sexta-feira, 31 de julho de 2009

Manual para a prática da meditação



A PAZ AO ALCANCE DE TODOS
(Manual para a prática da meditação)
SMRTYUPASTHANA SHASTRA
BIKKU MANGALO
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PREFÁCIO
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A Prática da Concentração (Satipatthana) é uma das práticas básicas do Budismo. O Budismo é famoso, entre a família das religiões, pela clareza da sua aproximação prática, não dogmática, na questão relativa à realização da Verdade. Não é surpreendente, portanto, quando encontramos, exatamente, no coração do Budismo, uma ênfase especial na necessidade do treinamento da mente, a fim de se atingir maior consciência e claridade. Isto é obtido atravós de recursos razoáveis e práticos, simples, que permitem manter a mente focalizada no presente. Naquilo que é, aqui e agora. Mas isto é algo mais do que simples assunto de treinamento mental ou um expediente no sentido de um “instrumento”, pois a Verdade é aquilo que é. A mente assim treinada, focalizando o simples presente diante de nós, sem a cortina de fumaça das preferências e pensamentos associados, através da qual vemos não aquilo que é, mas aquilo que pensamos a respeito dessa realidade, pode atingir algo que em si mesmo é a “porta para a Imortalidade”. Algo simples, direto, obtido na realização do incriado e, portanto, imortal. Aquela realidade que está sempre em nós, no coração do nosso Ser, oculta pelo véu de pensamentos ignorantes.
O mundo moderno, claramente, tem sede por uma nova aproximação prática, não dogmática, porém científica, para a realização das verdades perenes que qualquer um, indistintamente, sabe que existem. Mas que sentimos obscurecidas, pois não possuimos o contato pessoal, direto, com elas, em virtude de religiões dogmáticamente organizadas. Desta forma, a palavra “religião” adquire nas mentes de algumas pessoas uma associação deformada. É uma pena, pois elas voltarão em desespero as costas a essa “religião” buscando verdades para as quais somente a Religião, no seu verdadeiro sentido, pode permitir acesso. Esta sede para aproximação prática, não dogmática, pode ser saciada através simples prática da Concentração, que é na verdade o “coração da meditação Budista”.

A prática da Concentração tem uma vantagem adicional. O indivíduo, tendo adquirido o seu hábito em meditar, pode e na verdade deve praticá-lo em todas as horas através do dia, qualquer que seja sua ocupação. Não é um exercício de “meditação” limitado a ficarmos “sentados” de uma maneira formal. É verdadeiramente uma nova maneira de viver. Um intensificado estado de consciência no qual, em virtude de permanecermos no presente em vez de envolvidos num nevoeiro de fantasias, a vida será vivida mais plenamente. Longe de interferir com nossa vida e as funções do dia-a-dia, a paz e a clara consciência surgidas tornam o indivíduo muito mais senhor de si mesmo e com a cabeça mais clara nos seus julgamentos. Esta é uma das maiores glórias desta prática. Ela é aplicável em todas as horas e situações.

Estritamente falando, a Concentração não é uma propriedade exclusiva do Budismo. É a própria essência da vida espiritual, onde a religião foi tomada no seu nível mais alto. Uma atividade de tempo integral daqueles seres verdadeiramente dedicados e que são encontrados em todas as religiões. A outra alternativa é a vida de esquecimento, movida por impulso, senti-animal, com todas as suas conseqüências. O nome Concentração pode variar. Pode ser chamado Plena-Atenção, guarda do coração, atenção, sobriedade, domínio dos sentidos, viver em Samadhi, mauna, o silêncio do coração, vazio, santa indiferença, equanimidade, Samatha e Vipassana, Samadhi de Prajna, acittata, o pensamento sem suporte, morte do ego, eliminação do pensamento discursivo, visão daquilo que deve ser visto, e uma procissão de outros nomes. Todos, entretanto, vêm a ser no fim a mesma coisa. Assim como a chamada prática da presença de Deus vem a dar no mesmo, pois é somente através da concentração constante que pode mos estabelecer a consciência na mente. “É a vontade de Deus agindo através de mim. Eu sou somente o seu instrumento”, bem como método o Hua Tou do Zen, ou o método de Ramana Maharshi de perguntar constantemente: “Quem sou eu?” Todos chegaram ao mesmo lugar. É através da Concentração que podemos ver o pensamento assim que ele surge. Antes que ele siga urna cadeia de associações. Pela concentração chegamos a ver o “onde”, e “para onde” ele vai, quando o indivíduo compreende aquilo que realmente não surge nem passa. É por isso que o Buda descreve a Concentração como sendo o “único caminho”, prometendo que “a Concen tração conduz a imortalidade”, advertindo que o esquecimento é a morte”.

Embora não seja, de qualquer forma, uma prerrogativa do Budismo foram, entretanto, os ensinamentos do Buda que deram maior ênfase a prática da Concentração, bem como as mais claras restrições do como colocá-la em prática. Uma coisa é chegar a referências enigmáticas, fragmentárias, em escritos deixados por algum obscuro místico, outra, completamente diferente, e ler as claras e detalhadas descrições a respeito da prática como um tema central encontrado nos discursos da suprema autoridade dessa grande religião. Isto não é surpreendente pois, como dizia o falecido Arcebispo de Canterbury, “o cristianisnio é a mais materialista de todas as religiões”. O Budismo pode bem proclamar-se como sendo a mais prática e precisa. Nada omite que seja de valor prático e essencial. Nada acrescenta que seja de interesse puramente teórico. O Buda frequentemente desprezava discussões especulativas por não terem significação prática. Ele, por firme determinação não ensinava dogmas — mesmo que verdadeiros — para serem aceitos pela fé ou intelecto. Conduzia, em vez disso às pessoas, homens comuns, à realização direta, pessoal, da verdade através de si mesmos desde que, como todos condordam, a Verdade Última está além do intelecto. Ele preferia trazer as pessoas face a face com essa verdade através a Concentração em vez de conduzi-las pela Senda Florida da Sofisticação Intelectual.

Essa prática de Concentração, tão central no Budismo, e tratada com detalhes nos textos canônicos que registraram os discursos do Buda, particularmente no “Discurso para a prática da concentração” (Satipatthana Sutta).Há naturalmente, a usual quantidade de trabalhos comentando o assunto. Existem também vários livros escritos por ocidentais a respeito da prática. Dentre eles nota-se “O coração da meditação Budista”, pelo Ven. Nyanaponika. A prática, entretanto, é ensinada sistematicamente no Oriente, especialmente em Burma. Há uma revitalização no interesse nesta técnica tão antiga e, no entanto, eminentemente moderna que se difundiu em muitos países, entre os quais a Inglaterra.

Gostaríamos de apontar um afastamento no método de desenvolver a Concentração que aqui será exposta da maneira que é ensinada na Birmânia, onde a prática é conhecida, comumente, sob o nome de um dos seus pseudônimos — Vipassana. Na Birmânia é costume praticar a “Concentração na respiração” com a atenção colocada no movimento do abdomem durante a respiração. Isto é feito simplesmente para facilitar a observação pois muitas pessoas acham mais fácil, particularmente no começo, centralizar a atenção no movimento grosseiro do abdomem em vez da sensação do ar ao atravessar as naririas. Entretanto, não podemos negar que as descrições clássicas da prática, encontradas nos discursos do Buda e os seus comentários mais antigos, claramente indicam a face como sendo o local ideal para centralizar a atenção. Tal coisa tem gerado alguma oposição à prática como é ensinada na Birmânia, baseada na alegação de ser “uma inovação”. Muitas dessas críticas são tendenciosas e mesmo a crítica sincera tende a aumentar a importância desse pequeno detalhe além da sua proporção. Algumas pessoas tem sido mesmo desencorajadas, deixando de receber os benefícios da prática, o que é uma pena. Para desmanchar tais críticas, a respeito de detalhes menores e essencialmente práticos, preferimos frisar que no ensinamento da atenção ambas as es colas trabalham da mesma forma. Além desse pequeno detalhe a prática aqui escrita é revivida e popularizada na Birmânia sob a adequada orientação de Mahasi Sayadaw em Sasana Yeikta, Rangoon. Temos toda confíança que aqueles que a aplicarem encontrarão a mais simples e prática “porta para a imortalidade”.

‘Tende que fazer o esforço. Os Budas mostram o caminho”.
Centro de Meditação Budista-Biddulph.




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PRÁTICA DA CONCENTRAÇÃO — O MACACO LOUCO
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A melhor maneira de começar é ver onde devemos começar. Olhemos a mente de uma pessoa comum. Mundana. O que encontramos é a mente-gafanhoto, a mente-borboleta, caçando suas fantasias e impulsos do momento.Uma simples presa de estímulos e reações emocionais. Reações que são largamente, permanentemente condicionadas. Cegas. Uma cadeia de associações unidas, esperanças, medos, memorias, fantasias, lamentações, jorrando constantemente através da mente. Desencadeadas pelo contato momentâneo com o mundo externo dos sentidos. É uma busca cega, incessante, insaciável, por satisfação. Sofrimento sem finalidade e confusão. Isto não é realidade, mas um sonho desperto, uma sequência de conceitos e fantasias. O mundo está subdividido em inúmeras formas identificáveis, reconhecíveis. Cada uma delas tem seu nome e na base destes nomes, — imagens conceituais da realidade em nossa volta — a mente tece o manto do pensamento no qual termina se embaraçando. Os objetos mudam, mas seu “nome” permanece o mesmo. A mente aferrada a nomes vazios e imagens, perde ocontato com a realidade ao tentar encontrar, nos produtos de sua própria imaginação, a satísfação e segurança que anseia. Não admiraque a mente tenha sido chamada “a fábrica da ídolos”. Não admira também que o Buda a tenha descrito como um macaco inquieto, de galho em galho, em busca do fruto que o satisfaça através da infindável selva de eventos condicionados. A futilidade, a irrealidade e frustração, inerentes a tal modo de existência, é tão auto-evidente quando o indivíduo principia a ver claramente. A finalidade do Budismo, e da religião em geral, é reunir o indivíduo com a realidade que perdemos de vista devido nossa ignorância ao buscar a felicidade que ansiamos ou de não é encontrada: — nas sombras e ilusões de nossa própria mente. Uma das maravilhas paradoxais desta nossa época, que gosta do autocognominar-se “científica”, é o fato de o homem moderno deixar sua mente continuar essa cega e atormentada corrida de rato numa confusão indisciplinada.. Ao longo do tempo o homem acumulou uma quantidade fenomenal de informações — conceitos — acerca de nomes e formas que habitam no Universo e controlou, disciplinou as forças da Natureza que teriam destruído seus avós. Para obter energia elétrica construiu estruturas de tamanho e custo enormes à custa de dinheiro e trabalho, barrando grandes rios e correntezas. Entretanto, sua própria natureza o ilude. O conhecimento da realidade lhe escapa e ele, inexplicavelmente, não faz o menor esforço pa ra disciplinar seus próprios pensamentos. Mesmo quando começa a perceber a maneira que eles o iludem e atormentam.
Uns poucos, através de incontáveis gerações, nadando contra a correnteza dos mo deles humanos, desempenharam essa tarefa. Sofreram com isso inúmeras privações, desencorajamento, quando no inicio, às cegas e sem instrutor, tentaram achar o Caminho. Alguns conseguiram triunfar, outros tropeçaram com inúmeros sofrimentos, todavia todos, no final, declaram, em línguas diferentes, que encontraram “algo”. “Algo” que uma vez encontrado permite que se conheçam todas as coisas. É o Incriado, a única Realidade perdurável. O nosso próprio Ser e sua “descoberta” é, todos concordam, a suprema felicidade ao lado da qual todo o sofrimento de idades subitamente se torna completamente insignificante. E, de uma forma estranha, mas certa, todos que encontram esse “Algo” encontram o estado além da vida e morte. Algo além dos sentidos, embora nele resida o poder através do qual vemos, ouvimos e pensamos. Esse “Algo” está velado pelo fluir de pensamentos ignorantes que nos impedem a visão do que “é” que nos deixam ver somente aquilo que pensamos a seu respeito. É a velha história do homem que vendo um pedaço de corda dependurado numa árvore, com pouca luz, considera-a como se fosse uma serpente e entra em pânico. Desta forma as coisas ocorrem.. Tomamos nossos pensamentos, meras imagens da realidade, pela própria realidade permitindo que emoções sejam estimuladas por eles. As emoções, por sua vez, produzem mais pensamentos no desejo de satisfazer a perturbação e, assim, o círculo vicioso se completa. O fato é que não podemos pensar a respeito da realidade se não a conhecemos. Sem o jôrro dos pensamentos não haverá emoções perturbadoras. A mente estará em paz não havendo, então, necessidade de pensar.




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A PARALIZAÇÃO DO PENSAMENTO CONCEITUAL
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O primeiro passo, portanto, e cortar a cadeia de conceitos e palavras associados que inundam nossa mente. Devemos sustar nova invasão mantendo a Concentração no presente, naquilo que é. O Buda, num verso famoso assim costumava falar:
“Não corras atras do passado,
Não busques o futuro.
O passado, passou.
O futuro ainda não chegou.
Vê, claramente, diante de ti o Agora,
quando tiveres encontrado
e viveres o tranquilo e imóvel estado mental”.

Este é o começo de uma disciplina mental e o recordar para assim agir é Concentração. Sem esta Concentração o jôrro de pensamentos principia novamente, agitando, nos entristecendo e maculando a mente como a água lamacenta de om lago no qual o vento forma ondas. A claridade da visão, paz da mente, e autoconcentração serão perdidas num simples instante. Por essa razão o Buda chamava a Concentração “o único Caminho”. Um caminho que ele precisamente descrevia numa metáfora:

“Quaisquer que sejam as correntezas fluindo no mundo, a Concentração é a barragem que as retém”.
Quando o “rio Jordão” é barrado, o “povo escolhido” cruza-o de pés secos até a “Terra Santa”. Ou como é dito no Zen:
“A mente louca não pára. Se parar, é a Iluminação”.
A prática da Concentração é um treinamento gradual. A perfeição na autoconcentração é a “Arte das Artes”, a “Ciência das Ciências” para a qual um aprendizado adequado é necessário, O treino de nossa própria mente — (“nossa” nos devidos termos) — é mais duro do que o treinar um cão ou cavalo pois a mente não é menos forte e possui, além disso, todos os truques e ingenuidade humana para encontrar o caminho, a fim de ficar sem controle. Todavia este é um treino valioso, trazendo em si, já nos primeiros estágios, grande paz e alegria e inúmeras riquezas no curso de treinamento. Há pouca esperança de obter a felicidade com uma mente voluntariosa e não concentrada — mesmo que seja a simples felicidade de uma vida pacífica, com finalidade e equilibrada. Como podemos esperar então alcançar o supremo objetivo da vida?

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QUE CONCENTRAÇÃO?

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Mas o que é prática da Concentração? Como nos situar em relação a ela? Concentração é simplesmente o estabelecimento da atenção, com plena consciência, no aqui e agora. É o “pensamento sem suporte”, a “mente veloz” e o verdadeiro “silêncio Ariano”. À medida que cada objeto surge na consciência através das seis entradas (os cinco sentidos e a imaginação) deve ser visto como ele é sem dar boas vindas ou re jeitar. Sem nos aferrarmos a ele ou tentarmos pô-lo de lado. Mas, simplesmente, deixando-o como “se ele fosse um pedaço de madeira podre”, como o grande Huang Po costumava dizer. Esta é a verdadeira significação do “Caminho do Meio” do Budismo: — ver cada um (e todos) objetos assim como eles surgem, com a mente “alerta”, plenamente consciente evitando seja o apego ou a aversão a qualquer coisa. Isto é: — “não desgostes e tudo claro se tornará”, O Buda costumava definir a Concentração da consciência como ver o surgir, a presença e o passar de todas as percepções sensações e pensamentos. “Ele inúmeras vezes costumava dizer que seus ensinamentos, em resumo, “eram”: veja somente o visto naquilo que se vê e ouça somente aquilo que se escuta nas coisas ouvidas”! É tudo a mesma coisa.
Mas quando tentamos fazer isso que encontramos? Vemos que, primeiramente fazer isso, mesmo por poucos minutos, é completamente impossível. A mente é varrida por uma verdadeira correnteza de pensamentos em erupção (ASAVA) e uma inquietação que torna impossível sermos claros e detalhados bastante para evitar reações aos pensamentos e objetos que surgem. O indivíduo nem pode começar: É por essa razão que o Buda em sua sabedoria, compaixão e “perícia nos meios” ensinou a “Prática da Concentração” como o método gradual de treinamento através o qual, de um caos inicial e confusão de uma mente indisciplinada, e com a vontade de um touro, ela pode deixar de “cultuar estranhos deuses” e tornar-se tranquila e conhecendo, por fim, AQUILO QUE É.



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BASES DA CONCENTRAÇÃO
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Em primeiro lugar, uma palavra de advertência. O “‘Samadhi” adequado, ou a tranquilidade mental, o último passo na Nobre Senda Óctupla do Buda que leva à realidade, é somente possível com a correta Concentração. É o passo que conduz a ela. De modo semelhante esta Concentração depende dos passos precedentes, isto é: da Compreensão Correta, Moralidade e Determinação. Tem que haver pelo menos uma boa base para a Compreensão a fim de entendermos a futilidade do transitório e do condicionado à luz do Não-condicionado e de todos os objetos quando o indivíduo está olhando para “si” — o sujeito. A mente não poderá se libertar o suficiente do pensamento a respeito de objetos em constante mutação a não ser através da prática da autoconcentração no aqui e agora. Ela quererá paralisar o pensamento a respeito dos seus ídolos pois, onde estiver, nosso tesouro (Ratana) estará e, também, o nosso coração (Citta). De maneira semelhante a não ser que tenhamos uma boa base numa atitude moral para a vida, a Concentração será construída em areia. Uma consciência má é como a água turva que impede a visão clara da “coisa como ela é”.
Sem paz na mente há pouca esperança na paralisação do fluir dos pensamentos apesar que tenhamos toda a determinação do mundo. Mesmo assim é quase impossível. Naturalmente nenhum de nos é perfeito — longe disso — todos fracassamos deixando de viver a vida que sabemos certa. Mas, a não ser que coloquemos em ação um esforço sincero para viver os preceitos básicos Budistas, estaremos acelerando e freando ao mesmo tempo. Mais tarde uma crescente autoconsciência e paz trarão maior autocontrole. Mas pelo menos uma sincera vontade e esforço para o bem deverá existir e sincero arrependimento (e se possível restituição) por qualquer mal feito. Acima de tudo a mente tem que começar a afastar-se dos modelos antigos. Este é o verdadeiro significado do “arrependimento” — (metanoia).



