atrapalharam a sua prática até o dia em que ele se iluminou, porque no início ele não se soltava delas. Assim que ele as entendeu, ele passou a se soltar delas e dessa forma foi capaz de proferir o seu primeiro sermão.
Portanto, dizemos que um meditador não deve seguir o caminho da felicidade ou infelicidade, de preferência ele deve entendê-las. Entendendo a verdade do sofrimento, ele saberá a causa do sofrimento, o fim do sofrimento e o caminho que conduz ao fim do sofrimento. E o caminho que conduz ao fim do sofrimento é a própria meditação. Para colocar de maneira simples, precisamos estar plenamente atentos.
Atenção plena é saber, ou presença da atenção. Exatamente agora o que estamos pensando, o que estamos fazendo? O que temos conosco exatamente neste instante? Observamos dessa forma, estamos conscientes de como estamos vivendo. Quando praticamos dessa forma, a sabedoria pode surgir. Nós consideramos e investigamos todo o tempo, em todas as posturas. Quando uma impressão mental surge e queremos conhecê-la tal como ela é, nós não a tomamos como sendo algo com substância. É apenas felicidade. Quando a infelicidade surge sabemos que se trata da entrega à dor, não é o caminho de um meditador.
Isto é o que chamamos de separar a mente da sensação. Se formos espertos não nos apegamos, deixamos as coisas como são. Nos tornamos "aquele que sabe'. A mente e a sensação são como óleo e água, elas estão na mesma garrafa mas não se misturam. Mesmo se estivermos enfermos ou com dor, ainda assim entenderemos a sensação como sensação, a mente como mente. Conhecemos os estados desconfortáveis ou confortáveis mas não nos identificamos com eles. Somente permanecemos com a paz, a paz que está além do conforto e da dor.
Você deve entender dessa forma, porque se não há um eu permanente então não existe refúgio. Você deve viver dessa forma, isto é, sem felicidade e sem infelicidade. Você permanece simplesmente com esse entendimento, você não carrega essas coisas.
Enquanto não alcançarmos a iluminação tudo isso pode soar estranho mas não tem importância, nós simplesmente colocamos o nosso objetivo nessa direção. A mente é a mente. Ela encontra a felicidade e a infelicidade e as vemos apenas como tais, nada além disso. Elas são divididas, não misturadas. Se estiverem misturadas então não as entenderemos. É como viver em uma casa, a casa e o seu morador estão relacionados, porém separados. Se a nossa casa está em perigo ficamos aflitos porque precisamos protegê-la, mas se a casa pegar fogo precisaremos abandoná-la. Se uma sensação desconfortável surge nós a abandonamos, tal como com a casa. Se ela estiver em chamas e nós soubermos disso, sairemos correndo. São duas coisas distintas; a casa é uma coisa, o morador é outra.
Dizemos que separamos a mente e a sensação dessa forma, mas na verdade por natureza elas já estão separadas. A nossa realização é simplesmente conhecer essa separação natural de acordo com a realidade. Quando dizemos que elas não estão separadas é porque por ignorância da verdade nos apegamos a elas.
Por isso o Buda nos disse para meditar. Essa prática de meditação é muito importante. Somente conhecer com o intelecto não é suficiente. O conhecimento que é obtido através da prática com uma mente tranqüila e o conhecimento que é obtido através do estudo são dois tipos realmente muito distintos. O conhecimento que é obtido através do estudo não é o verdadeiro conhecimento da nossa mente. A mente tenta agarrar e manter esse conhecimento. Porque tentamos mantê-lo? Solte-o ! E então quando o soltamos, lamentamos!
Se realmente tivermos o conhecimento, então poderemos nos soltar de tudo, que as coisas sejam como são. Sabemos como as coisas são e não nos esquecemos. Se acontecer de ficarmos enfermos não nos perderemos nisso. Algumas pessoas pensam, "Este ano estive enfermo todo o tempo, não pude nunca meditar". Essas são as palavras de uma pessoa realmente tola. Alguém que esteja enfermo e morrendo deve realmente ser diligente na sua prática. Uma pessoa pode dizer que não confia no seu corpo e por isso sente que não consegue meditar. Se pensarmos assim então as coisas ficarão difíceis. O Buda não ensinou dessa forma. Ele disse que aqui mesmo é o lugar para meditar. Quando estamos enfermos ou morrendo é quando podemos realmente ver e conhecer a realidade.
Outras pessoas dizem que elas não têm a oportunidade de meditar porque estão muito ocupadas. Algumas vezes professores me procuram. Eles dizem que possuem muitas responsabilidades e por isso não têm tempo para meditar. Eu lhes pergunto, "Quando vocês estão ensinando, vocês têm tempo para respirar?" Eles respondem, "Sim". "Portanto como que vocês têm tempo para respirar se o trabalho é tão agitado e confuso? Nesse caso, vocês estão distantes do Dhamma."
