segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

SHANTIDEVA, 6



Um guia para o caminho do Bodissátva
[texto integral]
Tradução de Rogel Samuel

CAPÍTULO VI



Paciência



1
Um momento de raiva pode destruir
Todas as ações saudáveis.
Como venerar os Buddhas, a generosidade,
O que foi acumulado por mais de mil aeons:
Tudo pode ser destruído por um momento de raiva.


2
Não existe pior mal do que a raiva,
E nenhuma fortaleza como a paciência.
Assim eu deveria me esforçar de vários modos
Em meditar na paciência.


3
Minha mente não estará em paz
Se nutre dolorosos pensamentos de raiva.
Não acharei nenhuma alegria ou felicidade;
Incapaz dormir, me sentirei inseguro.


4
Um mestre que tem ódio
Está em perigo de ser morto.
Até mesmo por aqueles que dependem dele, da bondade dele.
Por quem a riqueza e felicidade
Dependa da bondade dele.

5
Por minha raiva, amigos e parentes ficam deprimidos;
E apesar da minha generosidade não confiarão em mim;
Em resumo: não há ninguém
Que viva feliz com raiva.

6
Dessa forma este inimigo, a raiva,
Cria sofrimentos,
Mas quem diariamente supera isto
Encontra felicidade de agora em diante.

7
Tendo achado seu combustível na infelicidade mental
Por não conseguir aquilo que eu desejo
E por fazer aquilo que não quero,
A raiva aumenta e me destrói.

8
Então eu totalmente deveria erradicar esse combustível inimigo;
Pois este inimigo não tem nenhuma outra função
Que o de me causar dano.

9
Tudo que me acontecer
Não deve perturbar minha alegria mental;
Pois ficando infeliz não realizarei o que desejo
E minhas virtudes diminuirão.

l0
Não adianta ficar infeliz se algo não tem cura.
Não precisa ficar infeliz se algo tem cura.


11
Para mim e meus amigos
Não quero sofrimento nem desrespeito,
Nenhuma palavra severa, nada que seja desagradável;
Mas para meus inimigos é o oposto!

12
As causas da felicidade só às vezes acontecem.
Mas as causas da infelicidade são muito mais numerosas.
Sem sofrimento não há renúncia.
Portanto, minha mente, fique firme.

13
Se alguns ascetas e os habitantes de Karnapa
Infligem-se inutilmente a dor de cortes e queimaduras,
Então pela causa da Liberação
Por que não terei eu nenhuma coragem?

14
Não há nada que não possa ser feito mais facilmente pelo conhecimento.
Assim familiarizando-me com os pequenos danos
Vou aprender a aceitar os maiores danos, pacientemente.

15
Quem não viu isto ser assim com sofrimentos insignificantes
Como as picadas de cobras e insetos,
Sentimentos de fome e sede,
E com tais coisas secundárias como erupções cutâneas?

16
Eu não deveria ficar irritado impaciente
Com calor e frio, vento e chuva,
Doença, escravidão e pancadas;
Porque se sou impaciente o problema aumentará.


17
Alguns quando vêem o próprio sangue
Ficam especialmente valentes e firmes,
Mas outros quando vêem o sangue dos outros
ficam nervosos e desmaiam.

18
Estas reações vem da mente
Forte ou tímida.
Pois eu deveria desconsiderar os danos causados a mim
E não ser afetado pelo sofrimento.

19
Até mesmo quando está sofrendo
A mente do sábio permanece muito lúcida e serena
Já que ele está empreendendo a guerra
Contra as concepções perturbadoras.
E muito sofrimento aparece na hora de batalha.

20
Guerreiros vitoriosos são aqueles
Que, desconsiderando todo o sofrimento,
Derrotam o inimigo da raiva e assim sucessivamente;
(Os guerreiros comuns) matam só corpos do exército.