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UM CURSO DE CONCENTRAÇÃO
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A melhor maneira para aprender a Prática da Concentração é tomar um “curso” sob a direção de um instrutor competente. Nesse caso, devemo-nos colocar, sem reservas, nas suas mãos e seguir a prática, exatamente, como for recomendada.
As instruções que se seguem destinam-se somente para referência e guia básica quando sentimos a necessidade de seu uso. E também para aqueles que, por qualquer razão, não puderem praticar sob a orientação de um instrutor, mas que desejarem fazer um esforço por si mesmos. Com um instrutor as dificuldades são muito reduzidas, pois ele poderá testar o progresso através de relatos diários, corrigindo qualquer perigo nascido da incorreta aplicação dos princípios da prática. É de grande auxílio o sentimento de confiança produzido pela prática sob a direção de um instrutor, mesmo que seja por um curto período. Muitas pessoas sentem que a entrevista diária com seu instrutor aplaina dificuldades específicas, agindo como uma espéie de “recarga” nas suas baterias de imaginações e determinações. Sentir que as coisas não estão indo bem não é necessariamente uma prova de que elas estão indo mal. Na verdade pode ser o sinal de progresso pois pelo menos a pessoa esta começando a ver a forma errada como está sendo feita a prática. Em outras palavras, começamos, por fim, a ver as coisas com mais claridade. Apesar disso podemos subjetivamente não ter consciência no momento e nos alegrar quando, a pós descrever um quadro negro a respeito das dificuldades em controlar a mente, ver o instrutor sorrir com prazer e, quase esfregando as mãos, dizer: “Ah! Agora as coisas estão melhorando!”

Com sua experiência ele poderá dizer como as coisas vão indo, inúmeras vezes por detalhes mínimos insignificantes. A melhor atitude, portanto, e confiar na sua experiência e julgamento, contando-lhe todos os detalhes a respeito do que está ocorrendo. Um contínuo comentário, feito para reforçar o próprio progresso, é um grande obstáculo ao verdadeiro progresso. Algumas pessoas tem a tendência de contar ao instrutor somente o que gostariam que lhes tivesse acontecido em suas práticas. Omitindo detalhes das dificuldades e fracassos que consideram não deveriam ter ocorrido — usualmente devido ao orgulho e na vã tentativa de se iludirem pensando que as coisas estão indo melhor do que na realidade. Esta atitude não é sábia. O instrutor necessita saber o lado bom e mau da prática, ele é o melhor juiz a respeito do que é ou não importante. Inúmeras vezes pequenos detalhes são de enorme importância para ele aquilatar o progresso do praticante.

Outra fraqueza, muito encontrada entre os Ocidentais ao praticarem a meditação, sob um instrutor, é o desejo de saberem mais a respeito da “teoria”: a respei to de “como as coisas vão!”.

Desta forma, eles se enchem de perguntas e objeções desnecessárias que brotam de pensamentos. Como vimos, o pensar é o oposto da prática da Concentração. A teoria deve ser posta de lado nesta ocasião. A melhor coisa é fazer o que manda o instrutor. Como num Império, sua decisão deve ser final. Ligado a esta questão está a preocupação Ocidental com o conceito da Psicologia “o tornar consciente o inconsciente” e outros. Com essa preocupação muitos começam a “olhar” para “erupções no inconsciente”, aos problemas apresentando-se para solução, e por aí afora. Deve-se frisar que a análise psicológica não é parte da prática da Concentração. A única finalidade é ver mais claramente, sem a interferência do pensamento discursivo, aquilo que É, em cada momento, Agora no presente. A meditação é tranquilização da mente e a observação do que É desapaixonadamente.Sem nenhum pensamento — não “eu”, nem “meu”, nem neurose. Da mesma forma que a mente se refresca no sono, ou quando a terapia ocupacional é aplicada ela se afasta de suas preocupações, ou quando um dedo cortado é limpo e deixado curar-se pela ação da Natureza, nossa mente melhor se curará pelo repouso, pela limpeza de estimulantes emocionais e preocupações. Nada nos afeta tanto quanto a prática da Concentração. Se continuarmos a prática chegaremos a ver a irrealidade do conceito do “eu” e com isto destruiremos as bases de todas doenças mentais e tristezas. Não há qualquer recurso, nem modo de ver as coisas, nem tentati vãs para tornar consciente o inconsciente que liberem o indivíduo, por exemplo, de sua “insegurança”, enquanto ele estiver afirmando “eu”, “eu”, corpo e mente nos quais ele busca a segurança. Eles são impermanentes e nenhuma manobra alterara este fato ou permitirá segurança. Entretanto, logo que cair a idéia do “meu” no corpo, todo o problema desaparece. Por esta razão, durante a prática da Concentração, devemos por de lado pelo menos, a análise psicológica. O “eu” constantemente pensando em si mesmo é o problema — não suas preocupações, e nem as formas que toma. A necessidade Ocidental de intelectualizar a respeito da própria prática de meditação é uma das razões principais porque os Ocidentais usualmente demoram mais tempo e acham mais difícil do que os Orientais, um curso de Meditação. Muitos Orientais simplesmente submetendo-se a orientação do instrutor completam o curso em poucas semanas. A maioria dos Ocidentais costuma levar o dobro do tempo.



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PASSOS PRELIMINARES NA PRÁTICA DA CONCENTRAÇÃO
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Particularmente aqueles que estão iniciando um período de pleno treinamento num curso de Concentração deverão, sabiamente, tomar algumas providências, a fim de que sua prática não seja interrompida. O ideal seria a pessoa poder tomar um curso completo, sob instrução adequada, durante um período de tempo indefinido. Em outras palavras: até que o instrutor fique satisfeito ao verificar que plenos benefícios do curso foram obtidos. De outra forma, os pensamentos a respeito da aproximação da época da partida e a sensação de que devemos ter tudo terminado nessa ocasião podem ser obstáculos de monta para quem medita.
Na prática, entretanto, não é sempre possível dispor de um período de tempo indefinido, especialmente nas condições desfavoráveis da cultura Ocidental e na necessidade de atividades para ganharmos a vida. Ainda assim, mesmo em tempo limitado, a prática dará lucro, se feita com resolução e espírito correto, pondo de lado os pensamentos de “por quanto tempo terei que praticar?” e outros semelhantes.

Sempre que possível, a pessoa deve antes da prática por em ordem sua vida. De outra forma, coisas como, negócios, preocupações financeiras, aborrecimentos familiares, respostas de cartas, etc., causam distrações. Durante o período de meditação, devem ser postos de lado todos os pensamentos que nao estejam ligados à meditação, isto é, ao Aqui e Agora

Durante o período de meditação, devemos tentar viver uma vida a mais simples possível, cortando dela fantasias e arrebatamentos desnecessarios. Gastar horas e horas lavando e pasando vestidos de fantasias e aplicando cosméticos não conduz à boa meditação. Na verdade, a maioria dos praticantes deverá, sabiamente, tomar os “8 preceitos”, como o fazem os Budistas Orientais, nessa ocasião. Eles nos levam à renúncia (ao menos temporária) de coisas, tais como: distrações, diversões, uso de cosméticos, perfumes, vestimentas elaboradas, etc.

A sofisticação no vestir e na apresen tação, quando vistas com a devida nitidez, são recursos que a mente utiliza para encontrar uma sensação de segurança e nos convencer de que somos atraentes e belos. Mesmo sem essas distrações, a mente estará bastante irrequieta e em certas ocasiões ansiosa por encontrar “Algo”, em vez de fazer o que lhe parece ser “nada”.

O melhor e deixar o futuro para o futuro (Provavelmente ele nunca ocorrerá!)! O passado deve ser deixado para o passado!
A mente é muito seletiva a respeito do que ela deseja lembrar do passado. Da mesma forma devemos evitar toda a conversa e leitura desnecessarias, bem como andar sem finalidade. Uma boa norma a tomar no período de prática é: “Coma menos, durma menos, converse menos, medite mais”. Após uns poucos dias na Prática da Concentração, verifica-se que necessitamos menos horas de sono. A razão disto é o cérebro, o grande consumidor da maioria de oxigênio do sangue, que é queimado em energia emocional e tensões que nos assolam e perturbam física e mentalmente. Tudo é devido à enorme quantidade de pensamentos carregados de emoção que a mente está naturalmente tratando. Quando isto é cortado por uma maior autoconsciência na Prática da Concentração, alcança-se uma Paz e liberdade do constante emocionalismo. Com isto a mente repousa e é Curada, necessitando, portanto, de menos sono. Uma regra geral seguida nos mosteiros do Oriente mostra a possibilida de de cortar para 4 as horas de sono e, logo a seguir, para duas apenas. Eventualmente é muito comum encontrarmos pessoas que durante dias e dias, ou mesmo semanas. permanecem sem dormir 24 horas mergulhadas em meditação ininterrupta. Apesar disto não tem cansaço nem mostram qualquer efeito maléfico e apresentam um bem-estar e acuidade até então desconhecidos. Para atingir este estado é necessário real dedicação à prática pelo menos no período em que é praticada. É apenas o início de uma série de experiências individuais perfeitamente compatíveis para pessoas que são “homens do mundo”, com um emprego, uma família para zelar e funções da vida a atender. Acima de tudo, devemos manter nossa vida simples, evitando neste período conversas desnecessárias, a não ser com o instrutor, e todas as leituras. Conversas externas tendem a se prolongar na forma de conversas imaginárias.



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EXERCÍCIO BÁSICO DE RESPIRAÇÃO
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Com essas preliminares e atitude correta da mente, a melhor maneira para começar a Prática da Concentração é, como o Buda claramente discorreu no “Discurso à Resposta da Prática de Concentração” (SATIPATTHA NASUTTA). Devemo-nos sentar e estabelecer a atenção na mais sensível e constante função do corpo — a respiração. Ela é uma função semi-automática (SANKHARA) sempre presente em nós na vida normal e completamente neutra do ponto-de-vista emocional. Por estas razões, é o objeto ideal para aprendizado. O indivíduo deve-se concentrar e suster sua atenção naquilo que está ocorrendo, no agora, no presente, no aqui. Muitos acham que a melhor maneira e sentar de pernas cruzadas. Não necessita, entretanto, ser na famosa “posição do lotus” com as plantas dos pés voltados para cima, nas coxas opostas, nem mesmo na posição de “semi-lotus” que produzem em muitas pessoas dores intensas.
A posição simples, “fácil” com as pernas repousando semicruzadas no chão é perfeitamente suficiente. Podemos colocar para ajudar um travesseiro estrategicamente, localizado sob um joelho que nos perturbe.

Se não pudermos ficar sentados de pernas cruzadas, paciência. Isso não é de grande importância. Hoje em dia muitos instrutores de meditação orientais fazem sua meditação sentados numa cadeira. A única importante consideração é que devem ter urna postura ereta, alerta, com a espinha reta que possa ser mantida sem sofrimento durante mais ou menos uma hora. Enquanto praticamos devemos ficar sentados, imóveis, e relaxados mas plenamente em estado de alerta. As mãos podem ficar na posição usual, representadas nas estatuetas do Buda em meditação ou simplesmente uma sobre a outra, apoiadas na parte superior das coxas. A cabeça deve estar ereta, com os olhos fechados e todos os músculos relaxados na medida do possível. A posição, uma vez estabelecida, deve ser mantida, evitando-se reajustamentos desnecessários na postura.

O local adequado para a concentração da atenção é a face. Isto varia ligeiramente de pessoa para pessoa. Alguns acham o melhor ponto uma zona localizada acima do lábio superior. Outros a ponta do nariz. Não importa. O que importa é que cada um encontre o local onde a percepção da respiração seja mais nítida. Algumas respirações experimentais permitem estabelecer esse local em pouco tempo. A atenção deve estar focalizada na sensação física produzida pelo toque do ar não no conceito da respiração. Não devemos também interferir com a respiração que deve fluir normalmente. No começo é um pouco difícil e nos estágios preliminares não é fãcil dissociar a pura atenção, do controle. Entretanto, neste caso devemos tentar evitar, de qualquer forma, o desnecessário e não-natural controle da respiração. Devemos respirar naturalmente, no rítmo normal, com a mente focalizada na sensação do toque do ar nas narinas. No começo pode parecer difícil a percepção clara da passagem do ar. O seu “toque” nas narinas. Continue sem dar importância! A prática e persistência em muito melhorará isso. Devemos tentar ficar consciente da sensação do ar desde o momento que se inicia a inspiração até o seu término e novamente do início da expiração até seu fim. Quando inspiramos devemos mentalizar a palavra inglesa “in” (dentro) Quando expiramos devemos repetir mentalmente a palavra “out” (fora). Este é um recurso para testar se a mente está fazendo a prática em vez de sonhar acordada.



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DISTRAÇÕES
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Se uma pessoa não tiver meditado por algum tempo, ela terá constantemente sua mente afastada da observação na respiração. Pensamentos e memórias do passado, esperanças e medo do futuro, imaginações fantasias, intelectualizações da teoria, dúvidas e aborrecimentos acerca de sua meditação, cenas e formas que surgem diante do “olho” mental, distrações produzidas por estímulos externos, tais como ruídos, dores, coceiras, impulsos para se movimentar, etc. Todos eles tendem constantemente para deslocar a mente levando-a “assuntos laterais” interessantes. Não há necessidade de nos aborrecer ou ficar desencorajados com isso, pois a mente funciona da forma com que se habitou há longo tempo. A disciplina começou faz pouco tempo. Roma não foi feita num dia. Além do mais se fôsse fácil governar a mente encon traríamos homens iluminados em quantidade. O Buda nos disse que a mente quando começa mos a querer retirá-la dos seus hábitos maléficos e como um peixe retirado das águas e colocado nas margens. Agora sentimos as dificuldades na prática. Não devemos desaninar. Todos encontram ou encontraram essas mesmas dificuldades. Os homens iluminados são aqueles que não desesperam, perseveram, mantendo a mente sob controle da mesma forma que um cachorrinho exuberante é paciente, mas firmemente, treinado a obedecer. Aqui, como em todas as partes, devemos tentar trilhar o fio de navalha do Caminho do Meio. Deve haver a determinação para continuar mas uma determinação calma não aquela que se move em arrancos e paradas entre os pólos do fanatismo e desespero. Isto mostra um forte ego envolvido na questão (Eu desejo ser um bom meditador). Uma determinação não tensa é o que se necessita — ou como os comentadores clássicos do Budismo descreveram, um equilíbrio perfeito entre a paz (SAMADHI) e Ener gia (VIRIYA). Esses dois, assim como a discriminação (PANNA) e fé (SADDHA), devem estar em perfeito equilíbrio.
A maneira para tratar essas distrações e noticiar imediatamente, ou pelo menos tão cedo quanto possível, o fato da
existência da distração identificando-a com a palavra adequada tal como: “pensar, “ouvir”,“ver”, “dor”, “coceira” ou “impulso”. A seguir a mente deve voltar a sua ativida de adequada prestando atenção a sensação da respiração identificando a inspiração com um (in) e a expiração com um (out) até a próxima interrupção por nova distração. Proceda sempre da maneira descrita. Quando há qualquer sentimento de irritação na distração ela deve ser qualificada como “Irritação” claramente identificando com uma etiqueta o tipo de sensação em causa. Após isso a mente deve voltar a prestar atenção na respiração. De maneira semelhan te qualquer divertimento — ou por exemplo o prazer sentido com a velocidade com que captamos e registramos um movimento centrífugo na mente — deve ser qualificado como “diversão” ou “prazer” e novamente voltar a atenção para a respiração. Todas as tendências para a mente peregrinar devem ser anotadas tão cedo surjam. Quando o indivíduo tiver mais prática pode capturá-las antes que elas nasçam pois ele antecipa-se a mente, que começa a se movimentar em determinada direção. Não devemos, entretanto, saltar sobre ela tentando a sua imobilização. A identificação do estado mental não deve ser nem muito rápida, nem vagarosa de mais, mas sim, firme e claramente sem superprodução. Quando nos preocupamos demasiado isto só serve para maiores agitações e distrações mentais. Tal fato está muito bem dito na afirmação: “Não há necessidade de ter medo dos pensamentos que nascem e sim da demora em nos tornar conscientes de les” . O perseverar pacientemente na captura dos pensamentos como quem traz de volta a determinação da posição um cachorrinho que está sendo treinado toda vez que ele escapulir, e na verdade meditação e indica que as coisas vão indo muito bem. O que não é meditação é o indivíduo tornar-se preguiçoso e ficar sentado, imóvel, sonhando acordado, como tambêm deixar-se tomar pelo aborrecimento e desespero ao ver que a mente não para.