Na realidade, esta prática é justamente sobre a mente e as sensações. Não se trata de algo que você tenha de correr atrás ou se esforçar. A respiração continua enquanto trabalhamos. A natureza toma conta dos processos naturais - tudo que precisamos fazer é estar atentos. Continuar tentando apenas, ver internamente com clareza. A meditação é assim.
Se tivermos essa atenção presente, então todo trabalho que façamos será a ferramenta que nos permitirá continuamente saber o que é certo e o que é errado. Existe muito tempo para meditar, nós apenas não entendemos a prática de forma completa, isso é tudo. Enquanto estamos dormindo, respiramos; comendo, respiramos, não é mesmo? Porque não temos tempo para meditar? Onde quer que seja que estejamos, respiramos. Se pensarmos dessa forma então a nossa vida tem tanto valor quanto a nossa respiração, onde quer que estejamos, temos tempo.
Todos os tipos de pensamentos são condições mentais, não condições do corpo, deste modo, precisamos simplesmente ter a atenção presente, então saberemos o que é certo e o que é errado todo o tempo. Em pé, caminhando, sentado e deitado, existe tempo de sobra. Nós, apenas, não sabemos como usá-lo da forma apropriada. Por favor levem isso em conta.
Não podemos fugir das sensações, precisamos conhecê-las. Sensação é apenas sensação, felicidade é apenas felicidade, infelicidade é apenas infelicidade. Elas são simplesmente isso. Portanto, porque deveríamos nos apegar a elas? Se a mente for esperta, só de ouvir isso seria o suficiente para nos permitir separar a sensação da mente.
Se investigarmos dessa forma continuamente, a mente irá encontrar a libertação, mas não escapará através da ignorância. A mente se solta de tudo, quando ela sabe. Ela não solta devido à estupidez, não porque ela não queira que as coisas sejam como são. Ela solta porque sabe de acordo com a verdade. Isso é ver a natureza, a realidade que está à nossa volta.
Quando sabemos isso somos alguém hábil com a mente, temos habilidade com as impressões mentais. Quando temos habilidade com as impressões mentais somos hábeis com o mundo. Isto é ser um "Conhecedor do Mundo". O Buda era alguém que claramente conhecia o mundo com todas as suas dificuldades. Ele sabia que o que é preocupante e que o que não é preocupante estavam exatamente ali. O mundo é tão confuso, como é que o Buda foi capaz de entendê-lo? Com relação a isso devemos entender que o Dhamma ensinado pelo Buda não está além da nossa capacidade. Em todas as posturas devemos ter a atenção presente e autoconsciência - e quando for o momento para sentar em meditação, fazemos apenas isso.
Nós sentamos em meditação para estabelecer a paz e cultivar a energia mental. Nós não o fazemos com o propósito de explorar algo especial. A meditação de insight é estar sentado em samadhi . Em alguns lugares se diz, "Agora vamos sentar em samadhi, depois disso faremos meditação de insight". Não faça essa separação! A tranqüilidade é a base que faz surgir a sabedoria, a sabedoria é o fruto da tranqüilidade. Dizer que agora vamos fazer a meditação da tranqüilidade e mais tarde insight - você não pode fazer isso! Você somente consegue dividi-las na linguagem. Tal como uma faca, a lâmina está de um lado, a parte de trás da lâmina do outro. Você não consegue dividi-las. Se você pegar um lado irá na verdade ficar com os dois lados. A tranqüilidade faz a sabedoria surgir dessa forma.
A Virtude é o pai e a mãe do Dhamma. No princípio precisamos ter virtude. A virtude é paz. Isso significa que não existem ações incorretas com o corpo ou a linguagem. Quando não agimos da forma incorreta não ficamos agitados; quando não ficamos agitados, então a paz e o autocontrole surgem na mente. Portanto dizemos que a virtude, concentração e sabedoria são o caminho que todos os Nobres trilharam em direção à iluminação. Eles são um só. A virtude é concentração, a concentração é virtude. A concentração é sabedoria, a sabedoria é concentração. É tal como uma manga. Quando ela é uma flor a chamamos de flor. Quando se torna uma fruta a chamamos de manga. Quando amadurece nós a chamamos de manga madura. Tudo isso é uma manga que muda continuamente. A manga grande se desenvolve da manga pequena, a manga pequena se torna uma grande. Você pode chamá-las de nomes diferentes ou dar um nome só. Virtude, concentração e sabedoria estão relacionadas dessa forma. Ao final todas são o caminho que conduz à iluminação.
A manga, do momento em que surge como uma flor, simplesmente se desenvolve até o amadurecimento. Isso é o suficiente, nós devemos ver dessa forma. Seja o que for que os outros a chamem, não importa. Uma vez nascida ela cresce até envelhecer, e depois o que? Devemos meditar sobre isso.