21
Além disso, o sofrimento tem qualidades boas:
Desanimada pelo sofrimento, é dispersada a arrogância;
A compaixão pelos seres viventes surge;
O mal é evitado; é achada a alegria na virtude.

22.
Não fico zangado com a bílis que
Grande fonte de sofrimento sempre é.
Então por que ficar zangado com os seres sencientes
Que também são irritados pelas condições.

23
Embora eles não desejem,
Esta doença surge;
E igualmente embora eles não desejem,
Estas concepções perturbadoras violentamente irrompem.

24
As pessoas não se irritam por que querem,
Pensando: "Devo irritar-me".
Ninguém se aborrece porque quer,
Pensando: "Quero aborrecer-me agora".
Não é assim que nasce o ódio.

25
Os problemas e os enganos das emoções perturbadoras
De várias maneiras aparecem;
Surgem por força das condições
As pessoas a si mesmas não se governam.

26
Essas condições que aparecem
Não têm nenhuma intenção de produzir qualquer coisa,
Nem seu produto
Tem a intenção a ser produzido.

27
Que o que é afirmado ser a Substância Primordial
E o que é imputado como um Ego,
(Como são desprovidos de substância própria) não surgem intencionalmente,
Pensando: "Eu surgirei (para causar dano).”


28
Se algo é insubstancial e desprovido de ego,
Então qualquer desejo que tenha de produzir dano também não existirá.
Pois se este Ego apreendesse seus objetos permanentemente,
Nunca deixaria de fazer assim. [Um fato não tem "culpa" de nos prejudicar].


29
Além disso, se o Ego fosse permanente
Seria claramente destituído de ação, como o espaço.
Então até mesmo se encontrasse outras condições
Como poderia sua imutável (natureza) ser afetada?


30
Para que serve uma ação para o Ego que,
Durante a ação, permanece o mesmo?
Se o relacionamento é o mesmo da ação,
então qual dos dois é a causa do outro?



31
Conseqüentemente tudo é governado
através de outros fatores (os quais em troca)
são governados por (outros),
E desse modo nada governa nada.
Tendo entendido isto,
Eu não deveria aborrecer-me
Com fenômenos que são como aparições.

32
—(Se tudo é irreal como uma aparição) então quem é que pode
Ter isso chamado de raiva?
Ora, seguramente (neste caso) temos de considerar que convencionalmente o que há é
A origem interdependente de fatores em que um está na dependência de desenvolver a raiva E que o fluxo desse sofrimento pode ser cortado.

33
Assim ao ver um inimigo ou até mesmo um amigo
Cometendo uma ação imprópria,
Devo pensar que tais coisas surgem de condições antecedentes e
Permanecer com humor feliz.

34
Se todos os seres pudessem encontrar a realização de seus desejos,
Então não haveria sofrimento, e ninguém que desejasse sofrer.
--------------------

35
Por falta de cuidado
As pessoas se ferem com espinhos e outras coisas,
E por causa de mulheres e outros cobiças
Os homens se odeiam e até passam fome.

36
E há alguns que se prejudicam
Por suas ações demeritórias:
Se enforcam eles, saltam de precipícios,
Comem veneno e comida insalubre.

37
Se, sob a influência de concepções perturbadoras,
As pessoas destroem até suas preciosas vidas,
Como não esperar que não causem dano
Aos corpos dos outros seres vivos?

38
Até mesmo se eu não posso desenvolver compaixão por tais pessoas
Que pelo nascimento das emoções aflitivas
Tenham a intenção matar-me ou se matarem,
A última coisa que deveria fazer é ter raiva deles.



39
Até mesmo se fosse da natureza das crianças
Causar dano a outros seres,
Ainda assim seria correto ficar zangado com elas?
Seria igual a ter raiva do fogo por ter isto a capacidade de queimar.

40
Se esse defeito é temporário
Se os seres são por natureza bondosos,
Ainda seria incorreto ficar zangado,
Igual a ter raiva do espaço por permitir a fumaça surgir.