Outra forma de grande distração são os “comentarios pensados” tais como os pensarnentos: “Bem, neste momento não estou pensando em nada”, ou “As coisas estão bem agora” e outros semelhantes. Inúmeras vezes eles tomam a forma de relacionar o que vamos dizer ao instrutor e imaginando, com antecipação, toda a conversa. Esses pensamentos devem ser simplesmente notados e rotulados como “Pensamentos” e como o Ven. Mahathera a Huang Po disse: “deixados de lado como um pedaço de madeira podre”. Convém notar que devemos deixar de lado em vez de jogar fora. Um pedaço de madeira podre nada está fazendo para te irritar. Não tem qualquer utilidade, dai não devemos nos aferrar a ele. O Buda usava a mesma descrição ao afirmar que todos os objetos (DHAMMA) da mente não são “meus” nem nada têm a ver “comigo” (Como poderiam ter? São somente objetos e não sujeitos). Não tem, portanto, qualquer significação como também não têm as folhas e galhos caídos no solo de uma floresta. Por que preocupar­mo-nos com eles? Qual a vantagem em investigar o lixo que acumulamos para logo o jogar fora? Ao notificarmos todas essas distrações, bem como a própria respiração, as palavras usadas como identificação, tais como “in”, “out” são somente etiquetas, rótulos, para maior qualificação. A finalidade é, em cada caso, obter unia visão clara, em foco, do objeto em questão. Se nos movimentarmos sem cuidado, com a atenção fora de foco, ou com a consciência mais na palavra do que no objeto não o veremos, obviamente, com maior nitidez. Pelo contrário, se nos aferrarmos fortemente a ele isso perturbará a mente e produzirá mais pensamentos. Novamente convém lembrar que é necessário, seguir o caminho do meio. É por esse motivo que constantemente é repetido no “Discurso Para a Prática da Concen tração” que devemos ficar conscientes do objeto com “a concentração estabelecida” somente o suficiente para uma clara compreensão e autoconcentração, enquanto permanecemos desapegados a tudo deste mundo. Não existe qualquer necessidade para tentar restabelecer ligações numa cadeia de pensamentos associados, nem tentar apurar o que primeiro produziu essa cadeia. Qualquer impulso dessa natureza deve ser notado simplesmente como “pensar” e a mente deve voltar a prestar atenção na respiração. Entre tanto, se coisas más nos perturbarem devemos, imediatamente, recomeçar o processo de atenção interrompido no único lugar onde é possível — naquele em que estamos agora e continuar daí em diante. A análise psicológica é também rotulada como “pensar”. Movimentos involuntários do corpo e membros durante a prática devem ser notificados da maneira apropriada como “sacudir”, “movimento”, etc., e a seguir a mente deve voltar a atenção para a respiração. Verifica-se que, normalmente esses movimentos, bem como dores, coceiras, desconfortos, cessarão quando notados clara e impessoalmente. Particularmente no início verifica-se que não param imediatamente sendo necessário notificar essas distrações por duas ou três vezes, as vezes mais, antes que desapareçam. Em certas ocasiões, dores, coceiras, caimbras, dormências, tem urna tendência em aumentar de intensidade quando uma atenção concentrada é focalizada nelas. Mas se a pessoa continuar a notâ-las, sem paixão, todas as vezes que a mente for atraida elas começarão a desaparecer. Por essa razão se uma sensação parece aumentar em vez de decrescer, devemos continuar a notá-la com a atenção clara, sem emoção, focalizada na sensação atual (real) e não da idéia da sensação; nem na aversão ou medo da dor. Ela então desaparecerá ou estabilizará. Em primeiro lugar quando o indivíduo não está plenamente consciente dessa forma, quando lhe ocorre uma sensação, nasce também o desejo de que ela desapareça. Isso é mecânico. Nesse mecanismo a mente torna-se atenta, dentre todos os possíveis objetos em determinado momento, de um que a mente está interessada, O interesse é de duas espécies: contra e a favor. Gostar e não gostar são igualmente sinais para a mente trazer um objeto para posterior investigação. Essa é a razão porque o Caminho do Meio — entre o gostar e não gostar é necessario. Quando olhamos desapaixonadamente, com equanimidade, a qualquer coisa apresentada pela mente vemos que: “meu caro, aquilo não tem o interesse que pensei que tivesse”, e com isso ela abandona o que parecia interessante e passa para outro assunto. O mesmo ocorre com pes soas. Se alguém vem para te ver e o recebes com afeição ele ficará para uma longa conversa. Se pelo contrário receberes o visitante, com agressividade e irritação é quase certo ele ficar para discutir contigo. Quando, entretanto, o recebermos correta mas friamente, evidentemente não interessados na vinda, o visitante importuno irá embora. Portanto, uma equanimidade genuína a todos os objetos apresentados pela mente produz cedo a paralisação de suas influências incluindo nisso as dores e desconforto. Mas a mente não se engana. A equanimidade deve ser genuína, ou a mente começará a trabalhar imediatamente.



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MOVIMENTOS
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Nos estágios iniciais, quando uma dor ou coceira não desaparecem, mesmo depois de repetidas notificações, mas pelo contrário, se tornam intoleráveis ao ponto de obrigar a pessoa a se mover ou coçar o ponto da pele onde elas atuam, o indivíduo deve qualificar essa vontade como: “intenção”. A seguir, voltar novamente a atenção para a respiração. Se, apesar de ter seguido todo o esquema, notar a dor, a coceira e o impulso de se mover ou coçar como “intenção” e tiver mesmo que se mover por não suportar mais a sensação, deve fazer o necessário movimento, qualificando cada etapa. Por exemplo: se uma coceira na testa tiver atingido as proporções de um martírio e os repetidos impulsos para nos movimentar, qualificados devidamente como “intenção”, tiverem sido impotentes para controlar a sensação, devemos lenta e deliberadamente começar a levantar o braço, e enquanto fizermos esse movimento contínuo, repetir mentalmente: “levantando, levantan do, levantando...” a fim de assegurar a perfeita concentração da mente no movimento.
Quando a mão alcançar a testa o toque da unha deve ser notificado como “tocando” e ação de coçar como “coçando, coçando...”. Quando a sensação provinda da testa indicar que a coceira está satisfeita, devemos imediatamente registrar: “satisfeita”, O impulso para recolocar a mão no colo deve ser identificado como “intenção” e o longo e lento percurso como: “movendo, movendo...” e por ai adiante. Esta descrição um esquema geral da coisa, mas, de fato quando tivermos alguma prática nessa técnica, encontraremos muito mais coisas a notificar nesta simples ação de coçar a testa. Um som pode distrair a pessoa no momento que começa a elevar a mão, ou um pensamento. Podemos ter nossa atenção distraída pela modificação da pressão no nosso regaço ou no antebraço. Quando, num momento de perda de concentração, começamos um movimento “cego”, não registrado préviamente, a coçar a pele ou qualquer coisa que envolva um movimento, devemos imediatamente nos reconcentrar, vendo o que estamos fazendo, registrando: “movendo” ou “coçando” e principiar novamente deste ponto em que “estamos”. O que passou, passou, e não ganhamos nada em nos insultar, nem arrebentar em lágrimas, apesar de toda ação provinda de impulso cego, sem registro, seja um sinal de distração e portanto, em outras palavras, um fracasso na Concentração. O Buda assim nos indica no “Discurso Sôbre a Prática da Concentração” ao dizer: “seja dobrando um braço ou esticando, devemos agir com plena consciência”. Isto é o que significa Concentração: — prestar atenção naquilo que estivermos fazendo, vendo as coi sas “como elas são ...“ não aquilo que estamos pensando a respeito delas”.

Quando estas ações forem terminadas, a atenção deve reverter novamente para a respiração. A descrição acima de como considerar uma coceira concentrando-se, é apenas um dos inúmeros tipos. Todas outras ações para nos mover, se absolutamente necessárias para aliviar uma dor, engulir, esticar o pescoço, abrir e fechar os olhos, — todas as ações enfim, devem ser tratadas da mesma forma. Esta é a Concentração, a maneira “direita”, o único “caminho”.



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DORES E MAL-ESTARES

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Certas ocasiões durante a prática surgem dores, coceiras, compressões, sensações de dormência, alfinetadas, sensações de que um inseto está andando sobre a pele, e outras. Elas podem tornar-se proeminentes. Não há razões para preocupações (ou interesse), pois isso não é sinal de doença. As sensações brotam de um enorme número de causas naturais. Algumas estão em nos o tempo todo, mas “normalmente” não somos conscientes delas. Isto pode ser visto se observarmos a maneira que “pessoas ignorantes, mundanas” mudam constantemente de posição sem a menor consciência do desconforto como sendo a causa dessa mudança. Vemos, portanto, como é profundo o descontentamento “DUKKHA”: a nobre verdade do sofrimento : Mesmo modificar a posição como as pernas estão cruzadas é um sinal disso. Se estivéssemos satisfeitos não mudaríamos de posição. A maioria das sensações que cos tumam ocorrer na meditação são devidas aos períodos prolongados, a que não estamos acostumados em que ficamos quietos sentados enquanto a mente e músculos estão ainda tensos, lutando contra si mesmos, não tendo alcançado ainda o estado de relaxamento (PASSADHI). Uma grande paz mental traz sempre consigo um maior relaxamento nervoso e muscular, eliminada a causa do desconforto. Mas por algum tempo, enquanto isso não ocorre, temos que suportar concentradamente e sem revolta os efeitos acumulados. Outras sensações são psicossomáticas ou produzidas pela mente condicionada durante anos de saltitante atividade, pulando de um tópico “interessante” para outro como um gafanhoto sem se preocupar da realidade do objeto. Desacostumada, portanto, a prolongada atenção a coisas tão desinteressantes e monótonas como a nossa respiração, a mente se aborrece e tona se inquieta criando diversões para sua própria distração. É “MARA”, em ação, o princípio do Mal, tentando que abandones o interesse na Prática da Concentração. Entretanto, como tem sido descrito, se os truques da mente forem prontamente identificados, simples e sem emoção, como: “coçando”, “sentindo”, etc, MALA nos deixa e vai embora: Da mesma forma que as suas três filhas quando fizeram tudo para tentar o Buda que firmemente recusou-se a reagir de uma forma ou de outra.
Em certas ocasiões pode nos parecer que ruídos, sensações e distrações nos afetam mais do que em outras. Um tenue ruído pode nos perturbar. Não devemos nos aborrecer com isso. Tudo é normal e constitue o caminho que teremos de trilhar. Há, entretanto, períodos em que nos tornamos mais vulneráveis, mais facilmente irritáveis, desencorajados, etc. Também é natural e é somente um estágio que cedo será ultrapassado a medida que continuamos. A causa desse estado de coisas e a crescente atenção em pequenos impulsos que antes passavam desapercebidos. A melhor focalização neles faz com que cada um receba uma energia adicional. Quando, entretanto, os notamos tranquilamente da maneira descrita o efeito é momentâneo e cedo passará. Se continuamos na prática, com firmeza, chegaremos cedo a um estado onde, pelo contrário, cada estímulo, embora visto com maior claridade, possui algo parecido a um absorvedor de choques. Com isso coisas que antes nos fariam “subir pelas paredes” nos deixarão calmamente repetindo: “ouvindo” “ouvindo”, etc. etc..

Se enquanto praticamos a atenção na respiração a mente notar formas imaginárias, cores, luzes, rostos de pessoas, eles devem ser notados como “vendo” sem qualquer interesse ou aversão e a mente deverá logo voltar sua atenção para a respiração.

Apesar de belo como um tapete persa ou um caleidoscópio a imagem diante de nos a melhor coisa a fazer é notar como “vendo” e passar adiante sem nos preocupar com detalhes. O “controle dos sentidos” é descrito no Budismo como “vendo um objeto, nao devemos ser capturados pela sua forma ou detalhes”. O mesmo deve ser feito em relação a qualquer outro sentido. A ordem do dia na Prática de Concentração é: “naquilo que se olha ver somente o que se vê”. (DITTHE DITTHAMATTAM). Em outras palavras “vendo” e passar para diante sem morar no objeto. Quando a mente “mora” em alguma coisa a prática de Concentração cessa. Torna-se então escrava do objeto.

Esta prática do Exercício Básico Respiratório deve ser mantida por períodos de uma hora (ou o que o instrutor recomendar). Entre as sessões os exercícios básicos de andar devem ser praticados em períodos horários. Devem ser alternados com o exercício respiratório.



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EXERCÍCIO BÁSICO DE ANDAR
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Entre as sessões da prática sentada,o meditador deve procurar me local tranqüilo, onde possa caminhar de lá para cá sem ser perturbado. Não precisa ser muito longo. Mesmo o nosso quarto, se não for pequeno demais, pode servir. Ou um corredor, jardim, salão, etc. O melhor neste exercício é que caminhamos mais lentamente do que o fazemos normalmente. A marcha deve ser, entretanto, tão simples e natural quanto permita sua velocidade. Se ocorrer alguma dúvida quanto a isto, o instrutor poderá dar uma demonstração. Durante o período de andar, de lá para cá, a atenção deve estar fixa no movimento das pernas e pés. Devemos notar, a medida que o pé direito começar a levantar do chão: “levantando”. Quando ele se movimentar para frente: “movendo”. Quando pousar no chão: “pisando”. E o mesmo para o outro pé.
De forma exatamente igual à prática sentada, todos os pensamentos e sensações que nos tentam distrair devem ser notificados e postos de lado. Pode acontecer a pessoa olhar alguma coisa e neste caso deverá registrar imediatamente: “olhando” e reverter sua atenção para o movimento dos pés. Olhar para os objetos e notar seus detalhes, mesmo para aqueles que estão no caminho, é o “desejo dos olhos” (RUPARAGA) Esse desejo não faz parte da prática, embora devemos registrar “olhando”, se inadvertidamente o fizemos. O resto são “visões interessantes”, iscas do anzol de MARA (ilusão).

Ao atingir o fim do caminho há necessidade de girar e caminhar na direção oposta. Temos a consciência disso quando falta um passo ou dois para atingir o limite da caminhada. A intenção para fazer a volta deve ser identificada como “intenção” No começo é difícil prestar atenção, pois a volta se faz quase automaticamente. Devemos, no entanto, notar o pensamento a medida que ele ocorre. Neste caso, a intenção existindo, pois a concentração está firme, ela será vista e anotada. Após anotar a intenção de fazer a volta, devemos anotar todos os pormenores dos pensamentos e movimentos envolvidos neste giro. À medida que damos o último passo para frente, começaremos a girar o corpo, devendo então anotar o fato como “girando”. Quando o pé estiver se levantando, imediatamente anotar “levantado”. Procurar identificar todas as fases do giro até a retomada ao caminhar lento de volta. Há inúmeras vezes uma tentação de chegar ao fim do caminho dar uma olhada em alguma coisa interessante. Se este impulso indisciplinado ocorrer deve ser anotado como “intenção”. No caso de a visão distraída tiver ocorrido devemos anotar imediatamente “olhando” e a atenção revertida naturalmente ao movimento dos pés. Não há necessidade, em tais casos, de forçar a mente de volta aos pés. Logo que a concentração é restabelecida a mente, por si própria, sabe o que deve fazer e, automaticamente, dirige-se a isso. O mesmo é verdadeiro em outras ocasiões durante a Prática de Concentração.

O melhor para principiantes é começar o exercício de andar com uma técnica de anotar 3 estágios: “levantando”, “movendo”
e “pisando”. Dependendo da capacidade de quem medita o instrutor pude recomendar o registro de mais ou menos estágios. Em certas ocasiões, por exemplo, quando por motivos práticos não for aconselhado andar vagarosamente, recomenda-se a marcha normal sendo suficiente registrar “esquerda”, “di reita”. Isto pode ser feito nas ruas, quando um caminhar em marcha lenta espantaria qualquer pessoa por mais fleugmática que fosse. O ponto importante não é quantos pontos estão sendo anotados, mas se estão sendo efetivamente registrados, obrigando a mente a abandonar sua atividade normal de “saltimbanco”.



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DURANTE AS AÇÕES DIÁRIAS
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As duas práticas, Respiração e Caminhar, constituem a base da Prática da Concentração, sendo adotadas como uma “técnica” ou particularmente durante um “Curso”, quando podemos organizar nossa vida, de tal forma a termos tempo para meditar.
Mesmo durante um curso de meditação há um número de ações diárias que permanecem. Temos que nos levantar, lavar-nos ir ao banheiro, fazer nossa cama, comer ficar de pé, sentar, etc. Durante todas essas atividades, devemos adotar uma prática semelhante. Na verdade, não há diferença essencial entre a Prática de ficar sentado, fazendo o Exercício Básico Respiratório, e estar sentado, fazendo nossa refeição. Somente quando estamos sentados, fazendo o exercício respiratónio, o que ocorre é simples e regular, portanto, mais fácil do que quando somos obrigados a anotar urna série de ocorrências. Esta é a razão pela qual se escolhe inicialmente a posição sentada para prática. Durante as ações diárias, o mesmo esquema essencial é seguido. O que estiver na mente deve ser visto e anotado sem nos aferrarmos a ela. Após longa experiência na prática, mesmo este simples teste, a fim de verificar se a concentração não foi perdida, pode ser posto de lado. A pessoa vê simplesmente com uma consciência silenciosa, mas implícita, cada objeto com que se depare. Isto não será fácil, principalmente enquanto a mente tentar caçar sombras. Até que obtenhamos grande experiência e progresso na Prática da Concentração, será de bom alvitre manter o registro explícito dos objetos da forma indicada.

Será interessante, a quem medita, ler neste ponto o parágrafo do “Discurso Sobre a Prática da Concentração”, no qual o Buda indica, em resumo, como a prática deve ser mantida nas menores ações da vida, o seguinte: “Quando indo ou vindo, o Bikku age somente em plena consciencia. Seja olhando para frente ou ao redor, ele age com plena consciência. Seja flexionando ou esticando o braço, ele age em plena consciência. Ao vestir o manto, segurar sua tigela, ele age com plena consciência. Seja defecando ou urinando, ele age em plena consciência. Seja de pé, sentando, repousando, falando ou silencioso, ele permanece plenamente consciente”.

Este pequeno parágrafo fala por volumes de textos! Curto, incisivo e estilizado para facilitar a memorização, ele enfatiza as importantes características da vida diária, na qual todas as ações devem ser incluídas — mesmo a resposta aos apelos da natureza. Serve para frisar que nada (NADA MESMO) é trivial ou sórdido em demasia, para que não nos concentremos nele. Este discurso foi feito para os monges (BIKKHUS), daí serem mencionados objetos e atos normais de suas vidas. A rotina de procurar a próxima vila, pedindo esmola pela manhã, carregando todas as suas posses — manto tigela, agulha, etc., comendo o que lhe puserem na tigela, passando o resto do dia, seja “sentado ou andando” em meditação, não sendo, portanto, uma surpresa os artigos e ações aqui descritos. O Buda, entretanto, não enunciou estas regras somente para monges. Elas servem para todos os que tomam sua religião seriamente. Um antigo comentário a este Discurso adverte como algumas mulheres, dirigindo-se ao poço da aldeia para apanhar água, devem praticar a Concentração.