Algumas pessoas não querem envelhecer. Quando elas envelhecem elas ficam se lamentando. Essas pessoas não deveriam comer mangas maduras! Porque queremos que as mangas amadureçam? Se não amadurecem no tempo certo, nós as amadurecemos artificialmente, não é verdade? Porém quando envelhecemos ficamos cheios de lamentações. Algumas pessoas choram, elas temem envelhecer ou morrer. Se é assim, então elas não deveriam comer mangas maduras, melhor comer somente as flores! Se podemos enxergar isso, então poderemos ver o Dhamma. Tudo fica claro, estamos em paz. Decida-se a praticar dessa forma.
Assim, hoje, o Chefe Conselheiro e o seu grupo vieram juntos para ouvir o Dhamma. Vocês deveriam tomar o que eu disse e analisar tudo cuidadosamente. Se algo não estiver correto, por favor me desculpem. Mas para saberem se está certo ou errado, depende de praticarem e enxergarem por si mesmos. Aquilo que estiver errado, joguem fora. Aquilo que estiver certo, guardem e usem. Mas na verdade, nós praticamos para soltar ambos, o que é correto e o que é incorreto. Ao final jogamos tudo fora. Se for correto, jogue fora; se for incorreto, jogue fora! Usualmente, se for correto nos apegamos à correção, se for incorreto, nos agarramos à idéia de que é incorreto e então as discussões surgem. Mas o Dhamma é o lugar onde não existe nada - absolutamente nada.
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Notas:
10. Sensação é uma tradução da palavra em Pali vedana, e deve ser entendida com o sentido dado por Ajaan Chah: como os estados mentais de gostar, não gostar, alegria, tristeza, etc.
11. Contaminações, ou kilesa, são os hábitos nascidos da ignorância que infestam as mentes de todos os seres não iluminados.
Ajahn Chah

Nosso Verdadeiro Lar
Uma palestra para uma discípula leiga idosa que está morrendo
Por Ajahn Chah
Agora determine que a sua mente ouça o Dhamma. Durante o período em que eu estiver falando, preste atenção às minhas palavras como se o próprio Buda estivesse sentado à sua frente. Feche os olhos e sente-se confortavelmente, componha a sua mente e faça com que ela foque a atenção em um só ponto. Com humildade permita que a Jóia Tríplice da sabedoria, verdade e pureza encontre um lugar no seu coração como forma de demonstrar o seu respeito pelo Iluminado.
Hoje eu não trouxe nada material, com substância para oferecer-lhe, somente o Dhamma, os ensinamentos do Buda. Ouça bem. Você precisa entender que mesmo o próprio Buda, com o seu grande depósito de virtude acumulada, não pôde evitar a morte física. Quando ele alcançou a velhice, ele abandonou o seu corpo e soltou o seu pesado fardo. Agora você também precisa aprender a estar satisfeita com os muitos anos em que esteve sujeita a esse corpo. Você deveria sentir que já chega.
Você pode compará-lo a utensílios de cozinha que teve por muito tempo - suas xícaras, pires, pratos e assim por diante. Quando você os comprou eles estavam limpos e brilhantes mas agora após usá-los por tanto tempo, eles mostram os sinais do tempo. Alguns já estão quebrados, outros desapareceram e aqueles que sobraram estão se deteriorando; eles não possuem uma forma estável, e faz parte da sua natureza que seja assim. Com o corpo é o mesmo - esteve continuamente mudando desde o dia em que você nasceu, através da infância e adolescência, até agora quando alcançou a velhice. Você precisa aceitar isso. O Buda disse que os fenômenos, (sankharas), quer sejam internos, do corpo, ou externos, são desprovidos de um eu, a mudança faz parte da natureza deles. Contemple essa verdade até que você a veja claramente.
Esse mesmo pedaço de carne que aqui está deitado em decadência é saccadhamma, a verdade. A verdade deste corpo é saccadhamma, e esse é o ensinamento imutável do Buda. O Buda nos ensinou a olhar para o corpo, contemplá-lo e aceitar a sua natureza. Precisamos estar em paz com o corpo, não importando o estado em que ele esteja. O Buda ensinou que devemos nos assegurar que somente o corpo esteja aprisionado e não permitir que a mente seja aprisionada junto. Agora, à medida que o seu corpo começa a perder vitalidade e deteriorar pela idade, não resista a isso, mas não permita que a sua mente se deteriore junto com ele. Mantenha a mente separada. Energize a sua mente compreendendo a verdade de como as coisas são. O Buda ensinou que essa é a natureza do corpo, não pode ser de outra forma: tendo nascido, ele envelhece e se enferma e depois morre. Essa é uma grande verdade com a qual você está se deparando agora. Olhe para o corpo com sabedoria e entenda isso.