41
Se eu me zango com a vara
E não com quem me açoita movido pelo ódio,
Então é melhor odiar o ódio
Porque quem me açoita está dominado pelo ódio.


42
Previamente eu devo ter causado dano semelhante
Para os outros seres sensíveis.
Então está certo que este dano me seja devolvido
Para mim que fui a causa de dano a outros.

43
A arma e o meu corpo
Ambos são causa de meu sofrimento.
Ele obteve a arma; eu o corpo.
Com quem devo me zangar?



44
Cego pelo apego consegui
Este abscesso de sofrimento em forma humana,
Que não pode agüentar nem ser tocado,
Com quem devo me zangar quando ferido?

45
Como uma criança não quero a dor mas desejo
Aquilo que causa a dor.
Quando o sofrimento aparece
Devido ao meu próprio desejo
Por que deveria ter raiva
De outra pessoa?

46
Como os guardiões dos mundos do inferno
E como a floresta de folhas de navalhas-afiadas
Foram produzidos por minhas ações:
Então com quem eu deveria ficar zangado?

47
Tendo sido instigado por minhas próprias ações,
Esses que me causam dano passam a existir.
Se por essas ações eles devem entrar no inferno
Seguramente não sou eu quem os está destruindo?

48
Por causa deles eu purifico muitos males
Aceitando os danos que me causam pacientemente.
Mas por minha causa eles vão mergulhar
Na dor infernal durante um tempo muito longo.

49
Então se que eu estou causando dano a eles
E eles estão me beneficiando,
Por que, mente incontrolável, ficar com raiva
De tal maneira enganada?

50
Se minha mente tem a nobre qualidade (da paciência)
Não irei para inferno,
Se eu me protejo
Que acontecerá com eles?


51
Não obstante, se eu revidar o dano
Ou não os proteger,
Fazendo assim minha conduta se deteriorará
E conseqüentemente esta fortaleza será destruída.

52
Como a mente não é física
Não pode ser prejudicada por ninguém.
Mas por ser apegada ao corpo
É atormentada pelo sofrimento.

53
Mas se a falta de respeito, as agressões verbais,
as críticas injustas,
Não causam dano a meu corpo,
Por que, mente, você fica com tanta raiva?

54
—Porque os outros me repugnarão—
Mas desde que não me devorarão
Nesta ou em outra vida
Por que ficar com tanta raiva?

55
Porque impedirão meu ganho mundano?
De qualquer forma eu os perderei com a morte.
Mas se terei que deixar para trás meus ganhos mundanos
Minhas faltas me acompanharão certamente.

56
Assim é melhor que eu morra hoje
Do que viva uma vida longa porém má;
Mesmo as pessoas que vivem muito tempo
Experimentam o sofrimento da morte.

57
Suponha alguém despertando de um sonho
No qual experimentou cem anos de felicidade,
E suponha outro, despertando de um sonho,
No qual experimentou um pouco um momento de felicidade;

58
Para ambas essas pessoas que acordaram
A felicidade nunca volverá, aquela.
Semelhantemente, se minha vida foi longa ou curta,
Na hora de morte estará terminando assim. .

59
Embora eu possa viver alegremente por muito tempo
E obter muita riqueza material,
Eu estarei de mãos vazias e destituído adiante na morte
Igual a ter sido roubado por um ladrão.

60
—Certamente riquezas materiais me permitirão viver (melhor),
E então eu poderei purificar o mal, e fazer o bem—.
Mas se eu tenho raiva por causa disso
Não será consumido meu mérito e aumentado o mau?

61
E de que uso será esta vida
De um que só comete o mal,
Se por causa do ganho material
Ele degenera os méritos desta vida?

62
—Certamente eu deveria estar zangado com esses
Que dizem coisas desagradáveis a meu respeito o que perturba outros seres.
Mas da mesma maneira por que não fico zangado
Com pessoas que dizem coisas desagradáveis sobre outros?