Ao aplicar a prática da Concentração durante essas pequenas ações será melhor se a ação for feita lenta e deliberadamente quanto possível, a fim de permitir que a ação seja notada claramente, em todos os detalhes, sem apressar a mente, o que iria causar somente distrações e o aparecimento de pensamentos associados. Quando praticada de maneira adequada, a Concentração conduz diretamente a tranquilidade mental ( SAMADHI). Sua colocação como estágio anterior ao SAMADHI na Nobre Senda Óctupla claramente indica tal fato. O SANADHI momentaneo não é somente obtido na meditação imóvel, em transe, mas a tranquilidade e silêncio da mente como um estado mental deve ser preservado e mantido através de todas as atividades da vida. Neste estágio a pessoa, tendo parado o fluir do pensamento es tá “livre da inundação” (ASAVA KKHINA). Assim a prática deve principiar desde o momento que despertamos e começamos a notar a sensação do peso do próprio corpo de encontro a cama, que deverá ser rotulada como “sentindo”. A seguir, quando tivermos vontade de afastar a coberta que nos cobre, devemos anotar: “intenção”. Quando afasta mos a coberta será: “movendo”, e assim por diante. Este procedimento deve ser feito com todas as ações: ao lavarmos o rosto mastigando a comida, evacuando-a depois de digerida, escovando os dentes, etc. Ao vermos algo, devemos notar: “vendo”; ao ouvir: “ouvindo”; ao cheirar: “cheirando”; ao provar: “provando”; ao sentir urna sensa ção física: “sentindo”; ao pensar: “pensando”; quando encolherizados: “cólera”; quando querendo algo: “desejando”; quando alegre: “rindo”; etc. A autoconcentração deve ser constante. Pode parecer a muitos que isto seja uma prática dura demais, porém devemo-nos lembrar ela nos leva à Pérola de Grande Preço. Além disso, não há outro caminho. Isto, aliás, foi muito bem dito pelo autor da Imitação de Cristo 111.3.2, ao afirmar. “Por um pouco de dinheiro algumas vezes surgem vergonhosas disputas. Os homens não se cansam de lutar, dia e noite, por assuntos vãos. Mas pela recompensa suprema, a mais alta honra, eles se lamentam pela menor fadiga”. Este esforço conduz, entretanto, a maior paz e felicidade. Mas para alcançá-las cada um tem que pagar o preço, primeiramente.

Na medida do possível, todas as ações devem ser feitas, concentradamente, incluindo na prática coisas como ler, escrever, falar, ouvir, procurando descrever com detalhes todas elas. Vamos tomar mais um exemplo — o caso de comer. Sentando-nos a mesa para comer, o primeiro impulso deverá ser pegar a faca e o garfo. O impulso deverá ser registrado como “intenção”. Caso não seja visto iremos “cegamente” pegar a faca e o garfo. A seguir ao impulso devemos começar segurando o garfo e levá-lo, lento, à boca. Enquanto isso notamos: “leantando”, “levantando”... Ao tocar os lábios devemos anotar: “tocando”; ao mastigar devemos anotar: “mastigando”; ao sentir o gosto: “provando”; ao engolir: “engolindo”; etc... Ao segurar a colher para mexer o chá devemos anotar: “mexendo”, “mexendo” etc... Quando noticiamos pensamentos e ruídos, devemos notar: “pensando” ou “ouvindo”, e a mente deverá voltar as ações. Entre tais ações, a mente deve repousar na sensação da pressão do lugar, onde estivermos sentados. Longe de serem “distrações” ruídos diversos, tais como, ruídos de motores do trafego, aviões, tic-tac de um relógio tornam-se objetos perfeitamente satisfatórios de meditação.



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EXERCÍCIO ADICIONAL RESPIRATÓRIO
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Após algum tempo a mente torna-se mais calma. Habitualmente uma pausa ocorre entre a inspiração e a expiração. Nesta inesperada parada a mente tende a hesitar sentindo não ter qualquer objeto para se concentrar. Tem então a tendência de vaguear. Quando está parada ocorre deve-se permitir a mente sentir uma ou duas sensações que estão sempre presentes no corpo. Deve-se notar, por exemplo, a posição geral do corpo, como um todo, sentado quieto na prática. Isto deve ser anotado como “sentado”. Então a sensação da pressão do chão ou assento da cadeira, sob as nádegas, a pressão das pernas sobre as coxas se estivermos de pernas na posição do lótus Tudo isso deve ser anotado como: “sensação“. Deste modo uns mais pontos a serem anotados devem ser registrados para preencher o vazio verificado na parada respiratória. Essas notificações devem ser feitas sem pressa, naturalmente, com uma velocidade confortável, nem apressada demais, nem lenta, o que poderã provocar pensamentos que distraem. A melhor maneira é tomar as sensações mais proeminentes ou, se tiver alguma constante, tal como o ruído de um avião que passa, ou carro, isso deve ser notado como “ouvindo”, juntamente com outros pontos de sensação, antes que a mente volte à respiração no início da próxima inspiração ou expiração. Assim, tão longa seja a pausa na respiração a pessoa continuará a preenchê-la, notando os diversos pontos de sensação. Algumas vezes a pausa pode ser mais longa — mesmo de vários minutos sem respirar, num estágio mais avançado, durante os quais devemos preenchê-la com a anotação desses pontos proeminentes de sensação, até que sobrevenha, naturalmente, a próxima restpiração. Com esse objetivo alcançado de 3 a 5 pontos, sensações marcantes são suficientes.

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DURANTE A VIDA DIÁRIA
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Ninguém pretende que a prática de Concentração durante a vida diária seja fácil — particularmente nas condições existentes nas grandes cidades modernas. necessário um esforço sustentado, considerável para manter o nível de consciência mental e suportar a constante força centrífuga atuando sobre nos. É um esforço que a maioria não está, talvez, preparada para suportar. Sem essa consciência intensificada e o autodomínio que nos dá a Concentração, a vida degenera num tropeçar constante no terreno áspero das mutáveis condições que o fluir do karma (KARMA) traz aos nossos pés. A evolução humana deve ser para cima, na direção de uma maior consciência e da autoconcentração. Evolua ou morra uma lei da Natureza e certamente um homem sem Concentração está vivendo uma morte viva, envolvido com fantasmas e lutas sem proveito. O Buda disse certa vez: “Os concentrados não morrem. Os descuidados estão como se estivessem mortos” Seria agradável ficar sentado, preguiçosamente, e levar uma vida fácil, mas isso equivale a um sonho de quem fuma ópio. Nossas mentes não nos deixam repousar até que tenhamos vencido a “vitória da vida”, isto é: a vitória sobre o Anseio e a Ignorância. Queremos estar a vontade, “livres”, mas para que isso seja possível depende que o queiramos ser. Se quisermos ser livres da autodisciplina a fim de “gozar” os objetos dos sentidos, isto meramente mostra que nos somos escravos dos sentidos, e o intelecto é um sentido entre outros. Se, de outro lado, deseja­mos nos libertar da escravidão dos sentidos para alcançar autodomínio e autorealização, esta é a verdadeira liberdade. E ela é possível. É a Paz, a Verdade, a Vida mais abundante e a Libertação.
A prática da Concentração na vida diária tende a parecer mais difícil do que é, em virtude de duas razões principais. Primeiro: o indivíduo não está acostumado a ela e, portanto, quando começa, com entusiasmo, a tentar a prática de um grau maior de Concentração na vida, verifica que um bom impulso começa a perder força em face de falta de cooperação do mundo e vai-se encontrar, aparentemente, onde começou. Isto pode ser em grande parte contrabalanceado se a pessoa já certa vez sentiu o “gosto” do caminho, ou seja, já provou o que significa estar concentrado, por exemplo, durante um período de Curso de Concentração em tempo integral, sob a orientação de um instrutor adequado. Os efeitos desses cursos, se periodicamente renovados, auxiliam a manter o momento. Devemos esperar que sobrevenham éocas de aparente fracas só completo na Concentração. A coisa importante é não perder a coragem e recomeçar. Há um refrão que diz: “Os ingleses perdem todas as batalhas, menos a última”. Isto não é verdade, historicamente, mas é algo que pode ser dito, espiritualmente, a respeito daquilo que é o mais santo nos homens. Outra razão de que parecemos ganhar pouca dianteira, mesmo a despeito dos nossos esforços na prática da Concentração, e devido ao inveterado hábito humano de tentar ter o seu bolo e comê-lo. A “Vida Santa”, seja com um manto ou sem ele nas nossas costas, demanda renúncia, um volver do mundo, isto é, dos sentidos. Não significa correr deles, nem a sua rejeição, mas a falta de interesse neles. Como já foi dito, como num refrão no “Discurso da Prática da Concentração” — “abandonar os desejos e aversão ao mundo”. Esta ”Sagrada indiferença” é a entrada segura para a Concentração adequada. Com ela ninguém pode nos distrair, nada pode captar nosso interesse, nem pensamentos sensuais, irritações dividas e uma hoste de pequenos pensamentos e memorias que constantemente invadem
a mente. Esta retirada emocional, a renuncia no interesse, das coisas condicionadas, não interfere, de modo algum, com nossa habilidade em preencher as funções necessárias na vida. Ao contrário, a paz e a claridade da visão trazem muito maior eficiência em alegria e liberdade no conhecimento de que “não sou eu quem age”.

Nenhuma prática é tão adequada para aplicação na vida diária como a Prática da Concentração. E uma prática que pode e deve ser mantida em todas as épocas, nas mais variadas circunstâncias. Diz-se que, assim como o sal serve em todos os temperos, a Concentração adapta-se a todos os evvntos. Relembro a famosa história Zen, do mestre a quem perguntaram como a pessoa devia viver e que respondeu: “Quando com fome, comer. Quando cansado, descançar”. A essa resposta o interlocutor argumentou: “Mas, esta é a maneira que todos vivem!” (O Mestre, tranquilamente, explicou: “A maior parte das pessoas quando comem não estão comendo e sim pensando toda a sorte de imagens e pensamentos, sem sentido”. Esta é a diferença entre viver com ou sem Concentração.

Muitas pessoas dizem: “Não tenho tempo para praticar meditação. Sou um homem muito atarefado”. Não ter tempo para ser
mais consciente ? É uma afirmativa estranha! As pessoas tem medo de que a prática da Concentração, durante o trabalho, interfira com ele. Na realidade é o contrário que acontece. Vamos olhar, entretanto, para enorme quantidade de tempo “perdido” diariamente. Levantar, vestir, o que pensamos quando dirigimos ou estamos sentados na nossa condução? Será útil espiar os anúncios que passam e as pessoas a nossa volta? Fazendo os trabalhos caseiros, o que pensamos? Devemos varrer quando varremos, lavar quando lavamos, comer quando comemos, etc.



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DEIXE AS COISAS SEGUIREM SEU CURSO
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As pessoas tem um quase instintivo pavor de que, a não ser que “pensem” e mantenham o “controle das coisas” elas esquecerão algo importante e as coisas se tornarão erradas. Na realidade, nem a quarta parte dos pensamentos que enxameiam nossas mentes preocupadas é funcional. O resto (3/4) são pensamentos “gafanhotos”. Se as condições são tais para que certa ação seja tomada, anos de condicionamento assegurarão que o impulso ocorra e a melhor maneira é ficar tranqüilo e concentrado, em vez de submerso numa enxurrada de memórias, esperanças, aborrecimentos e preocupações. Confiar na Lei de Karma, na Lei do Condicionamento, ver as coisas tomando lugar, seguro na realização de que “esta agindo por meu intermédio”, “e sou apenas o instrumento”, é a muito mais feliz e concentrada maneira de viver. Naturalmente a resistência do apego e o véu do sentimento errôneo de “estou agindo” causam o fluir dos pensamentos de forma indisciplinada. Maior concentração traz paz, liberdade de emoções errôneas, claro julgamento e senso real de bem-estar. Matai os dois gigantes que habitam na selva das nossas mentes: o Desejo (TANHA) — através da paz e liberdade de ansiedade e emoções maléficas (Alegria, boa vontade, compaixão, permanece) e a Ignorância (AVIJJA) — desapareçe pela claridade da visão e a crescente consciência da verdade do não-ser, (ANATTA). “Isto não e meu! Isto não é o que sou. Esta
não é minha natureza real”. Em outras palavras: “Estes objetos nada tem a ver comigo”. “De maneira alguma tocam meu verdadeiro ser”. “Eu não sou quem faz essas ações”. É a ignorância que nos faz identificar com “nossas” ações e toma a responsa bilidade delas em nossos ombros. Desta forma nos amarramos à Roda do Condicionamento. A constante Concentração da Sabedoria nos libera! Ou melhor, mostra que nunca estivemos presos, exceto em PENSAMENTO!

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POSSAM TODOS OS SERES SER FELIZES
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DHAMMAPADA CONCLUSÃO Trad. Mario Lobo Leal





DHAMMAPADA


[O caminho do Dharma] Trad. Mario Lobo Leal - Rio, Org. Simões, 1955


A IRA



221 — Repele a ira, depõe o orgulho, quebra todos os grilhões. Quem se desembaraça dos elementos constitutivos da vida, quem a cousa alguma em absoluto se apega, fica isento do sofrimento.
222 — Qualquer que retiver a cólera impetuosa, como se pára o carro em disparada, merece o nome de condutor. Os outros só seguram as rédeas.
223 — À cólera opõe a serenidade, ao mal o bem. Conquista o avarento pela generosidade e o mentiroso pela sinceridade.
224 — Dize a verdade, não te entregues à cólera; dá do pouco que possuis a quem te pede; por estas três condições aproximam-se dos deuses os homens.
225 — Os que a nenhuma criatura viva ferem, os sábios sempre donos de seus sentidos, estão em caminho da condição imperecível em que não mais padecerão.
226 — Os que passam no estudo e na vigilância os dias e as noites, com o mental voltado sempre para o nibbâna, um dia se livrarão do laço da paixão e da ilusão.
227 — Não é só de hoje, mas há muito tempo que são criticados os que se assentam em silêncio, os que falam em excesso e os que o fazem com moderação. Não há no mundo ninguém que escape à crítica,
228 — Não há, nunca houve, e jamais haverá alguém no mundo exposto só aos vitupérios ou aos louvores.
229 — 30 — Se um homem fôr louvado pelos sábios, pelos que dia a dia o observam, pelos doutos, pelos imaculados, pelos que usam a sabedoria e a virtude como alfaia de ouro, quem então teria direito de censurá-lo? Seria apreciado até pelos deuses, o próprio Brahmâ o apreciaria.
231 — Guardai-vos da insubmissão do corpo. Refreai os atos. Deixando as maneiras errôneas de agir, segui a via das ações justas.
232 — Sêde vigilantes contra a insubordinação da língua. Refreai as palavras. Abandonando as maneiras errôneas de falar, segui a via das palavras justas.
233 — Sêde vigilantes contra a insubordinação do espírito. Refreai os pensamentos. Deixando de parte as maneiras más de pensar, segui a via dos pensamentos justos.
234 — Os sábios cujas ações são vigiadas, cujas palavras são refreadas, cujos pensamentos são domados, à verdade, tais têm perfeito domínio de si mesmos.

A IMPUREZA





235 — Eis-te como fôlha sêca; agarram-te os arautos de Yama. Estás às portas da morte e não tens o viático das boas obras.
236 — Constrói então ràpidamente tua ilha de refúgio. Sê prudente. Apressa-te. Lavado e purificado, entrarás na celeste mansão dos Sêres Nobres.
237 — Terminaram-te os dias, estás em presença da morte. Não tens nenhuma pausa no caminho e não tens as necessárias provisões.
238 — Constrói ràpidamente tua ilha de refúgio. Sê prudente. Apressa-te. Lavado e purificado, não mais estarás sujeito ao nascimento e à decrepitude.
239 — Como o ourives refina a prata bruta, assim, a pouco e pouco e de instante em instante, o homem sábio se despoja de suas máculas.
240 — Ao aparecer a ferrugem no ferro, o próprio ferro já está por ela carcomido. Da mesma sorte, do homem as más ações o levam ao castigo.
241 — Compromete a eficácia dos mantras a falta de repetição. Compromete a solidez das habitações a falta de conservação. O vício compromete a beleza do corpo. A desatenção trai a quem reflete.
242 — Para a mulher a má conduta é mancha, Para quem dá, a mesquinharia é mácula. A malfazeja disposição é mancha neste e no outro mundo.
243 — Maior ainda que tôdas as máculas é a ignorância. Lavai-vos desta única mancha e ficareis sem mácula, ó bhikkhus.
244 — Fácil é a vida que leva o impudico, o imprudente, o malicioso, o fanfarrão presunçoso, o impuro.
245 — A vida é sempre árdua para o modesto, para o que busca o que é puro, que é desinteressado, tranqüilo, íntegro e sensato.
246 — 247 — Já neste mundo está destruído quem destrói a vida; diz falsidades; toma o que não lhe foi dado; cobiça a mulher alheia, e se entrega às bebidas espirituosas.
248 — Sabe pois que é funesto não saber dominar-se. Age de tal modo que a concupiscência e a injustiça não te exponham a interminável sofrimento.
249 — Cada qual dá segundo a fé ou o prazer. Se te entristeces por causa dos alimentos e das bebidas ofertados a outrem, nem de dia nem de noite chegarás à concentração.
250 — Quem até as raízes extirpou tal sentimento chegará dia e noite à concentração.
251 — Não há fogo comparável à paixão, nem cativeiro tal como o ódio. Não há rêde embaraçada como a ilusão. Não há rio mais caudaloso que o desejo.
252 — Fácil é ver as faltas alheias, mas nosso vício é difícil de discernir. Joeiramos as faltas alheias como a palha do trigo; mas ocultamos as nossas como o astuto jogador dissimula o passe que o perderia.
253 — Ao ver sempre os defeitos alheios o critico entrega-se ao poder crescente do desejo, ao amor desta vida, à ilusão; ele está longe da destruição das paixões.
254 — Através do ar não há caminho; não há sâmana fora da boa via. Deleita-se a raça humana na perversidade. Os tathâgatas sobrepujaram êste obstáculo.
255 — Através do ar não há caminho; não há sâmana fora da boa via. Este mundo criado não é eterno, mas os budas (iluminados) permanecem inabaláveis.