Se a sua casa estiver inundada ou completamente queimada, qualquer que seja o perigo que a ameace, faça com que seja somente com a casa. Se ocorrer uma enchente, não permita que ela inunde a sua mente. Se ocorrer um incêndio, não permita que ele queime o seu coração. Deixe que seja somente a casa, aquilo que é externo a você, fique inundada e queimada. Permita que a mente se liberte dos seus apegos. Este é o momento certo.
Você já está viva há muito tempo. Os seus olhos já viram inumeráveis formas e cores, os seus ouvidos ouviram tantos sons, você teve incontáveis experiências. E isso é tudo que elas foram - somente experiências. Você comeu comidas deliciosas, e todos os sabores deliciosos foram somente sabores deliciosos, nada mais. Os sabores desagradáveis foram somente sabores desagradáveis, isso é tudo. Se o olho vê uma forma bonita, isso é tudo, somente uma forma bonita. Uma forma feia é somente uma forma feia. O ouvido ouve um som que hipnotiza, melodioso e não é nada além disso. Um som áspero, sem harmonia é somente isso.
O Buda disse que pobre ou rico, jovem ou velho, humano ou animal, nenhum ser neste mundo pode manter a si mesmo em um mesmo estado por muito tempo, tudo experimenta mudança. Esse é um fato da vida para o qual não há remédio. Mas o Buda disse que o que podemos fazer é contemplar o corpo e a mente de tal forma a ver a sua impersonalidade, ver que nenhum deles é "eu" ou "meu". Eles possuem meramente uma realidade provisória. É como esta casa: ela é sua somente de forma nominal, você não a pode levar para nenhum lugar. Ocorre o mesmo com a sua fortuna, as suas posses e a sua família - elas são todas suas somente no nome, na verdade elas não lhe pertencem, elas pertencem à natureza. Agora essa verdade não se aplica somente a você, todos estão na mesma posição, mesmo o Buda e os seus discípulos iluminados. Eles diferem de nós apenas num aspecto, na aceitação das coisas do modo como elas são, eles viram que não pode ser de outro modo.
Portanto o Buda nos ensinou a mapear e examinar este corpo, das solas dos pés até o topo da cabeça e em seguida até as solas dos pés novamente. Dê uma olhada no corpo. Que tipo de coisas você vê? Existe algo que seja intrinsecamente limpo? Você pode encontrar alguma essência permanente? Todo este corpo está constantemente se degenerando e o Buda nos ensinou a ver que ele não nos pertence. Faz parte da natureza que o corpo seja assim porque todos os fenômenos condicionados estão sujeitos à mudança. De que outra forma poderia ser? Na verdade, não existe nada de errado com o corpo. Não é o corpo que faz com que você sofra, mas sim a sua forma de pensar incorreta. Quando você vê o certo de maneira errada, inevitavelmente haverá confusão. É como a água de um rio. Ela naturalmente flui quando há uma inclinação, ela nunca flui em sentido contrário, assim é a natureza. Se uma pessoa estivesse às margens de um rio e vendo a correnteza fluindo rapidamente, tolamente desejasse que as águas fluíssem em sentido contrário, ela iría sofrer. O que quer que ela estivesse fazendo, a sua maneira errada de pensar não lhe daria paz. Ela ficaria infeliz devido ao seu entendimento incorreto, pensando contra a correnteza. Se ela tivesse o entendimento correto ela veria que a água deve inevitavelmente fluir de acordo com a inclinação, e até que ela entenda e aceite esse fato, a pessoa ficará agitada e preocupada.
O rio que flui de acordo com a inclinação é igual ao seu corpo. Tendo sido jovem seu corpo envelheceu e agora está fluindo tranqüilamente para a morte. Não fique desejando que seja diferente, não é algo que você tem o poder de remediar. O Buda nos disse para ver as coisas como elas são e então soltar o nosso apego em relação a elas. Tome essa noção de abandono como o seu refúgio.
Sustente a meditação, mesmo que você se sinta cansada e exausta. Deixe que a sua mente permaneça com a respiração. Respire fundo algumas vezes e depois fixe a mente na respiração usando a palavra "Buddho" como mantra. Faça disso uma prática rotineira. Quanto mais exausta você estiver, mais sutil e focalizada deve ser a sua concentração, assim você poderá suportar as sensações dolorosas que surgem. Quando você começar a se sentir cansada, faça com que todo o seu pensamento pare, que a mente se recupere e se volte para conhecer a respiração. Mantenha a recitação interior: "Bud-dho, Bud-dho". Solte tudo que é externo. Não se apegue a pensamentos acerca dos seus filhos e parentes, não se apegue a absolutamente nada. Solte. Deixe que a mente se unifique em um só ponto e permita que essa mente acalmada permaneça com a respiração. Faça com que a respiração seja o seu único objeto de interesse. Concentre até que a mente se torne cada vez mais sutil, até que as sensações sejam insignificantes e que haja uma grande clareza e vivacidade interiores. Então quando surgirem sensações dolorosas elas irão gradualmente ceder por si mesmas. Finalmente, você irá olhar para a respiração como se fosse um parente que a tivesse vindo visitar.