63
Se posso aceitar esta maledicência, pacientemente,
Porque é relacionado a outra pessoa,
Então por que não tolero paciente as palavras desagradáveis sobre mim,
Desde que são devidas ao nascer de concepções aflitivas?

64
Se outros falam mal ou até mesmo destroem
Imagens santas, relicários e o Dharma sagrado,
É impróprio eu me ressentir com isto,
Porque os Buddhas nunca podem ser prejudicados.

65
Eu deveria evitar a raiva que surge contra esses
Que prejudicam meus mestres espirituais, parentes e amigos.
Ao contrário eu deveria ver, como mostrado antes,
Que aquelas coisas surgem de condições.

66
As pessoas viventes são feridas
Por seres viventes e objetos inanimados,
Por que se irritar somente contra os seres viventes?
Por isso eu deveria aceitar todo o dano pacientemente.

67
Devido à ignorância uns prejudicam os outros,
E os prejudicados, devido à ignorância, têm raiva dos agressores.
Entre eles, quem pode ser chamado de culpado?
E quem, inocente?

68
O que fiz eu previamente
Para que os outros agora me causem dano?
Desde que tudo está relacionado com minhas ações,
Por que eu deveria chamar os agressores de inimigos?

69
Compreendendo isso assim,
Eu deveria me esforçar para o que é meritório
Para que certamente nasça
Mútuos pensamentos amorosos entre todos.

70
Por exemplo, quando há fogo numa casa
Para que não passe para a casa vizinha,
Retiramos a palha e coisas inflamáveis
Que causam o fogo de se propagar.

71
Igualmente quando o fogo das expansões de ódio incendeia
Para qualquer apego por que minha mente é prendida,
Eu deveria imediatamente pular fora disto
Com medo de que meu mérito seja incendiado.

72
Se um condenado à morte é libertado depois de ter a mão cortada,
Por que não se considerar afortunado?
Se estou sofrendo a miséria humana,
Mas poupado das agonias do inferno,
Por que não me considerar afortunado?

73
Se eu não posso suportar
Até mesmo os simples sofrimentos presentes,
Então por que não me guardar da raiva que pode ser a causa
Dos suplícios infernais?

74
Para satisfazer meus desejos
Eu fui queimado no inferno muitas vezes,
Sem qualquer propósito para mim ou para os outros.

75
Mas agora como grande tem significado
E este sofrimento nem mesmo é uma fração daquele,
Eu realmente deveria estar alegre
Pois tal sofrimento é um alívio para todos.

76
Se há pessoas que acham felicidade
Em elogiar os outros como pessoas excelentes,
Por que, minha mente, você não os elogia também
E igualmente se faz feliz?

77
Esta felicidade é uma fonte de alegria, algo não proibido,
Um preceito dado pelos Excelentes,
E um supremo (meio) de reunir os outros.

78
Diz-se que os outros ficam felizes sendo elogiados deste modo.
Mas se você não quer experimentar felicidade,
Então deveria deixar de dar esmolas, salários etc
E assim seria afetado adversamente nas vidas futuras.

79
Quando as pessoas descrevem minhas próprias qualidades
Eu quero que outros também fiquem felizes,
Mas quando eles descrevem as boas qualidades dos outros
Então eu não fico contente.

80
Tendo gerado a Mente de Despertar
Por desejar para todos os seres que sejam felizes,
Por que eu me deveria aborrecer
Se eles acham um pouco de felicidade?

81
Se eu desejo que todos os seres sensíveis se tornem
Buddhas, adorados pelos três reinos,
Então por que é que eu me atormento
Quando os vejo recebendo mero respeito mundano?

82
Se um parente por quem eu me preocupo
E a quem tenho que dar muitas coisas
Achar os meios do seu próprio sustento,
Eu não devia ficar contente, em vez de magoado?