O JUSTO



256 — Não é justo o homem que julga à pressa. O homem sábio é o que distingue o falso do verdadeiro.
257 — Quem a outrem julga com todo conhecimento de causa segundo a lei e a eqüidade; tal sábio, esclarecido pela Doutrina, merece o nome de justo.
258 — O sábio não é o que mais fala. É ao homem plácido, isento de cólera e temor, serviçal, valente, que se chama sábio.
259 — Não é falando muito que alguém é sustentáculo da Doutrina. Quem pouco sabe da Doutrina, mas nela pauta os atos, é o seu verdadeiro pilar. Êste não a despreza.
260 — Por ser encanecido, um homem não
é thera (ancião). “Ser velho só pelos anos que conta — diz o provérbio — é ter envelhecido em vão.
261 — Quem possui verdade, virtude, compaixão e dominio de si mesmo, que é sem mácula e sábio, merece de fato ser chamado de thera.
262 — Ao homem que é invejoso, avaro e fraudulento nem a palavra fácil, nem tampouco a bela aparência o honram.
263 — Aquêle em que tais disposições de espírito foram destruídas, desenraizadas, diz-se que tal homem sábio libertado das paixões é bem treinado.
264 — Quanto ao homem intemperante e mentiroso, não o torna asceta a cabeça rapada. Vitima da concupiscência e da cobiça, como pode ser um sámana?
265 — O que de todo o mal, pequeno e grande, está pacificado, merece ser chamado sâmana.
266 — Somente porque mendiga um homem não é bhikkhu. Não basta pronunciar os votos para se tornar bhikkhu. É preciso viver a Doutrina.
267 — Mas quem está acima do bem e do mal, que é casto, leva uma vida de saber e de reflexão, merece ser chamado bhikkhu.
268 — O homem que observa o silêncio nem por isso é sábio se é ignorante e insensato.
269 — Quem sabe pesar os prós e os contras e fazer a escolha, merece ser chamado sábio.
270 — Quem abandona o mal, escolhendo sabiamente é sábio. Quem tem conhecimento justo dos dois mundos (êste mundo e o além) por causa disso é chamado sábio.
271 — Não é áriya o homem que maltrata sêres vivos. Merece ser chamado áriya quem se apiada de tôdas as criaturas.
272 — Não foi pelas mortificações, nem por vasto saber, nem pela prática da meditação, nem pela vida solitária que pude atingir a felicidade desconhecida aos que vivem no mundo. Sêde vigilantes, ó bhikkhus, até atingirdes a extinção do desejo.

A SENDA



273 — A Óctupla Senda é a melhor senda; a Quádrupla Verdade é a melhor verdade. A impassibilidade é a melhor das condições; aquêle que vê e compreende é o melhor dos homens.
274 — Em verdade, esta é a Senda: não há outra que conduza à purificação do intelecto. Segui esta senda e Mâra será confundido.
275 — Seguindo tal senda, poreis têrmo ao sofrimento. Esta senda, eu a descobri quando aprendi a me preservar dos acicates da dor.
276 — De nós mesmos deve vir o esfôrço. Os tathâgatas só podem indicar a senda. Chegam os espíritos meditativos a se livrar dos vinculos de Mâra,
277 — “São caducos todos os elementos constitutivos desta vida”. Fica-se livre da dor, uma vez que a sabedoria fêz compreender isto. Esta é a senda da purificação.
278 — “Cheios de dor estão os elementos desta vida”. Fica-se à prova da dor, uma vez que a sabedoria fêz compreender isto. Esta é a senda da purificação.
279 — “Todas as formas criadas são irreais”. Fica—se à prova da dor, uma vez que a sabedoria fêz compreender isto. Esta é a senda da purificação.
280 — Chegado o momento de ser ativo e agir, qualquer que, jovem e forte, não cumpre o dever e ainda se entrega à preguiça; quem quer se mostre fraco, apático, débil na vontade e nas ações, êste não encontrará o caminho da sabedoria.
281 — Moderação de linguagem, vigilância do mental, abstenção de maus atos, uma vez abertas estas vias diante de ti, atingirás a senda ensinada pelos sábios.
282 — Pela contemplação intensa se adquire a sabedoria; pela falta de contemplação intensa se perde a sabedoria, Conhecidos êsses dous caminhos de aquisição e de perda, escolhe aquêle em que o saber progrida e cresça.
283 — Derrubai êste bosque e não uma árvore só. Dos bosques dos desejos sai o perigo. Depois de abatido êste mato grosso de árvores e arbustos, então ó bhikkhus, estais ao cabo de vossos sofrimentos.
284 — Enquanto não fôr cortada a última raiz do desejo do homem pelas mulheres, ter-se-á o espírito cativo e tão sujeito como o novilho que ainda mama.
285— Extirpa o amor de ti mesmo como o lódão é arrancado no outono. Anda a senda da paz, pois o nibbâna é ensinado pelo Sugata.
286— “Durante a estação das chuvas viverei aqui, na estação fria lá; alhures quando da canícula” assim faz o néscio projetos no coração sem se dar conta do que pode contrariá—los.
287— E êste homem que se deleita na abundância de filhos e rebanhos, cujo espírito só vive para o ganho e para a posse; agarra-o a morte e arrasta-o como o rio transbordado leva a aldeia adormecida.
288— Nenhum refúgio se encontra junto dos filhos, do pai ou da família. Não podem os teus oferecer-te nenhuma salvação, ao seres assaltado pela marte.
289— Sabendo disso perfeitamente, o sábio, o homem seguro de si, logo terá expedita a senda que conduz ao nibbâna.

MISCELÂNEA



290 — Sendo bastante deixar o prazer menor para se obter o maior, esquecer-se-á o homem sábio do primeiro para levar em conta o segundo.
291 — Buscar o próprio bem-estar em detrimento alheio, é envolver-se de ira, é tornar-se escravo de rancores.
292 — Negligenciar o que deve ser feito
e fazer o que se deve negligenciar,
é dar-se ao aumento do desejo e
da ilusão.
293 — Estar de contínuo alerta contra as surpresas dos sentidos, não procurar o que é mau, buscar com afinco o bem, é mostrar-se sábio refletido, ter dito adeus ao desejo e à ilusão.
294 — Morto o pai, (o orgulho), a mãe (a volúpia) e dois reis militares (do falso saber): abandonado o reino do prazer e tôda a dependência, caminha o brâmane são e salvo.
295 — Morto o pai, a mãe, e dois reis sacerdotes; abandonados os cinco veículos da existência (corpo, sensação, percepção, volição, consciência), caminha o brâmane são e salvo,
296 — Os discípulos de Gótama estão sempre bem despertos. Noite e dia o espírito dêles está cheio do Buda, do dhamma, do sangha e da natureza transitória de tôda a forma.
297 — Alertas, bem despertos, estão sempre os discípulos de Gótama. Dia e noite o seu mental está fixo na Doutrina (dhamma).
298 — Alertas, bem despertos, estão sempre os discípulos de Gotama. Noite e dia o mental dêles está fixo na sangha (comunidade).
299 — Alertas, bem despertos, estão sempre os discípulos de Gotama. Noite e dia êles se lembram da natureza efêmera das formas.
300 — Alertas, bem despertos, estão sempre os discípulos de Gotama, Noite e dia seu mental se deleita na compaixão.
301 — Alertas, bem despertos, estão sempre os discípulos de Gotama. Noite e dia seu mental se deleita na meditação.
302 — É duro abandonar o mundo. É penoso viver no mundo. Rude é a vida monástica, e difícil de se tolerar é a vida de família. É penoso pôr tudo em comum, mas o vadio é atormentado pela desgraça.
303 — O peregrino mendicante está sujeito à dor. Ganha glória e tesouros o homem cheio de fé e de coragem. Ële é reverenciado em toda a parte por onde ande.
304 — Como a cadeia nevosa do Himalaia, de longe, são reconhecidos os homens leais. Não mais visíveis são os homens todos que flechas disparadas de noite.
305----Que se deleite com a vida solitária das florestas o homem que come só, dorme só, caminha só, incansável no domínio de si mesmo.


O NIRAYA



306 — Aquêle que mente vai para o niraya. e o que, tendo agido, nega o ato. No futuro ambos participarào da mesma sorte, As obras dos homens acolhem-nos no além.
307 — Usando embora o hábito amarelo, se são dissolutos e instigadores do mal suas ações os levam ao niraya.
308 — Valeria mais engolir uma bola de ferro em brasa do que viver de esmolas quando se leva vida dissoluta.
309 — Quatro castigos aguardam o homem sem escrúpulos, que cobiça a mulher do próximo: infortúnio, sono agitado, reputação vergonhosa e o niraya.
310 — Há portanto a má reputação, o demérito, prazer breve e inquieto dos dois cúmplices e a punição severa
do juiz. Assim, que nenhum homem cobice a mulher alheia.
311 — A erva kuxá corta a mão que inábil a pega. Assim também leva ao niraya o ascetismo mal praticado.
312 — O dever cumprido com indiferença, a regra seguida invita, tudo isto trará apenas parca recompensa.
313 — O que deverás cumprir, fá-lo com todo o ardor. Um falso peregrino na senda só faz espalhar o mal.
314 — Melhor é evitar a má ação: quem a comete arrepender-se-á. Melhor é a boa ação; executada, nenhum arrependimento acarretará.
315 — Saiba guardar-te a ti mesmo, como a fortaleza bem guardada por dentro e por fora. Não abandones um só momento a defensiva. Os que de tal coisa se esquecem, por um minuto que seja, sofrem as penas do niraya.
316 — Alguns há que não se envergonham do escândalo, e escandalizam-se quando nada há de vergonhoso. Formar falsos juízos é entrar pelo mau caminho.
317 — Ter mêdo do que não é temível, e não temer o que é formidável; formular tais juízos é enveredar por mau caminho.
318 — Ver o mal onde não o há e não vê-lo onde existe; formular tais juízos é seguir a má estrada.
319 — Reconhecer o mal como mal, e o bem como bem, aderir à verdadeira Doutrina, é tomar o bom caminho.


O ELEFANTE



320 — Como o elefante de combate suporta a flecha disparada do arco, assim suportarei pacientemente as palavras ásperas dos malévolos que compõem o mundo,
321 — É conduzido à batalha o elefante domado. Monta-o o rajá. O melhor homem é o homem manso que suporta em silêncio as injúrias.
322 — Excelentes são os mulos amestrados e os cavalos puro-sangue de Sindh, e também os grandes elefantes de combate. Melhor ainda é o homem que a si mesmo domou.
323 — Não são tais alimárias que te transportarão à região inexplorada mas, dominando-nos a nós mesmos, poderemos lá chegar.
324 — Difícil de governar na época do cio é o grande elefante chamado Dhanapâlako. Acorrentado, recusa o alimento, Êle se lembra, êste grande elefante, da vida agradável da floresta.
325 — Quem fôr preguiçoso, glutão, com a cabeça pesada pelo sono, como o porco que se alimenta de detritos — este néscio conhecerá ainda inúmeros renascimentos.
326 — Por muito tempo, êste mental quis errar e vagabundear, seguindo a inclinação de seu bel-prazer, mas hoje eu o dominarei como o cornaca retém o elefante enfurecido.
327 — Sêde vigilantes, guardai com rigor o mental. Arrancai-vos da cloaca do mal como o elefante sai do pântano.
328 — Se achardes para vos acompanhar companheiro prudente, sóbrio, sábio, equânime em todos os perigos, não deixeis de vos pôr a caminho com êle.
329 — Se não encontrardes nenhum companheiro prudente, sóbrio e sábio, então, como um rei deixa o seu reino conquistado, ou como o elefante na floresta, ide só pelo caminho.
330 — É preferível viver só. O néscio não serve de companheiro. Ide então só na vida, sem fazer mal, com poucas necessidades, como o elefante errante através da selva,
331 — É bom ter às vêzes um amigo certo, E bom ficar satisfeito com tudo o que acontece. É bom no fim da vida ter agido bem. É bom estar livre de todos os cuidados.
332 — É bom ser mãe. É bom ser pai. É bom ser sámana. É bom possuir a santidade.
333 — É bom praticar a magnanimidade em todo o decurso da vida. É bom conservar a fé sólida. É bom adquirir sabedoria. É bom não praticar nenhum mal.

A CONCUPISCÊNCIA



334 — Em homem sem recolhimento, a concupiscência cresce como a planta trepadeira do Mâluva. Êle pula de existência em existência como o símio à cata de frutos na selva.
335— Quem é dominado pela feroz e venenosa cobiça, vê seus males crescer e aumentar como a relva do Bírana depois da chuva.
336— Mas quem domina esta cobiça tão difícil de vencer, vê seus males cair como a gôta dágua desliza do lódão.
337— A todos aquêles aqui reunidos eu dou êste conselho salutar: “Extirpai a raiz da cobiça, como se arranca a relva do Birana. Não deixeis Mâra quebrar-vos sem pausa, como o rio dobra a cana.
338 — Tal a árvore podada deita ainda brotos, ficando intactas e salvas as raízes; assim o sofrimento volta ainda e sempre, enquanto em nós não extirparmos o desejo.
339 — Incapaz de resistir poderosamente às trinta e seis torrentes de paixões, o homem mal guiado, ávido de prazer, é arrebatado pelas ondas.
340 — De tôdas as partes correm estas torrentes, e a planta trepadeira (da cobiça) se agarra e brota. Ao vê-la medrar, sêde bastante advertidos para cortá-la pela raiz.
341 — Deixando o espírito se demorar com delícia no meio das volúpias, os homens tornam-se vítimas do nascimento e da morte.
342 — Tontos de cobiça, correm os homens daqui para ali como lebres perseguidas pelo caçador. Agarrados e laçados, por muito tempo ainda terão que suportar o sofrimento.
343 — Tontos de cobiça, correm os homens daqui para lá como lebres acossadas. Rejeita portanto o desejo, ó bhikkhu, tu que aspiras a te libertar das paixões.•
344 — A aquêle que, liberto da selva do de leite, nela recaí, olha-o como o escravo fôrro voltando ao cativeiro.
345 — Aos olhos do sábio, não são feitas de ferro, madeira ou cânhamo as pesadas cadeias: são ainda, mais a ardente cobiça de jóias e enfeites, como o apêgo aos filhos e às espôsas.
346 — De certo, é forte grilhão, declara o sábio, e êle paralisa os homens e penoso é dêle se livrar. Entretanto, cortam-no alguns, e escolhem a vida sem lar; abandonam o prazer e o desejo sem olhar para trás.
347 — Há os que se prendem na própria rêde de prazer, como a aranha na teia. O sábio passa de largo, sem se voltar, e deixa atrás todos os cuidados.
348— Livra-te do passado, livra-te do presente para os superar. Liberto assim o mental, não mais voltarás a entrar no nascimento e na decrepitude.
349— O homem agitado pela dúvida, subjugado pelas paixões, só atento ao prazer, vê nêle crescer a concupiscência, forja para si pesadas cadeias.
350— O homem que se compraz na pacificação do mental, que não receia o desprazer, à verdade, removerá, cortará as cadeias de Mára.
351— Aproxima-se da grande Consumação sem temor, livre da cobiça, sem mancha, destruídos os espinhos da existência, e ser-lhe-à esta a última encarnação.
352 — Livre do desejo, desligado de tudo, hábil para compreender o Ensino, versado no sentido etimológico das palavras, tal se mostra êle na última encarnação; e chamam-lhe o Grande Homem, o Grande Sábio.
353 — ‘Eu sou aquêle que tudo compreendeu e aprendeu: que nada polui ou embaraça, livre pela destruição das cobiças, tendo, só, penetrado tudo, a quem pois poderia chamar de meu mestre?”
354 — Sôbre todos os dons, reina o dom da Doutrina. Acima de todos os sabôres, reina o sabor da Doutrina. Acima de tôdas as delicias reinam as delícias da Doutrina. Acima de todo sofrimento reina o término da cobiça.
355 — Aniquilam as riquezas o insensato, se ele não busca o que está além. Pela paixão por elas, destrói—se o néscio como o destruiriam os inimigos.
356 — São as ervas daninhas a perda dos campos; a perda da nossa geração é a avidez. Por conseqüência, produz muitos frutos o dom da doutritrina do desapêgo.
357 — São as ervas daninhas a perda dos campos, a perda da nossa geração é a ira. Por conseqüência, produz muitos frutos o dom que do ódio vos liberta
358 — São as ervas daninhas a perda dos campos; a perda da nossa geração é a ira. Por conseqüência, produz muitos frutos o dom que da vaidade vos liberta.
359 — São as ervas daninhas a perda dos campos; a perda da nossa geração é o desejo egoísta. Por conseqüência, produz muitos frutos o dom que do egoísmo vos liberta.