Quando um parente vai embora, nós o acompanhamos até a porta. Esperamos até que já não o possamos ver mais e então voltamos para dentro. Observamos a respiração da mesma forma. Se a respiração é grosseira, nós sabemos que ela é grosseira. Se ela é sutil, sabemos que é sutil. À medida que ela vai se tornando cada vez mais discreta nós a acompanhamos, simultaneamente despertando a mente. Eventualmente a respiração desaparece por completo e tudo o que resta é a sensação de estar alerta. A isto se denomina encontrar o Buda. Temos aquele entendimento cristalino que é chamado de "Buddho", aquele que sabe, aquele que está desperto, aquele que irradia. É encontrar e permanecer com o Buda, com conhecimento e clareza. Pois foi somente o Buda histórico de carne e osso que realizou o parinibbana; o verdadeiro Buda, o Buda que é o conhecimento claro e luminoso, nós podemos experimentar e realizar mesmo hoje e quando assim fizermos, o coração é um só.
Portanto, solte, deixe tudo de lado, tudo exceto o conhecimento. Não se iluda se visões ou sons surgirem na sua mente durante a meditação. Deixe-os de lado. Não se apegue a absolutamente nada. Permaneça apenas com essa atenção não dual. Não se preocupe com o passado ou o futuro, fique tranqüila e você irá alcançar o lugar onde não existe progresso, recuo e nem parada, onde não existe nada para se agarrar ou apegar. Porque? Porque não existe "eu" ou "meu". Tudo se foi. O Buda nos ensinou a que fiquemos vazios desse modo, a não carregar nada conosco. Conhecendo e tendo conhecido, solte.
Realizar o Dhamma, o caminho da libertação do ciclo de nascimento e morte, é uma tarefa que todos temos que realizar sozinhos. Portanto, continue tentando soltar tudo e entender os ensinamentos. Coloque esforço real na sua contemplação. Não se preocupe com a sua família. No momento eles são o que são, no futuro serão como você. Não existe ninguém neste mundo que possa escapar a esse destino. O Buda nos disse para deixar de lado tudo aquilo que não possui uma essência verdadeira, permanente. Se você colocar tudo de lado, irá ver a verdade, se você não fizer isso, não irá vê-la. Assim é como é, igual para todos, portanto não se preocupe e não se agarre a nada.
Mesmo que você se dê conta de que está pensando, não há problema, contanto que você pense sabiamente. Não pense de maneira tola. Se você pensar nos seus filhos, pense neles com sabedoria, não de forma tola. Qualquer coisa que chame a atenção da mente, pense e entenda aquela coisa com sabedoria, consciente da sua natureza. Se você entende alguma coisa com sabedoria, então você a solta e não há sofrimento. A mente estará brilhante, feliz e em paz, e evitando distrações ela estará unificada. Neste momento o que lhe pode ajudar e apoiar é a sua respiração.
Essa é uma tarefa sua, de ninguém mais. Deixe que os outros façam as tarefas deles. Você tem a sua própria tarefa e responsabilidade e você não precisa assumir aquelas da sua família. Não assuma nada mais, solte tudo. Esse ato de soltar irá acalmar a sua mente. A sua única responsabilidade agora é de focar a sua mente e fazer com que ela fique em paz. Deixe todo o demais para os outros. Formas, sons, odores, sabores - deixe que os outros tomem conta disso. Deixe tudo isso de lado e faça o seu próprio trabalho, cumpra a sua responsabilidade. O que quer que surja na sua mente, seja medo ou dor, medo da morte, ansiedade pelos outros ou o que seja, diga-lhes: "Não me perturbem. Vocês não são mais minha responsabilidade". Apenas diga isso para si mesma quando você vir esses dhammas surgindo.
A que se refere a palavra "dhamma" ? Tudo é dhamma. Não existe nada que não seja dhamma. E o que seria "mundo" ? O mundo é exatamente o estado mental que a está deixando agitada neste mesmo momento. "O que essa pessoa irá fazer? O que aquela pessoa irá fazer? Quando eu estiver morta quem irá cuidar deles? Como eles irão se arranjar?" Isso tudo é "o mundo". Mesmo o mero surgimento de um pensamento de medo ou dor, é o mundo.
Jogue o mundo fora! O mundo é assim mesmo. Se você permitir que ele surja na mente e domine a consciência então a mente se tornará nebulosa e não poderá ver a si mesma. Portanto, para tudo que surgir na mente, simplesmente diga: "Não diz respeito a mim. É impermanente, insatisfatório e não-eu."