83
O que não há de desejar aos seres aquele que deseja para eles que se iluminem?
E como a Mente de Despertar
Poderia se aborrecer de estarem eles recebendo coisas?

84
O que importa se meu inimigo ganha algo ou não?
Se ele obtém algo ou se permanece na casa do benfeitor,
Em qualquer caso eu não adquirirei nada.

85
Assim por que, me zangando, eu destruo meus méritos,
A fé que outros têm em mim e minhas qualidades boas?
Me fale, por que não me zango comigo mesmo
Por não ter as causas [méritos] para o ganho?

86
Não tenho nenhum remorso
Pelos males que você cometeu, ó minha mente,
E ainda desejo competir com os outros
Que cometeram ações meritórias?

87
Se seu inimigo caiu em desgraça
Por que ficar feliz?
Não foi meu desejo quem o destruiu
Mas ele mesmo foi sua própria causa.

88
E até mesmo se ele sofre como você tinha desejado,
O que há nisso para você ficar feliz?
Se você diz, “Agora estou satisfeito”,
Que coisa poderia ser mais miserável do que isso?

89
Este anzol lançado pelas concepções perturbadoras
É insuportavelmente afiado: Tendo sido preso por ele,
É certo que eu serei cozido
Nos caldeirões dos guardiões do inferno.

90
A honra do elogio e fama
Não se transforma em mérito nem em vida;
Não me dará força, nem liberdade da doença,
E não proverá felicidade física.

91
Se eu estivesse atento ao que tem mesmo significado para mim,
Que valor acharia eu nessas coisas?
Se tudo o que eu quiser é um pouco de felicidade mental,
Eu deveria me dedicar a jogar, a beber e a algo assim.

92
Se por causa da fama
Eu dou minha riqueza ou me levo à morte,
O que as meras palavras (da fama) poderão fazer?
Uma vez morto, a quem elas darão prazer?

93
Quando o castelo de areia se desmorona,
As crianças choram em desespero;
Igualmente quando os elogios e minha reputação declinam
Minha mente se torna uma pequena criança.

94
O elogio é apenas um som que dura pouco e é inanimado.
O som não pode pensar intencionalmente em me elogiar.
—Mas como faz (o autor de elogio) feliz,
(Minha) reputação é uma fonte de prazer (para mim)—.

95
Mas se este elogio é dirigido a mim ou a outra pessoa
Como eu serei beneficiado pela alegria dele que faz isto?
Desde que aquela alegria e felicidade é só dele
Eu não obterei nenhuma parte nisto sequer.

96
Mas se eu acho felicidade na felicidade dele
Então seguramente não deveria sentir do mesmo modo para tudo?
E se isto fosse assim, por que é que eu fico tão infeliz com a vitória dos outros,
Quando os outros acham prazer no que lhes traz alegria?

97
Então a felicidade que surge
De pensamento: “eu estou sendo elogiado” é inválida.
É só um comportamento de criança.

98
O elogio e coisas assim sucessivamente me distraem
E também me arruínam com a ilusão (da existência cíclica);
Pois eu começo a invejar os que têm qualidades boas
E tudo o que é bom é destruído.

99
Então, esses que me difamam
E vem destruir meu orgulho
Estão envolvidos em me proteger
De entrar nos reinos infelizes.

100
Eu que estou me esforçando para a liberdade
Não preciso estar ligado a ganho material e louvor.
Assim por que eu deveria estar zangado
Com esses que me livram dessa escravidão?

101
Esses que desejam me causar dano
São como Buddhas, dão ondas de bênçãos.
Eles fecham a porta para que eu não vá para um reino infeliz.
Por que deveria estar zangado com eles?

102
—Mas se alguém me impede de ganhar meus méritos?—
Também com ele é incorreto estar zangado;
Pois não há nenhuma fortaleza semelhante a paciência,
Seguramente eu deveria pôr isto em prática.