O BHIKKHU



360 — É bom saber refrear a vista. É bom regular o ouvido. É bom vigiar o olfato. É bom refrear o paladar.
361 — É bom vigiar a ação. É bom reprimir a palavra. É bom refrear o mental. Em todos os casos é boa a vigilância. Livre está de tôda a dor o bhikkhu que se controla de todos os modos.
362 — Merece chamar-se bhikkhu o homem que refreia os gestos, o andar, a língua, sente-se satisfeito, tranqüilo, contente consigo
363— O bhikkhti, senhor de sua língua, sábio e comedido nos propósitos, não ancho de orgulho, que interpreta a Doutrina, esclarecendo-a, doces como mel são suas palavras.
364 — Observante da Doutrina, alegrando-se na Doutrina, meditando na Doutrina, expondo a Doutrina, assim agindo o bhikkhu estará sempre nela firmemente fundado.
365 — Não deve o bhikkhu desdenhar dos próprios progressos (em sabedoria e virtude), nem olhar com inveja os de outrem. Não pode conseguir a concentração o bhikkhu que é invejoso.
366 — Mesmo que o progresso feito pelo bhikkhu não seja grande, que êle não desdenhe disso. Sendo sua vida pura e o labor constante, até dos deuses será louvado.
367 — Aquêle que, de tudo o que compõe o corpo e a mente, não acha nada de que possa dizer ‘isto é meu , e que não se lamenta sôbre o drama efêmero da vida, em verdade, êle se chama bhikkhu.
368 — O bhikkhu que age com bondade e se deleita no Ensino do Iluminado atinge tal bhikkhu a paz do nibbâna, têrmo tranqüilo e bem-aventurado da existência compósita.
369 — Deita fora o lastro, ó bhikkhu: uma vez aliviado, teu barco te levará sem esfôrço. Desembaraçado do desejo e da ira, entrarás no nibbâna.
370 — Suprime êstes cinco objetos: crença num eu distinto, indecisão, crença na eficácia dos ritos e cerimônias, luxúria, má vontade. Abandona êstes outros cinco: desejo da vida no mundo sem forma, desejo da vida no mundo da forma, orgulho, agitação do mental e ignorância. Cultiva êstes outros cinco: confiança, energia, atenção concentrada, meditação e sabedoria. O bhikkhu, assim quitituplamente libertado, é chamado oghatinna, isto é, o vogador da corrente.
371 — Sêde vigilantes, ó bhikkhus. Nada negligencieis. Não deixeis a mente evolver em tôrno dos prazeres sensuais, isto equivaleria a, por negligência, engolirdes uma bola de ferro em brasa, gritando: “Que suplício!”
372— Sem sabedoria não há meditação; sem meditação não há sabedoria. Está verdadeiramente perto do nibbâna aquêle que medita e é sábio,
373— Aquéle que desmobilou a casa (da vida), o bhikkhu de mental tranqüilo, goza de alegria sôbre-humana na clara visão da Doutrina.
374— Logo que com atenção concentrada êle vê como os elementos da existência nascem e desaparecem, goza da felicidade e da alegria
pertencentes aos conhecedores do nibbâna.
375— Eis as primeiras observâncias necessárias ao sábio bhikkhu: vigiar os sentidos, contentar-se com pouco, observar a disciplina requerida pela Doutrina, escolher por amigos sêres nobres, sinceros e puros.
376 — Seja o bhikkhu hospitaleiro, afável e cortês; assim, na plenitude da alegria, terá pôsto têrmo ao sofrimento.
377 — Como a vássikâ (jasmim) deixa cair as pétalas murchas, assim despoja-te da paixão e da ira, ó bhikkhu.
378 — Comedido em atos, comedido em palavras, calmo, plácido, livre de todo o apetite mundanal, tal é o bhikkhu que se chama sossegado.
379— Pelo Ego é preciso ativar o ego; é preciso refrear o ego pelo Ego; protegido pelo Ego, vigilante, prosseguirá o bhikkhu sua rota até a felicidade.
380— Porque o Ego é o seu próprio senhor, o Ego é o seu próprio refúgio. Saibas, portanto, reprimir-te como o mercador domina o impetuoso corcel.
381— Repleto de alegria, arrebatado pela mensagem do Buda, atinge o bhikkhu o plácido nibbâna, o apaziguamento feliz e tranqüilo da existência composta.
382 — Até um jovem bhikkhu consagrado à Doutrina do Sublime Desperto. ilumina êste mundo como a lua ao emergir das nuvens.

O BRÂMANE



383 — Detém a corrente, faze esfôrço, desembaraça-te das concupiscências, ó brâmane! Chegado à destruição das existências compostas. conhecerás o nibbâna, o incomposto.
384 — Quando o brâmane abarcou os dois estados de pacificação e de visão interna, então conhece a Realidade e todos os grilhões caem.
385 — Aquêle para quem não há subjetivo ou objetivo, o ser sem mêdo e sem entraves, chamo-lhe eu brâmane.
386 — Aquêle que à meditação se devota, que está isento do desejo, do amor da vida, da ilusão; que é sem mácula, fêz o que devia fazer, e atingiu a meta final, chamo-lhe eu brâmane.
387 — De dia arde o sol. De noite brilha a lua. Cintila em sua armadura o guerreiro. Luz o brâmane na meditação. Noite de dia sem cessar, resplandece o Buda.
388— É brâmane o homem que corajosamente bane o mal. É discípulo aquele cuja conduta é disciplinada; e asceta é o que de suas impurezas se purgou.
389— Que ao brâmane nenhum mal se lhe faça, e, atacado, o brâmane não revide. Opróbrio sôbre quem bate no brâmane. Desonra sôbre o brâmane que retorna a injúria.
390— Nada de melhor há, para o brâmane, que o domínio do mental e das inclinações (tendências). Suprimida a má intenção, a infelicidade é aplacada.
391— Aquêle que desconhece o mal em atos, palavras e pensamentos, ao homem que tem êste tríplice domínio, chamo-lhe eu brâmane.
392— A quem quer vos ensine a Doutrina do Buda Supremo, rendei-lhe homenagem e veneração como o brâmane diante da chama sagrada.
393 — Não são os cabelos trançados, a casta, o nascimento que fazem o brâmane. Em quem a verdade, a retidão e a piedade residem, êste
é verdadeiro brâmane.
394 — Que importam os cabelos trançados, ó homem néscio! Que importam as peles de cabras de que te cobres? Ocultas uma selva no coração, só tens da amenidade a aparência.
395 — Ao homem esfarrapado, emaciado, cujos músculos são salientes, e que, solitário, medita na floresta, a êste chamo-lhe eu brâmane.
396 — Não chamo porém brâmane ao, nato embora de tronco bramânico, é rico e arrogante. Ao que nada possui e a nada se apega, chamo-lhe eu brâmane.
394 — O que todos os ligamentos rompeu, e diante de nada mais treme, solto de todos os liames, chamo-lhe eu brâmane.
398 — O que a pouco e pouco cortou a correia (da inimizade), a venda (do apêgo) e a corda (do cepticismo); que afastou os obstáculos (da ignorância) que é iluminado, chamo-lhe eu brâmane.
399 — Aquêle que, sem ressentimentos, sofre as injúrias, os golpes e as cadeias, e da paciência fêz seu vigoroso escudo, chamo-lhe eu brâmane.
400 — Ao que da cólera se livrou, seus deveres observa, virtuoso, sem apetites, e está na última encarnação terrena, lhe chamo eu brârna ne.
401 — O que aos prazeres sensuais não mais se apega do que às pétalas do lódão a gota dágua, ou à ponta da agulha o grão de mostarda, a êste lhe chamo eu brâmane.
402 — Ao que nesta vida realizou a cessação do sofrimento e não mais tem fardo ou jugo, lhe chamo eu brâmane.
403 — Ao sábio de profunda sabedoria, conhecedor do bom e do mau caminho, tendo atingido o Objetivo Supremo, chamo-lhe eu brâmane.
404 — Ao que não busca a companhia dos leigos, nem do sámana e que é sem lar e tem poucas necessidades, lhe chamo eu brâmane.
405 — Ao que a nenhuma criatura fraca ou poderosa faz mal; e não comete ou faz cometer crimes lhe chamo eu brâmane.
406 — Tolerante com os intolerantes, entre os violentos manso, entre os interesseiros desinteressado, tal é a quem eu chamo brâmane.
407 — Ao que da luxúria e da ira, do orgulho e da inveja se desprendeu como da ponta da agulha o grão de mostarda, lhe chamo eu brâmane.
408 — Aquêle cuja bôca só boas palavras instrutivas e verdadeiras profere, e a ninguém no mundo causa dano, lhe chamo eu brâmane.
409 — Aquêle que nada toma que não se lhe dê, seja grande ou pequeno, curto ou longo, bom ou mau, lhe chamo eu brâmane.
410 — Aquêle que não languesce na espera dêste mundo ou de outro e não mais apêgo ou jugo tem, lhe chamo eu brâmane.
411 — Ao que não mais tem desejos, em quem a perfeição do conhecimento afastou tôdas as incertezas e que à condição do nibbâna imortal atingiu, a êste lhe chamo eu brâmane.
412 — Ao liberto dos dois entraves, o do bem e do mal, e que está livre de tormentos, de mácula e de impureza, lhe chamo eu brâmane.
413 — Aquêle que, tal a lua, é puro, claro e sereno, e acabou com as alegrias da existência, lhe chamo eu brâmane.
414 — Ao que ultrapassou a ilusão, esta senda lamacenta, esta rota espinhosa do ciclo das vidas e das mortes, aquêle que atravessou e
passou para a outra margem que é meditativo, sem desejo, sem incerteza, desapegado, plácido, lhe chamo eu brâmane.
415 — Ao que abandonou tôda luxúria, e se votou à vida errante, cuja sêde de existência está extinta, lhe chamo eu brâmane.
416 — Aquêle que deixou tôda cobiça e se votou à vida errante, e suprimiu em si a sêde da existência, lhe chamo eu brâmane.
417 — Aquêle que, deixado o jugo terrenal, rejeitou o jugo celeste e livrou-se de todos os jugos, lhe chamo eu brâmane.
418— Aquêle que acabou com o prazer e o desprazer, e chegou ao Sublime Equilíbrio, desatado da luxúria e das impurezas do espírito, êste herói vitorioso de todos os mundos, lhe chamo eu brâmane.
419— Aquêle que conhece a destruição e a volta de todos os sêres, o homem livre, o beato (súgata). o desperto (buddha), lhe chamo eu
brãmane.
420 — Aquêle cuja via não é conhecida dos deuses, dos semi-deuses e dos heróis mortais, que não mais tem desejos ou amor da vida, ou ilusão, a este homem venerável (ârhant), lhe chamo eu brâmane.
421 — Aquêle para quem não mais há passado, futuro ou presente, que de todo existente se esvaziou e a nada no mundo tem apêgo, a este lhe chamo eu brâmane.
422 — O Nobre por excelência, o Herói, o Sábio onipotente, o Vitorioso, o Impassível, o Sêr de todo realizado, o Desperto Supremo, a Êste lhe chamo eu brâmane.
423 — Aquêle que conhece as vidas precedentes, Àquele que vê as mansões celestes e os nirayas, Àquele que chegou ao término dos nascimentos, Àquele que obteve a clarividência, o Supremo, o Sábio de perfeito saber, o Realizado em tôdas as realizações, à verdade, lhe chamo eu brâmane.


[Fim ]


DHAMMAPADA Trad. Mario Lobo Leal




DHAMMAPADA


[O caminho do Dharma] Trad. Mario Lobo Leal - Rio, Org. Simões, 1955

VERSOS GÊMEOS



1 — É o mental, em tudo, o elemento primordial. O mental é predominante; tudo do mental provém. Se com mau mental o homem fala ou age, segue-o tão de perto o sofrimento como a roda vai após a pata do boi que puxa o carro.
2 — É o mental, em tudo, o elemento primordial. O mental é predominante; tudo pelo mental se faz. Se com mental purificado o homem fala ou age, acompanha-o tão de perto a felicidade como a sua inseparável sombra.
3 — “Ele me vilipendiou. Ele me maltratou. Ele me rebaixou. Ele me roubou”. Nunca se acalma o ressentimento aos que a tais pensamentos dão acolhida.
4 — “Ele me vilipendiou. Ele me maltratou. Ele me rebaixou. Ele me roubou”. Não há ressentimento para os que jamais dão guarida a tais pensamentos.
5 — Em verdade pelo ódio não se destrói o ódio. Destrói-se o ódio pelo amor; é este um preceito eterno.
6 — Esquece-se a mor parte dos homens de que todos, um dia, morreremos. A luta suaviza-se para os que nisso meditam.
7 — Quem nos prazeres materiais se compraz e cujos sentidos são insubmissos; quem é na alimentação intemperante, preguiçoso, inativo, este, na verdade, por Mâra é abatido, como pelo vento o é o fraco arbusto.
8 — Contra quem só para os prazeres não vive, e cujos sentidos à razão se submetem e na alimentação é temperante, vive cheio de fé e constante, contra tal, em verdade, Mãra pode tanto como contra o rochedo o vento.
9 — Indigno é de usar o hábito amarelo quem de suas impurezas não se mundificou, quem carece de moderação e lealdade.
10 — Mas quem se purificou, e firme na virtude permanece, que tem o domínio de si mesmo e cultiva a temperança e a verdade, este é, de fato, digno de envergar o hábito amarelo.
11— Enquanto tomarmos pela verdade o erro e pelo erro a verdade, teremos um mental falso, não alcançaremos a verdade, e só vãos desejos possuiremos.
12— Mas reconhecendo por justo o que justo é, e por falso o que é falso, à verdade chegaremos e justos desejos pretenderemos.
13— Como em casa cujo teto está avariado entra chuva, assim no ânimo instável penetra a cobiça.
14 — Como em casa bem coberta de palha a chuva não penetra, assim em ânimo equilibrado não entra, a paixão.
15 — Lamenta-se, neste mundo e no outro, o malfeitor. Em ambos os estados se lamenta. Diante da fealdade de seus atos geme e aflige-se.
16 Neste mundo e no outro quem procedeu bem é feliz. É feliz, aqui e lá, diante da pureza de suas obras.
17.__ Quem o mal fez, sofre neste mundo e no outro. Sofre em ambos os estados. Persegue-o o pensamento do mal praticado; e o seu tormento ao entrar nos círculos do Niraya aumenta ainda.
18 — Quem faz o bem é feliz neste mundo, é feliz no vindouro; é feliz em ambos os estados. Reconforta-o o pensamento do bem realizado. Ao entrar nos círculos dos devas (seres celestes), maior é ainda sua felicidade.
19 — O falar o homem muito da Doutrina, mas não agir consoante ela, é apenas melhor que o vaqueiro que só sabe contar alheio gado. Não é ele discípulo do Bendito.
20 — Falar o homem pouco da Doutrina e entretanto os preceitos lhe praticar, rejeitando toda cobiça, toda ira e toda ilusão, se possui o verdadeiro conhecimento e o mental livre completamente de todos os liames, se a nada deste mundo ou de outro qualquer se ligar, este, sim, é discípulo do Bendito.


DO RECOLHIMENTO INTERIOR



21 — É o recolhimento interior o caminho do nibbana. É a negligência a senda da morte. Não perecem os recolhidos. Mortos já estão os negligentes.
22 — Os que, bem fundados neste conhecimento, no recolhimento se adiantaram, nele se deleitam e no modo de vida dos áriyas se comprazem.
23 — Os sensatos, meditativos, perseverantes, que lutam contra si mesmos sem tréguas, atingem o nibbana, que é o sumo bem.
24 — Quem saiba o zelo manter, ser puro em obras, proceder de modo refletido, domar as paixões, viver segundo a moral, este tal verá crescer sua boa fama.
25 — Pela diligência, pelo recolhimento interior, pelo auto-domínio, deve o homem esclarecido tornar-se uma ilha a qual jamais as vagas poderão submergir.
26— Na sua insensatez entregam-se os néscios à negligência. Conserva o verdadeiro sábio o recolhimento interno como o tesouro mais precioso.
27 — Não vos deixeis cair na inércia, nem nos prazeres sensuais. Quem à meditação se dá, ampla messe de alegria colhe.
28 Ao se livrar o homem recolhido da negligência, tendo escalado os mirantes da sabedoria, lá do alto olha ele para os insensatos. Com serenidade contempla as multidões aflitas, como divisa as gentes da planície o montanhês.
29 — Entre os descuidados zeloso, entre os sonolentos desperto, avança esclarecido, avança o sábio co-
mo o corcel que deixa após si pobre rocinante.
30 — É admirado o recolhimento. A negligência é vituperada. Pelo recolhimento elevou-se Indra à mais alta das esferas divinas.
31 — Move-se como a chama o bhikkhu que teme a negligência e no recolhimento se deleita, como consumidos vê ele em breve cair todos es obstáculos, grandes e pequenos.
32 — O bhikkhu que na reflexão se compraz, e teme a negligência, não mais pode recair. Do nibbana ele se apropínqua.

O MENTAL



33 — Como o fabricante de flechas cuida em que sejam elas direitas, assim corrige o sábio o pensamento instável e incerto, difícil de se manter reto, difícil de guiar.
34 — Qual peixe fora d’água nosso espírito treme e anela por abandonar o reino de Mara.
35 — Difícil de governar, instável é o mental sempre à cata de prazeres. Bom é dominá-lo; a mente domada traz felicidades.
36 — Que o sábio seja senhor dos pensamentos, por que eles são sutis e difíceis de agarrar e sempre a cata de prazeres; a mente bem guiada traz felicidade.
37 — Errando ao longe, solitário, inconsistente e oculto no recesso do coração, tal é o mental. Quem chega a submetê-lo, liberta-se dos vínculos de Mara.
38 — Aos espíritos instáveis, ignorantes da verdadeira lei, e carecentes de serenidade, a sabedoria não chega em sua plenitude.
39 — Não tendo pensamentos agitados, nem a mente turbada pelo desejo, se ele não mais se inquieta com o bem e o mal, tal homem bem desperto desconhece o temor.
40 — Sabendo-se ser o corpo frágil como um vaso, e fortificando o mental como uma cidadela, ataquemos Mâra com o gládio da sabedoria, e conservemos ciosamente o vencido.
41 — Daqui a pouco este corpo jazerá por terra abandonado, privado de entendimento como um bordão.
42 — O inimigo fere o inimigo, o que odeia fere o que o odeia, pior ainda é o mal causado pelo mental mal aplicado.
43 — Pai, mãe, nenhum parente nos tornará tão felizes como o mental bem dirigido.