Pensar que você gostaria de viver por muito tempo a fará sofrer. Mas pensar que você gostaria de morrer logo ou muito rapidamente também não é correto, é sofrimento não é? As condições não nos pertencem, elas seguem as suas próprias leis da natureza. Você não pode fazer nada acerca do modo como o corpo é. Você pode embelezá-lo um pouco, fazer com que seja atraente e limpo durante algum tempo, tal como as garotas que passam batom e deixam as unhas crescer. Porém, quando a velhice chega, todos estão no mesmo barco. O corpo é assim, você não pode fazer com que seja de outro modo. Mas o que você pode melhorar e embelezar é a mente.
Qualquer pessoa pode construir uma casa de madeira e tijolos mas o Buda ensinou que esse tipo de casa não é o nosso verdadeiro lar, é nosso só nominalmente. É uma casa no mundo e segue as regras do mundo. O nosso verdadeiro lar é a paz interior. Uma casa pode muito bem ser bonita mas não tem muita paz. Existe esta preocupação e depois aquela, esta ansiedade e depois aquela. Portanto dizemos que ela não é o nosso verdadeiro lar, está fora de nós, cedo ou tarde vamos ter que abrir mão dela. Não é um lugar em que podemos viver permanentemente porque na verdade não nos pertence, é parte do mundo. Com o nosso corpo ocorre o mesmo; assumimos que ele seja parte do eu, que seja "eu" e "meu", mas na verdade não é nada disso, é uma outra casa do mundo. O seu corpo seguiu o seu curso natural do nascimento até agora, está velho e enfermo e você não pode proibi-lo disso, assim é como é. Querer que seja diferente é tão tolo quanto querer que um pato seja uma galinha. Quando você vê que isso é impossível, que um pato tem que ser um pato, e que uma galinha tem que ser uma galinha, que os corpos têm que envelhecer e morrer, você terá energia e força. Não importa quanto você queira que o corpo se mantenha e dure por muito tempo, isso não irá ocorrer.
O Buda disse:
Anicca vata sankhara
Uppada vayadhammino
Uppajjhitva nirujjhanti
Tesam vupasamo sukho.
As formações são impermanentes,
sujeitas a surgir e cessar.
Tendo surgido elas cessam -
a tranqüilização delas é uma bênção.
A palavra "sankhara" refere-se a este corpo e mente. Os sankharas são impermanentes e instáveis, tendo surgido eles desaparecem, tendo aparecido eles cessam, e mesmo assim todos querem que eles sejam permanentes. Isso é uma tolice. Olhe para a respiração. Tendo entrado, ela sai, assim é a natureza, assim é como deve ser. A inspiração e a expiração têm que se alternar, tem que haver mudança. Os sankharas existem através da mudança, você não poderá evitá-lo. Apenas pense: você poderia expirar sem haver inspirado? Você se sentiria bem? Ou você poderia somente inspirar? Queremos que as coisas sejam permanentes, mas elas não podem ser, é impossível. Uma vez que tenhamos inspirado, é necessário expirar, quando expiramos é necessário inspirar outra vez, e assim é a natureza, não é? Tendo nascido, envelhecemos e ficamos enfermos e depois morremos e isso é perfeitamente natural e normal. Porque os sankharas fizeram a sua parte, porque a expiração e a inspiração se alternaram dessa forma, que a raça humana ainda está aqui hoje.
Assim que nascemos, estamos mortos. Nosso nascimento e morte são somente uma coisa. Tal como uma árvore: quando há uma raiz tem que haver galhos. Quando há galhos tem que haver uma raiz. Não se pode ter uma sem a outra. É um pouco engraçado ver como face à morte as pessoas ficam tão angustiadas e distraídas, chorosas e tristes e no nascimento tão felizes e contentes. É a delusão, ninguém nunca vê isso com clareza. Eu penso que se você realmente quer chorar, então seria melhor fazê-lo quando alguém nasce. Pois na verdade o nascimento é morte, morte é nascimento, a raiz é o galho, o galho a raiz. Se você precisa chorar, chore pela raiz, chore pelo nascimento. Veja com atenção: se não houvesse nascimento não haveria morte. Você pode entender isso?
Não pense muito. Somente pense: "Assim é como as coisas são". É a sua tarefa, a sua responsabilidade. Neste exato momento ninguém pode ajudá-la, não há nada que a sua família e as suas posses possam fazer por você. A única coisa que lhe pode ajudar é o entendimento correto.
Portanto não vacile. Solte tudo. Jogue tudo fora.
Mesmo que você não queira soltar, tudo está indo embora de qualquer jeito. Você pode ver como todas as diferentes partes do seu corpo estão tentando escapar? Tome o seu cabelo: quando você era jovem ele era grosso e preto, agora ele está caindo. Está indo embora. Os seus olhos costumavam ser bons e fortes e agora eles estão fracos, a sua vista embaçada. Quando os órgãos já não agüentam mais, eles vão embora, esta não é a casa deles. Quando você era uma criança os seus dentes eram sadios e firmes agora eles estão balançando, talvez você tenha dentadura. Os seus olhos, ouvidos, nariz, língua - tudo está tentando ir embora porque esta não é a casa deles. Você não pode fazer uma morada permanente em um sankhara, você pode permanecer por pouco tempo e depois tem que partir. O mesmo que um inquilino observando a sua pequena casa com os olhos enfraquecidos. Os seus dentes já não estão bem, os seus ouvidos já não estão bem, o seu corpo já não está saudável, todos estão partindo.
Portanto você não precisa se preocupar com nada, porque este não é o seu verdadeiro lar, é somente um abrigo temporário. Tendo vindo a este mundo, você deveria contemplar a sua natureza. Tudo o que existe está se preparando para desaparecer. Olhe para o seu corpo. Existe algo que ainda se encontre na sua forma original? A sua pele está como costumava estar? O seu cabelo? Não é o mesmo, é? Para onde foi tudo? Assim é a natureza, como as coisas são. Quando o tempo chega, as formações seguem o seu próprio curso. Não há nada neste mundo com o qual se possa contar - é um ciclo interminável de perturbações e problemas, prazeres e dores. Não há paz.
Quando não temos um verdadeiro lar somos como um viajante sem rumo, indo em uma direção por algum tempo e depois para outra direção, parando por algum tempo para depois continuar outra vez. Até que regressemos ao nosso verdadeiro lar nos sentimos desconfortáveis com o que quer que estejamos fazendo, da mesma forma como uma pessoa que saiu do seu vilarejo para uma viagem. Somente quando regressa outra vez para casa é que ela pode realmente relaxar e estar em paz.
Em nenhum lugar do mundo pode ser encontrada a paz verdadeira. Os pobres não têm paz e nem os ricos. Os adultos não têm paz, as crianças não têm paz, aqueles com pouca escolaridade não têm paz e nem os que têm muito estudo. Não existe paz em lugar nenhum. Essa é a natureza do mundo.
Aqueles que possuem poucas posses sofrem e da mesma forma aqueles que possuem muitas. Crianças, adultos, velhos, todos sofrem. O sofrimento de ser velho, o sofrimento de ser jovem, o sofrimento de ser rico e o sofrimento de ser pobre - nada além de sofrimento.
Quando você contempla as coisas dessa forma você vê anicca, impermanência e dukkha, insatisfação. Porque as coisas são impermanentes e não trazem satisfação? É porque são anatta, não-eu.
Ambos, o seu corpo que está aqui deitado enfermo e dolorido e a mente que está consciente da sua enfermidade e dor, são denominados dhammas. Aquilo que é desprovido de forma, os pensamentos, sensações e percepções são denominados namadhamma. Aquilo que está atormentado com dores e desconfortos é denominado rupadhamma. O material é dhamma e o não material é dhamma. Portanto vivemos com dhammas, no dhamma, nós somos dhamma. Na verdade não existe um eu que pode ser encontrado em nenhum lugar, só existem dhammas que estão continuamente surgindo e desaparecendo, que é a sua natureza. A cada momento estamos experimentando o nascimento e a morte. Assim é como as coisas são.
Quando pensamos no Buda, da forma tão verdadeira como ele falou, sentimos o quanto ele é digno de que o saudemos, honremos e respeitemos. Sempre que vemos a verdade de algo, vemos os seus ensinamentos, mesmo sem nunca, na verdade termos praticado o Dhamma. Porém mesmo que tenhamos conhecimento dos seus ensinamentos, que os tenhamos estudado e praticado, mas ainda sem ver a verdade que eles contêm, então ainda não teremos um lar.
Portanto, compreenda esse ponto de que todas as pessoas, todas as criaturas, estão prestes a ir embora. Quando os seres viverem um certo tempo eles seguirão o seu caminho. O rico, o pobre, o jovem, o velho, todos os seres irão experimentar essa mudança.
Quando você se der conta de que o mundo é assim, você sentirá que é um lugar que incomoda muito. Quando você se der conta de que não há nada estável ou sólido em que você possa confiar, você se sentirá incomodado e desencantado. Sentir-se desencantado no entanto não significa que você terá aversão. A mente estará clara. Ela vê que não existe nada que possa ser feito para remediar esse estado de coisas, assim é o mundo. Sabendo disso, você pode soltar o apego, soltar com a mente que não está feliz nem triste mas em paz com os sankharas, pois vê com sabedoria a sua natureza de mudança constante.
Anicca vata sankhara – todas as formações são impermanentes. Colocando de maneira simples: impermanência é o Buda. Se vemos um fenômeno impermanente com clareza, veremos que ele é permanente, permanente no sentido de que a sua sujeição à mudança é constante. Essa é a permanência que os seres vivos possuem. Existe transformação contínua, da infância através da juventude até a velhice, e essa mesma impermanência, essa disposição à mudança é fixa e permanente. Se você encará-lo dessa forma o seu coração estará em paz. Não é somente você que tem que passar por isso, são todos.