AS FLORES



44 — Quem dominará êste mundo e o reino de Yama (a morte) com suas divindades? Quem saberá reunir as estrofes do Sublime Ensino como ramilhetes de flores?
45 — O discípulo dominará êste mundo e o reino de Yama com suas divindades; o discípulo saberá reunir habilmente as estrofes do Sublime Ensino como quem tece grinaldas de flores.
46 — Aquêle que julga ser o corpo efêmero como a espuma e ilusório como a miragem, desviará a flecha florida de Mara e não verá o rei da morte.
47 — O homem que se dedica a colhêr prazeres como flores, é agarrado pela morte, que o puxara como a inundação arrasta a aldeia adormecida.
48 O que colhe avidamente as flores do prazer é surpreendido pela morte antes mesmo da saciedade.
49 Que o anacoreta viva em sua aldeia como a abêlha recolhe o néctar sem prejudicar a côr e o perfume da flor.
50 Não vos ocupeis das ásperas palavras alheias nem de seus atos, nem tampouco de suas omissões. Sêde antes cônscios dos próprios atos e das próprias negligências.
51 Semelhantes a belas flores coloridas, fulgentes e inodoras são as palavras eloqüentes do que não age.
52 Semelhantes a belas flores fulgentes e perfumosas são as palavras cheias de senso e frutuosas do que age.
53 Como um punhado de flores pode fazer quantidade de capelas, assim por um só mortal muitas boas ações devem ser praticadas.
54 O odor das flores, do sândalo, do incenso ou do jasmim não domina o vento; mas o perfume da sabedoria sobrepuja o vento, Por toda parte espalha o homem santo o olor da virtude,
55 Muito acima do aroma do sândalo, do incenso, do lódão, ou do jasmim, reina o perfume da sabedoria.
56 Fraco é o perfume do incenso e do sândalo comparado ao da sabedoria que ascende até as mais altas divindades.
57 No que tange aos sêres de contínuo recolhidos e libertados pela soberana sabedoria, Mâra ignora o caminho por êles seguido.
58-9 Como o lírio fragrante nasce num montão de lixo à margem do caminho, assim o discípulo do Sublime Iluminado brilha pelo saber entre a multidão dos cegos dêste mundo.

O INSENSATO





60. Longa é a noite do vigilante, longo é o caminho para quem está cansado; longa é a série dos nascimentos e das mortes dos insensatos desconhecedores da verdadeira lei.
61. Não encontrando o viandante quem lhe seja melhor ou igual, que ousadamente ele continuie o caminho, solitário. Não há sociedade com o néscio.
62. "Esses filhos são meus, essas riquezas são minhas”. Tais são os pensamentos atormentadores do néscio. ÊIe não é senhor de si mesmo; muito menos lhe pertencem filhos e riquezas.
63. O néscio que conhece sua estultícia, nisso é, pelo menos, sábio. Mas o insensato que se julga sábio, é justamente tido por louco entre os homens.
64. — O néscio convivendo com o homem sábio, mesmo durante toda a vida, ignora tanto a verdade como a colher o gosto da sopa.
65 O homem inteligente tratando um só minuto com o sábio, conhecerá de pronto a verdade, como a língua sente o sabor da sopa.
66 Os néscios, os loucos, são os seus piores inimigos; amargo é o fruto que colhem de suas más ações.
67 Não é bom praticar obras que tragam tristezas e das quais o fruto será colhido com lágrimas e lamentos.
68 Bem feito é o ato não produtor de nenhuma aflição e cujo fruto é colhido com alegria e júbilo.
69. 'É doce como o mel', assim pensa o néscio do mal feito que ainda não amadureceu; mas quando o mal frutifica, então sofre por isso o estulto.
70. Alimente-se o insensato, durante meses, de erva kuxâ, nem por isso igualará a décima-sexta parte dos estados dos ornados (arahans).
71. Não se muda de repente o mal feito como o leite que se coagula. Como centelha sob cinzas, um belo dia o mal irrompe sobre o néscio.
72. Logo que a vã ciência do insensato dá fruto, então se acaba a felicidade do néscio.
73. Vêem-se estultos buscar falsa reputação e o primeiro lugar entre os bhikkhus; prelazias nos mosteiros e a deferência do povo da vizinhança.
74. “Que seculares e religiosos me julguem perfeito, e se submetam às minhas menores ordens”. No ápice do orgulho assim blasona o tolo.
75. Existe uma via conducente aos bens terrestres, outra há que leva ao nibbâna. Sabedor disto, o bhikkhu, discípulo do Supremo Iluminado, não aspira às honras, mas vota-se à solidão.

O SÁBIO



76 — Considera quem te repreende os defeitos como se êle te desvendasse tesouros. Liga-te ao sábio que te reprova os erros, Quem isto faz, torna-se melhor, não pior.
77 — Que se derrame em advertências, em exortações, que se repudie o mal; a gente será amada dos homens justos e detestada pelos improbos.
78 — Não tenhas por amigos os obreiros do mal ou os de alma vil. Ajunta-te aos bons, busca a amizade dos melhores dentre os homens.
79 — Quem bebe na fonte da Doutrina, vive feliz com ânimo sereno. Alegra-se sempre o sábio com a Doutrina ensinada pelos áriyas.
80 —Os aguadeiros conduzem a água a seu talante; os fabricantes de flechas as ajeitam; os carpinteiros burilam a madeira; os sábios a si mesmos vencem.
81 Tal a rocha não abalada pelo vento, o sábio não é atingido nem pelo vitupério nem tampouco pelo elogio.
82 Assim o sábio, depois de penetrado pela Doutrina, se torna plácido como lago profundo, sereno e tranqüilo.
83 Por onde quer que os verdadeiros sábios andem não são sedentos de prazer. Tocados pela dor ou
pela alegria, nêles nenhuma alteração se vê.
84 Para o próprio bem ou para o alheio, não deseja o sábio filhos, fortuna ou mando. Não funda o próprio êxito na falência alheia. Ele é dotado de virtude, de inteligência e de justiça.
85 Poucos homens há que alcançam a outra margem. A maioria vai e vem sem ousar atravessar.
86 Mas os que ouviram e vivem a expressão perfeita da Doutrina, qualquer que seja a dificuldade da travessia, vencem o domínio
da morte.
87 Abandonará o sábio os caminhos tenebrosos e seguirá os luminosos. Deixará o lar pela solidão buscando aí os prazeres que lá pareciam ausentes.
88 Extinta a sêde dos desejos e o apêgo às volúpias, lavar-se-á o sábio de tõdas as imundícies da mente.
89 Aquêle, cujo espírito está treinado em todos os graus do saber (discernimento da verdade, energia, alegria do verdadeiro, serenidade, meditação, equanimidade) e desapegado de tudo, se compraz na renúncia; cujos apetites foram subjugados e está inundado de luz, êste, mesmo aqui no mundo, atinge o nibbâna.

O VENERÁVEL (ARHAT)



90 — Não há desgraça para quem terminou sua viagem, abandonou todo cuidado, libertou-se de tôdas as partes, rejeitou todos os apegos.
91 Bem resoluto êle parte, não mais lhe basta sua morada; como os cisnes ao abandonarem o lago, deixa de após si a casa, o lar
92 De quem nada possui, que só toma o alimento estritamente necessário, e percebeu a vaidade do século, é tão difícil de seguir a rota como a dum pássaro voando.
93 De quem perdeu o desejo e o amor das ilusões da vida, que pouco se lhe dá alimentação e se embriagou do espaço e liberdade, é. tão difícil de seguir o rumo como o dum pássaro voando.
94 Os próprios deuses invejam aquêle cujos sentidos foram domados (como o são os cavalos pelos cavaleiros), que se purgou de todo orgulho e se libertou das concupiscências.
95 O cumpridor do dever é impassível como a própria terra. Firme como u'a coluna, transparente como o lago sem limo; o ciclo de suas vidas terminou.
96 Tranqüilos são os pensamentos, palavras e obras do que se libertou e chegou à calma, pela perfeição da sabedoria.
97 É o mais excelente de todos os homens quem não é crédulo, mas conhece o incriado, quem rompeu tôdas as cadeias do mundo, destruiu todo elemento de novo nascimento.
98 — Quer vivam os homens veneráveis (arahants) numa choupana, num bosque, na planície ou sôbre a água profunda, é sempre agradável com êles conviver.
99 — Deliciosas são as florestas desdenhadas pela multidão; aí acha deleite o homem venerável e sem paixões, porque não busca os prazeres.

OS MILHARES






100 — Melhor que mil palavras sem senso é uma só palavra razoável capaz de trazer paz ao ouvinte.
101 — Melhor que mil versículos carecentes de sentido é um único versículo lógico podendo dar paz ao ouvinte.
102 — A cem versículos desprovidos de senso é preferível um só versículo da Doutrina dador de paz ao ouvinte.
103 O maior dos conquistadores não é o que, em batalha, vence milhares de homens, mas o vencedor de si mesmo.
104 A vitória sobre si mesmo alcançada é mais importante do que a obtida sobre todos os povos.
104 Nem deus, nem gandhabba, nem Mâra, nem Brahmã podem trocar tal vitória em derrota.
106 — Se, mês após mês e durante um século, se oferecem sacrifícios aos milhares, e num único momento se presta culto a um ser penetrado de sabedoria, esta única homenagem vale mais que tais inúmeros sacrifícios.
107 — Se um homem, durante cem anos, mantiver a chama no altar de Àgni e, por outro lado, render um só instante honra a alguém que domou os instintos, esta breve homenagem vale mais que a longa devoção.
108 — Quaisquer que sejam os sacrifícios e oblações que possa alguém oferecer no decurso de um ano inteiro para daí auferir mérito, tudo isso não valeria mesmo quatro vêzes menos que a homenagem tributada ao justo.
109 — Quem é respeitoso para com os anciães será quatro vêzes próspero: na longura de seus dias, na beleza, na alegria e na saúde.
110 — Vale mais um só dia vivido na sabedoria e na meditação que cem anos passados no vício e na sensuallidade.
111 Vale mais um só dia vivido na sabedoria e na meditação que um século passado na preguiça e na inércia.
112 Vale mais um só dia vivido na sabedoria e na meditação que cem anos passados na estultícia e na ignorância.
113 — Vale mais que um século vivido na ignorância do transitório um só dia decorrido no sentimento de que tudo nasce somente para morrer.
114 •— Vale mais que um século vivido na ignorância da senda do nibbâna um simples dia passado na contemplação do caminho que não conduz à morte.
115 — Vale mais que um século vivido na ignorância da Verdade Suprema um só dia decorrido na contemplação da Verdade Suprema.

O MAL




116 — Apressa-te para o bem, deixa atrás de ti os maus pensamentos. Fazer o bem sem entusiasmo, é ter espírito que se compraz no mal.
117 — Se alguém agir mal, evite de nisso reincidir. Que nêle não se deleite. Dolorosa é a acumulação do mal.
118 — Se alguém agir bem, persevere e nisso se alegre. Bem-aventurada é a acumulação do bem.
119 — Pode o malvado conhecer satisfação enquanto ainda está verde a má ação, mas, uma vez esta amadurecida, o malvado conhece a infelicidade,
120 — Pode o homem de bem passar maus dias, enquanto a boa ação ainda está verde; mas, uma vez ela amadurecida, conhece dias felizes quem faz o bem.
121 Não trates levianamente o mal, dizendo: “Dêle sempre estarei isento . Gôta a gôta o cântaro se enche; assim o néscio, a pouco e pouco, se encherá de maldade.
122 Não trates levianamente o bem, dizendo: “Nünca o atingirei Gôta a gôta se enche o cântaro; assim o sábio, aos poucos se encherá de bondade.
123 O negociante, portador de grandes riquezas e acompanhado apenas de fraca comitiva, evita as rotas perigosas, e o homem que ama a vida evita o veneno; procede então da mesma sorte para com o mal.
124 Pode tocar impunemente a peçonha a mão sã e não ferida, Age assim porque o mal não afeta o homem de bem.
125 Ofender a pessoa pura, inocente e indefesa, é expor-se ao retorno da injuria como quem tivesse atirado poeira contra o vento.
126 — Certas pessoas voltam à terra; os maus vão para as esferas do niraya; os justos sobem para as esferas celestes; os libertos de todo desejo alcançam o nibbâna.
127 Em nenhuma parte do mundo inteiro há lugar onde encontre o homem abrigo contra suas más ações: nem nos ares, nem nas profundezas do oceano, nem nos antros dos rochedos.
128 Nos ares, nas profundezas do oceano, nos antros dos rochedos, em nenhuma parte do mundo inteiro há lugar onde o homem ache guarida contra a morte.

O CASTIGO



129 — Tremem todos diante do castigo; temem todos a morte. A julgar os outros por vós mesmos, não mateis, não sêde causa de crimes.
130 — Tremem todos diante do castigo; a vida a todos é cara. A julgar por vós mesmos os outros, não mateis, não sêde causa de crimes.
131 — Quem quer que, buscando a própria felicidade, fere criaturas ávidas de felicidade, não a obterá após esta vida.
132 — Quem quer que, procurando a próprIa felicidade, não fere criaturas ávidas de felicidade, a obterá depois desta vida.
133 — Não dirijas a ninguém palavras pesadas; elas voItar-se-ão contra ti. Cheias de sofrimento são as palavras coléricas; quem as pronunciou sofrerá o choque de retõrno.
134 — Se ficares tão silencioso como o gongo quebrado, entraste no nibbâna; tôda violência se aplacou em ti.
135 — Como o pastor com o báculo leva o rebanho para o pasto, assim a velhice e a morte conduzem a vida para fora de todos os sêres vivos.
136 — Pratica o néscio o mal por falta de inteligência, é queimado e atormentado por suas ações como pelo fogo.
137 — Fazer mal a quem não o comete, ofender quem não ofende, é apropinquar-se rápidamente de um dêstes dez estados:
138 — Penosas dores corporais, acidentes, doenças graves, loucura;
139 — Luta com a autoridade, calúnia grosseira, perda dos parentes, destruição dos bens.
140 — Incêndio da casa; e, no momento da dissolução do corpo, a passagem ao niraya.
141 — O costume de andar nu, o de ter os cabelos entrançados, o de espalhar poeira pelo corpo, o jejum, o dormir no chão, o fato de se cobrir de cinzas, as prosternações, nada disso purifica o mortal, ainda não livre das concupiscências e da dúvida.
142 —Vestido embora com apuro, se o homem cultiva
a tranquilidade de espírito, é manso, resignado, senhor
de si, casto, e a ninguém faz mal, tal homem é brâmane,
é asceta, é bhikkhu.
143 —Há no mundo asceta tão imaculado para não
merecer nenhuma censura, assim como o corcel puro
sangue não merece nenhuma chicotada? Como o cavalo
fogoso tangido pelo chicote, sêde vivos e rápidos para
a meta.
144 —Pela confiança, pela virtude, pela energia, pela
meditação, pela pesquisa da verdade, pela perfeição do
saber e da conduta, pela concentração, deixai atrás o
grande sofrimento da vida.
145 —Os lavradores fazem regos que conduzem a água.
Os fabricantes de flechas modelam-nas, Os carpinteiros
vergam a madeira. Os sábios se dominam a si mesmos.

A VELHICE




146 — Que prazer, que alegria pode haver num mundo devastado pelos tormentos? O tu que estás envolto em trevas, não buscarás a luz?
147 — Olha esta pobre forma mascarada, esta massa de elementos malsãos cheia de enfermidades e vãos desejos, onde nada mais resta.
148 — Esta forma frágil acabada pela velhice. que é senão ninho de doenças, de decrepitude e de corrução? A morte é a sua vida.
149 — Que alegria pode haver ao contemplar êsses ossos embranquecidos, dispersos como cucúrbitas no outono?
150 — Nesta fortaleza construída de ossos recobertos de carne e sangue, moram a arrogância e a simulação, a decrepitude e a morte.
151 — Pelo uso são gastos os carros pomposos dos rajás. Nosso corpo ten de também para aniquilamento certo, a piedade dos justos não sofre a velhice, mas passa o saber do sábio a outro sábio e não encontra jamais a destruição.
152 — Envelhece o homem ignorante à maneira do boi: aumenta de peso não de sabedoria.
153 — Atravessei muitos nascimentos no ciclo das vidas e das mortes, em vão procurei o arquiteto da casa. Que miséria, nascer e renascer sem fim!”.
151 — “Conheço-te agora, ó arquiteto. não mais construirás a casa, Quebradas estão tôdas as vigas, desabou a cumeeira. Livre está o meu espírito pois cheguei à extinção dos desejos".
155 — Os que não observaram a disciplina conveniente, e não colheram durante a mocidade as riquezas do verdadeiro dever, perecem como velhas garças tinto a lago sem peixes.
156 — Os que não observaram a disciplina conveniente e não recolheram durante a mocidade as riquezas do saber, são como arcos rotos, Só têm que se lamentar das fôrças perdidas.

O EGO

157 — Se alguém ama a si mesmo, que se vigie bem. Velará o sábio um têrço da noite.
158 — Começa por te estabelecer a ti mesmo no reto caminho, depois poderás aconselhar os outros. Que o homem sábio nenhuma ocasião dê a censuras.
159 — Se alguém a si mesmo se formar, seguindo os conselhos dados aos outros, então, bem dirigido, pode a outrem dirigir. Difícil é, de fato, dominar-se.
160 — Na verdade, cada qual é custódio de si mesmo; que outro guardião se poderá encontrar? Disciplinando-se a si mesmo, tem o homem guarda difícil de substituir.
161 — O mal feito por si mesmo, gerado em si, oriundo de si, esmaga o fraco de espírito como o diamante pulveriza as outras pedras preciosas.
162 — Aquele cujas más ações pululam como a parasita ao cobrir a árvore sâla, a si mesmo causa o mal que lhe desejaria um inimigo.
163 — Fácil é prejudicar e danificar. Dificílimo de cumprir é o que é útil e salutar.
164 — Dedicado às más noções, rejeita o néscio os preceitos dos Nobres Sêres, dos Arhat, dos homens retos, e é comparável ao fruto da árvore Katthaka que para a própria destruição amadurece.
165 — Paga o homem de mesmo, o mal feito, ele mesmo dêle se purifica; o bom e o mau purificam-se individualmente. Ninguém pode a outrem mundificar,
166 — Que ninguém negligencie de seguir o próprio Bem Supremo, buscando alcançar o bem de outro, mesmo se isto lhe pareça de grande valor. Percebendo claramente a melhor linha de conduta saiba dela não se desviar.