Quando você considera as coisas dessa forma, você as verá como um incômodo e o desencantamento irá surgir. O seu deleite com o mundo dos prazeres sensuais irá desaparecer. Você verá que se tiver muitas coisas, terá que abandonar muitas coisas; se tiver poucas, abandonará poucas. A riqueza é somente riqueza, uma vida longa é somente uma vida longa, elas não têm nada de especial.
O que é importante é que façamos o que o Buda nos ensinou e que construamos o nosso lar, construi-lo utilizando o método que eu estive lhe explicando. Construa o seu lar. Solte tudo. Solte até que a mente alcance a paz que está livre de avançar, livre de retroceder e livre de ficar imóvel. O prazer não é o nosso lar, a dor não é o nosso lar. O prazer e a dor, ambos, decaem e desaparecem.
O Grande Mestre viu que todos os sankharas são impermanentes e por isso ele nos ensinou a soltar o nosso apego por eles. Quando chegarmos ao fim das nossas vidas, não teremos escolha de qualquer maneira, não seremos capazes de levar nada conosco. Portanto não seria melhor se soltar das coisas antes disso? Elas são somente um fardo pesado que carregamos; porque não se desfazer desse fardo agora? Porque o esforço de carregá-lo conosco? Solte tudo, relaxe e deixe que a sua família tome conta de você.
Aqueles que cuidam de um enfermo, cultivam a bondade e a virtude. Alguém que esteja doente e que oferece aos outros essa oportunidade não deveria dificultar ainda mais as coisas para eles. Se existe dor ou algum outro problema, diga-lhes e mantenha a mente em um estado saudável. Aquele que estiver cuidando dos pais deve preencher a sua mente com cordialidade e bondade e não se deixar pegar pela aversão. Essa é a ocasião em que você pode pagar o seu débito para com eles. Desde o seu nascimento através da infância, conforme você crescia, você esteve na dependência dos seus pais. Estamos aqui hoje porque as nossas mães e pais nos ajudaram de tantas formas. Devemos a eles muita gratidão.
Portanto hoje, todos vocês, crianças e parentes aqui reunidos, juntos, vejam como os seus pais se tornam as suas crianças. Antes vocês eram as crianças deles; agora eles são as crianças de vocês. Eles ficam cada vez mais velhos até que se convertem em crianças novamente. A sua memória fica falha, os olhos já não vêm tão bem e os seus ouvidos não escutam, às vezes misturam as palavras. Não deixem que isso os perturbe. Todos vocês que cuidam dos doentes têm que aprender a soltar. Não se agarrem às coisas, simplesmente soltem-nas e que sigam o seu próprio curso. Quando uma criança é desobediente, às vezes os pais permitem que ela faça o que quer como forma de manter a paz, para fazê-la feliz. Agora os seus pais são como essa criança. A memória e a percepção deles está confusa. Certas vezes eles confundem os seus nomes, ou vocês lhes pedem para trazer uma xícara e eles trazem um prato. É normal, não fiquem transtornados por isso.
Que o paciente possa se lembrar da bondade daqueles que cuidam dele e pacientemente suporte as sensações de dor. Faça um esforço, não permitindo que a mente se torne dispersa e agitada e não dificultando as coisas para quem está cuidando de você. Permita que aqueles que cuidam dos doentes preencham a sua mente com virtude e bondade. Que não tenham aversão pelo aspecto repugnante do trabalho, de limpar o catarro e a fleuma ou a urina e excremento. Façam o melhor possível. Todos na família podem ajudar.
Eles são os únicos pais que você possui. Eles lhe deram a vida, eles foram os seus mestres, suas enfermeiras e seus médicos - eles foram tudo para você. Eles os criaram, educaram, compartilharam as suas posses com você, fizeram de você o herdeiro, esse é o grande benefício feito pelos seus pais. Como resultado, o Buda ensinou as virtudes de kataññu e katavedi, conhecer a nossa dívida de gratidão e tentar repagá-la. Essas duas virtudes são complementares. Se os nossos pais estão passando por necessidades, se não estão bem ou enfrentando dificuldades, então fazemos o melhor possível para ajudá-los. Isto é kataññu-katavedi, é uma virtude que mantem o mundo. Previne que as famílias se separem, faz com que permaneçam estáveis e harmoniosas.
Hoje eu lhes trouxe o Dhamma como um presente nesta ocasião de enfermidade. Não tenho coisas materiais para lhes dar; parece que já existe abundância dessas coisas na casa e assim eu lhes dou o Dhamma, algo que possui um valor de longa duração, algo que vocês nunca conseguirão esgotar. Tendo recebido de mim, vocês podem passá-lo adiante para tantos outros que quiserem e ele nunca será esgotado. Assim é a natureza da Verdade. Estou feliz por dar-lhes este presente do Dhamma e espero que lhes dê força para lidar com a sua dor.
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