O MUNDO




167 — Não sigas a via do mal. Não cultives a preguiça de espírito! Não corras atrás de idéias falsas! Não sejas do que se atardam no mundo!
168 — Levanta-te! Não sejas negligente! Segue o ensino da sabedoria! O sábio é bem-aventurado neste mundo e no outro.
169 — Segue o ensino da sabedoria; afasta-te do mal; o sábio é bem-aventurado neste mundo e no outro.
170 — Se considerares o mundo como bôlha de sabão, se tiveres o mundo apenas como miragem, não te alcançará o rei da morte.
171 — Vamos, olha o mundo como o carro pintado do rajá; cousa atraente para os néscios, mas que, à verdade, nada tem que valha para atrair os inteligentes.
172. — Aquêle que, tendo sido negligente, se torna recolhido, ilumina êste mundo como a lua ao sair dentre as nuvens,
1 73 — Aquêle cujas boas ações cobrem o mal feito, ilumina êste mundo como a lua livre das nuvens.
174 — Tenebroso é o mundo; raros são os que reconhecem o caminho e que, tal o pássaro ao escapar do laço, atingem a celeste mansão.
175 — Voam os cisnes no caminho do sol. Voam através dos ares os possuidores de poderes supra-normais. Deixam os sábios o mundo depois de vencidas as perfídias de Mâra.
176 — Expõe-se a cometer todo o mal possível o homem transgressor de um só artigo da Doutrina, que profere más palavras e despreza o mundo superior.
177 — Em verdade, o avaro não chega ao mundo divino. A alegria de dar não a conhecem os néscios. Pelo contrário muito se alegra o sábio na caridade e por isso marcha alegre para o outro mundo.
178 — Melhor vale entrar na corrente do nibbâna do que dominar a terra, atingir o céu ou reinar sobre os universos.

O BUDA



179 — Aquêle cuja vitória nunca, jamais, foi ultrapassada nem mesmo igualada, o Sublime Desperto, que está na esfera a que nada pode limitar, por que pista despistá-lo, a de que não deixa pegadas?
180 — Aquêle em quem não mais há cobiça ou desejo, de que modo pode ser dirigido? Por que pista despistá-lo, a êle que não deixa pegadas?
181 — Invejam os próprios deuses aos sábios, aos despertos, aos recolhidos, que se deleitam no retiro do mundo.
182 — Difícil é conseguir nascer no estado de homem. Difícil é viver esta vida mortal, Difícil é conseguir ocasião de ouvir a verdadeira lei (dhamma). Difícil é o nascimento dos despertos, dos budas.
183 Abster-se do mal; fazer o bem e purificar o mental; tal é o preceito dos budas.
184 A melhor das práticas ascéticas é a paciência constante. E o estado nibânico o mais perfeito, dizem os budas. Não é em absoluto um pabbajita (discípulo) quem faz mal aos outros sêres, nem se torna verdadeiro asceta (sámana) quem a outrem injuria.
185 Não vituperar, a ninguém prejudicar, praticar a disciplina segundo a lei, ser moderado no comer, viver retirado e dar-se a altas meditações, tal é o ensino dos. budas.
186 Nem mesmo uma chuva de riquezas poderia estancar a sêde dos desejos, pois são êles insaciáveis e geram a dor; eis o que vê o sábio.
187 Para o sábio até os prazeres celestes são insípidos; o discípulo do Buda, do Desperto Supremo. só se compraz na abolição de todo desejo.
188 — Compelidos pelo mêdo, muitos homens buscam refúgio nas montanhas, florestas, ou perto dos bosques sagrados.
189 — Mas não é êste o refúgio ótimo nem seguro. O homem que a êle se confia, não se liberta de todas as dores.
190 Quem se refugia no Buda, no dhamma e no sangha, na sabedoria realizada, percebe claramente as quatro verdades seguintes:
191 A dor, a origem da dor, o aniquilamento da dor, e o óctuplo caminho que leva ao aniquilamento da dor.
192 Em verdade, êste é o refúgio seguro, é o refúgio ótimo, Acolher-se a êle é libertar-se de tôda dor.
193 Difícil de encontrar é o homem superior, o buda. Tal ser não nasce em qualquer parte. E onde êste sábio nasce, benditos são os que o rodeiam.
194 — Bendita é a aparição dos budas, bendita a difusão da lei verdadeira, Bendita a unidade do sangha. bendita a devoção dos discípulos.
195-6 Não há medida para o mérito do homem que reverencia os dignos de preito, a saber um buda e seus discípulos, êsses libertos, êsses detentores da certeza, tendo superado todos os obstáculos, tendo atravessado o rio da aflição e do desespêro.

A FELICIDADE



197 — Entre os que odeiam, felizes somos se vivemos sem ira. No meio dos homens que odeiam, estejamos livres de rancor.
198 — Entre os que sofrem, felizes somos os que sem sofrer vivemos, Em meio aos que sofrem, sejamos livres de sofrimento.
199 — Entre os que desejam, felizes somos os que sem desejos vivemos. Em meio dos que desejam, sejamos livres de desejos.
200 — Felizes em verdade somos, nós que nada possuímos. Seremos nutridos de alegria como os deuses radiantes.
201 — Gera a conquista hostilidades. Jaz na desgraça o vencido. Descansa na alegria o homem pacífico, que desdenha tanto da vitória como da derrota.
202 — Não há fogo tão ardente como a paixão nem maior pecado que o ódio. Não há miséria comparável à que causam os elementos da vida; não há beatitude superior à paz do nibbâna.
203 É a fome doença gravíssima. Causam as piores desgraças os elementos da vida que constituem a existência. Quem isto sabe de acôrdo com os fatos e a verdade, alcançou o nibbâna, a suprema beatitude.
204 É a saúde o maior bem, o contentamento é a melhor riqueza. O amigo fiel é o melhor parente. Mas a suma beatitude é o nibbâna.
205 Ao gostar as doçuras da solidão e da paz. liberta-se o homem do sofrimento e do mal; bebe a doçura da verdade.
206 É bom contemplar os âriyas (os nobres); viver junto dêles é uma dita. Feliz o que não deita nunca o olhar sôbre estultos.
207 — Tratar com néscios é comprar aborrecimentos. Viver com tolos, é em tôdas as circunstâncias tão vergonhoso como conviver com inimigos. Coabitar na companhia do sábio é gozar da mesma felicidade que viver no meio dos seus.
208 — Recorre, portanto, à sociedade do sábio, do douto, do erudito, do homem piedoso que está sob o jugo da verdade. Como a lua segue o caminho das estrêlas, segue o exemplo do bom e do sábio.



O PRAZER




209 — Dedicar-se ao que é improficuo e não se dedicar ao aproveitável, sacrificar os verdadeiros valores à caça de prazeres, é preparar o remorso de não ter agido como os que escolheram a melhor via.
210 — Pouco se te dê, pois, o prazer ou o desprazer; pois doloroso é deixar o agradável, e também é doloroso topar o desagradável.
211 — Deve evitar-se amar o que quer que seja, pois é mal a perda do objeto amado. Não há grilhões para os que nem amam nem tampouco odeiam.
212 — Da afeição nasce o pesar, da afeição se origina o temor. Livres de afeição não sentiremos nem pesares nem temores.
213 — Do amor se origina a tristeza, do prazer vem o temor. Quem está de todo livre do prazer não tem tristezas nem temores.
214 — Do deleite vem a tristeza, do deleite nasce o temor. Os livres de cobiça não conhecem tristezas nem temores.
215 — Do desejo dos sentidos vem o tédio, do desejo dos sentidos nasce o temor. Os libertos de concupiscências, não conhecem tédio nem temor.
216 — Da cobiça vem o tédio, da. cobiça nasce o temor, quem pelos apetites não é dominado não tem tédio nem temor,
217 — O mundo estima quem possui sabedoria e intuição, o homem pio e verdadeiro que faz o que lhe cabe fazer.
218 — Chama-se vogador da corrente o que aspira ao inefável nibbâna, aquêle cujo mental é firme e cujos pensamentos escaparam aos laços da cobiça.
219 — Ao homem que volta de longa viagem saúdam amigos e parentes.
220 — Assim é o homem de bem acolhido ao passar dêste mundo ao outro; com alegria suas boas ações lhe saúdam a volta.


O ADVENTO DO BUDA MAITREYA





O ADVENTO DO BUDA MAITREYA:
"O Amor"

["No ensinamento dos cinco Buddhas terrestres, já presente no Hinayana mas desenvolvido completamente primeiro pelo Mahayana, Ele é a incorporação de todo amor. É esperado que ele entre no futuro como o Quinto e Último dos Buddhas terrestres. O culto de Maitreya é muito grande no Budismo Tibetano. O Seu Céu (Terra Pura) é Tushita ("a jovial") pelo que o santo Tibetano Tsonghkapa nomeou o primeiro monastério que ele fundou. É esperado que Maitreya apareça ao redor de 30.000 anos no por vir, como o Mestre mundial. Ele é descrito iconograficamente em um assento elevado, com os pés descansando no chão como um sinal da sua prontidão surgida do assento dele e ao aparecer no mundo. Se os cinco Buddhas terrestres (Krakuchchanda, Kanakamuni, Kashyapa, Shakyamuni e Maitreya) são vistos como análogos às cinco famílias de Buddha (buddhakula), então as qualidades de Maitreya correspondem aos da família de karma da sabedoria toda-realizada". de "A Enciclopédia de Filosofia e Religião Oriental"]

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Uma Breve História de Maitreya
pelo Venerável
Lama Thubten Yeshe
Ensinamento dado no Maitreya Institut, Holanda, em setembro de 1981.



Incontáveis Aeons atrás, Maitreya, enquanto fazia muitos oferecimentos, fez os votos de bodhisattva do Tathagata do Grande Poder (Tub chen), na presença de muitos outros Buddhas. Naquele momento em diante ele [prometeu] guiar os seres incontáveis sensíveis ao longo do caminho dos três treinamentos mais altos (disciplina, concentração e sabedoria) conduzindo-os assim pelos três veículos (shravaka, pratyekabuddha e bodhisattva) para a iluminação.


Enquanto praticava como um bodhisattva, ele se especializou na meditação do grande amor. Ele não só ensinou este caminho a outros, mas meditou continuamente nisto. Ele estacionava freqüentemente nos portões de uma cidade e contemplava em bondade. Tão poderosa era a sua meditação que as pessoas vindo e passando pelos portões, se elas passassem perto bastante para tocar os pés dele, elas recebiam a realização do grande amor. Isto grandemente agradou a todos os grandes seres das dez direções. Os Tathagatas [budas] se alegraram com as ações dele e predisseram isso: que nas vidas futuras dele, como um Bodhisattva e como um Buddha, ele seria conhecido com o nome de "Amor " (Maitreya = Jhampa). Isto é como ele recebeu o seu nome.


Em uma vida ele nasceu como um dos mil filhos de um grande rei. Este rei quis saber em que ordem os filhos dele seriam iluminados, assim ele pôs todos seus nomes em uma tigela, então tirou os nomes um por um da tigela. O nome de Maitreya era o quinto e o do Buddha daquela idade, o Tathagata Conhecimento Ilimitado predisse que ele seria o quinto Buddha da era presente, assim como Shakyamuni seria o quarto.


Eventualmente, Maitreya avançou por todos os níveis de desenvolvimento espiritual. Ele alcançou o décimo grau de um bodhisattva, a fase mais alta, e depois se tornou um Buddha completamente iluminado. Tendo alcançado este nível de perfeição extrema, ele se manifestou em muitos aspectos diferentes em campos de Buddha incontáveis, e no momento o domicílio particular dele é a Terra Pura de Tushita. Lá ele dá ensinamentos de mahayana a incontáveis discípulos bodhisattva avançados, e foi em Tushita que ele ensinou os cinco textos famosos dele ao grande arya que é Asanga. Maitreya também deu muitos outros ensinamentos conforme as necessidades de discípulos diferentes. Ao longo das dez direções do espaço, ele se parece como mestres espirituais incontáveis, conduzindo os seres inumeráveis assim ao longo do caminho para Plena Iluminação.


Eventualmente tempo virá para Maitreya aparecer como o quinto Buddha universal desta idade mundial e virar a roda de dharma para o benefício de todos. Isto entrará da maneira seguinte: No futuro, por causa do crescimento da ilusão, se degenerarão os seres que moram neste mundo. O seu tempo de vida diminuirá e se encherão de muito sofrimento. Quando a probabilidade de vida humana encurtar para só dez anos, Maitreya se manifestará na forma de um grande líder espiritual e demonstrará o caminho da virtude. Ele espalhará os ensinamentos particularmente em bondade e, como resultado, a fortuna dos seres neste mundo começará a mudar. Como eles deixam as suas atitudes iludidas e prejudiciais gradualmente, as suas vidas aumentarão. Depois de muitas idades a probabilidade de vida dos humanos aumentará enormemente e então lentamente diminuirá novamente até que será aproximadamente de cem anos. De acordo com a profecia de todos os Buddhas e da própria promessa dele, este será o tempo quando Maitreya Buddha aparecerá neste mundo como um professor universal.


O pai dele será chamado o Brahmin da Grande Compaixão e a mãe dele A Jovem-Bela. Maitreya nascerá ao lado dela quando ela se levantar em um jardim da floresta, e a grande família do Indra celestial receberá o buddha nascido de novo com grande devoção. Imediatamente o bebê Maitreya dará sete passos em cada das quatro direções, e em cada mancha que ele colocar os pés dele, um tesouro de flor de lotos aparecerá. Então ele declarará, " eu sou o salvador não superado do mundo e vim para liberar todos os seres do sofrimento. Este será meu último renascimento; não haverá nenhuma reencarnação adicional para mim ". Ao ouvir isto, todos os seres elevados e espíritos do mundo se alegrarão, executando muitos atos de purificação e apresentando oferecimentos magníficos a ele. O pai orgulhoso dele o levará então ao redor da cidade de forma que os cidadãos também poderão alegrar-se com o tesouro novo. Deusas bonitas lhe oferecerão flores e as grandes salvas predirão que naquela mesma vida ele se tornará um Buddha completamente iluminado.


Depois disso, ele seguirá a vida de um príncipe real. Quando o tempo vier para ele ser educado, Maitreya será o melhor de quatro mil e oitenta estudantes e quando estiver na hora para se casar, Maitreya terá muitas esposas com quem ele viverá por muitos anos. Então um grande festival religioso de Brahmins acontecerá no reino dele. Durante este festival, demonstrará Maitreya que ele veio perceber a natureza impermanente dos fenômenos e, vendo os exemplos de monges ascéticos, declarará a renúncia dele da existência cíclica e a intenção dele para deixar os ambientes reais dele e seguir o modo religioso de vida. Esta decisão chocará assim grandemente os que estiverem ao redor dele e o palácio inteiro e todas suas esposas voarão para cima do espaço.


Depois disso, tendo feito sua decisão para abandonar o modo real de vida, Maitreya partirá para a floresta. Todos os seres celestiais e santos se alegrarão com a resolução dele e oferecerão orações para o sucesso dele, protegendo-o e o venerando. Seguindo o exemplo dele, muitos das esposas dele e mil e quarenta acompanhantes dele junto com numerosos moradores da cidade seguirão depois dele em grande devoção e também tomarão ordenação como religiosos.


Durante sete dias, Maitreya seguirá o modo ascético de vida, contendo-se de toda a comida e bebida. Então ao surgir de um estado de concentração meditativa profunda, Maitreya receberá uma tigela de leite de uma esposa dele. Refrescado por isto, ele assumirá a postura de diamante de pernas cruzadas e fará a determinação firme de subir em meditação até que a iluminação seja alcançada. Aquela noite ele derrotará todas as interferências demoníacas e forças negativas (mara) e no meio da noite entrará em estado de absorção profunda. Finalmente, com o sol nascente na manhã seguinte, Maitreya diante da realidade alcançará iluminação plena de muitas idades e demonstrará isto por causa dos discípulos afortunados dele o conseguimento complete da Buddhahood perfeita. Então, da mesma maneira como todos os Buddhas do passado, presente e futuro, Maitreya conduzirá os seres incontáveis para fora do sofrimento e ao longo do caminho para a iluminação espiritual.


Durante sete dias depois da demonstração dele de iluminação, Maitraya permanecerá em silêncio, observando os discípulos futuros dele. Então Indra, o rei dos seres celestiais, apresentará uma roda dourada e os objetos universalmente bonitos dos cinco sentidos, lhe pedindo que vire a roda do dharma para o benefício de todos. Com respeito a este pedido, Maitreya ensinará as quatro verdades nobres e assim conduzirá muitos milhões de discípulos à liberação.


Durante a longa carreira pedagógica dele, Maitreya virará a roda de grandes ensinamentos três vezes e cada tempo multidões incontáveis de discípulos virão escutar. Estes ensinamentos serão eventos enormes que não só atraem os discípulos meramente humanos, nascidos na terra, mas muitos seres celestiais, dakas, dakinis e seres de outros reinos. Muitos desses ajuntados para receber estes ensinamentos se tornarão arhats imediatamente, bodhisattvas e Buddhas completamente iluminados. Pelo poder do corpo santo dele, fala e mente, conduzirá Maitreya e satisfará a todos esses ajuntados de acordo com as necessidades individuais deles/delas e suas capacidades. A alguns ele dará instruções de hinayana, a outros ele dará mahayana. Deste modo, ele conduzirá os discípulos incontáveis pelos três veículos para liberação e iluminação.




De Maitreya por Lama Thubten Yeshe
Um comentário do Kriyatantra de Maitreya
dado em Maitreya Institut, Holanda em setembro, de 1981.
(C) Wisdom Publications, 1985.