103
Se devido à minha própria fraqueza
Eu não sou paciente com este (inimigo),
Então sou eu quem está impedindo
De praticar esta causa de ganhar mérito.

104
Se sem isto nada acontece
E se com isto vem a ser,
Então desde que esse (inimigo) seja a causa da produção da paciência,
Como eu posso dizer que ele me impede daquilo?

105
Um mendigo não é um obstáculo à generosidade
Quando eu lhe estou dando algo,
E eu não posso dizer que os lamas que dão os votos
Sejam obstáculo para a tomada dos votos.

106
Há muitos mendigos realmente neste mundo,
Mas escasso os que infligem dano;
Por isso se eu não prejudicar os outros
Poucos seres me causarão dano.

107
Então, pouco tesouros como esses aparecem em minha casa
Sem qualquer esforço de minha parte para obter isto,
Eu deveria ficar contente de ter um inimigo
Porque ele me ajuda em minha conduta de Despertar.

108
E porque eu sou capaz a praticar (paciência) com ele,
Ele é merecedor de receber
Os muitos frutos de minha paciência,
Que desse modo ele foi a causa.

109
—Mas por que deve meu inimigo ser venerado,
Se ele não tem nenhuma intenção de que eu pratique a paciência?—
Então por que deve o Dharma sagrado ser venerado?
( Se também não tem nenhuma intenção) mas é uma causa de ajuste para a prática.

110
—Mas seguramente meu inimigo não será venerado
Porque pretende me causar dano—
Mas como a paciência pode ser praticada
Se todos se esforçassem sempre em me fazer o bem?

111
Assim desde que a aceitação paciente é produzida
Na dependência da mente muito odiosa [do inimigo],
Esse deve ser merecedor de reverência igual ao Dharma sagrado,
Porque ele é uma causa de paciência.

112
Então o Poderoso disse
Que a terra dos seres sensíveis é semelhante a uma terra de Buddha,
Para muitos que os agradaram
E alcançam a perfeição assim.

113
As qualidades de um Buddha são conseguidas
Pelos seres sensíveis que são como Conquistadores,
Assim por que não os respeito
Da mesma forma como aos Conquistadores?

114
(Claro que) eles não são semelhantes na qualidade das intenções
Mas só nos frutos que produzem;
Assim está neste respeito que têm qualidades excelentes
E é então que se disse ser iguais.

115
Todo mérito vem de venerar a pessoa com mente amorosa
Está devido à eminência de seres sensíveis.
Da mesma maneira o mérito de ter fé em Buddha
É devido à eminência de Buddha.

116
Então deles se diz que são iguais
De sua parte aos Buddhas em qualidades.
Mas nenhum deles é igual em excelência
Aos Buddhas que são oceanos ilimitados de virtudes.

117
Até mesmo se os três reinos fossem oferecidos,
Seriam insuficientes para prestar reverência
Para esses poucos seres em quem aparece uma mera parte das qualidades boas
Da Assembléia Sem Igual em Excelência.

118
Assim desde que os seres sensíveis têm uma parte
Pois dão origem às qualidades supremas de Buddha.
Seguramente está correto os venerar,
Como se fossem semelhantes somente neste respeito?

119
Além disso, qual é o modo de agradecer aos Buddhas
Que concedem o benefício imensurável
E que ajudam o mundo sem pretensão,
Diferente do agrado dos seres sensíveis?

120
Então desde que beneficiar esses seres seja em agradecimento
Àqueles que dão seus corpos e entram no inferno mais profundo por sua causa,
Eu me comportarei impecavelmente em tudo que faço
Até mesmo se os outros me causam muito dano.

121
Quando pela causa dos outros, esses que são meus Deuses,
Não têm nenhuma consideração até mesmo para com seus próprios corpos,
Então por que sou bobo assim cheio de ego-importância?
Por que eu não ajo como um servo deles?

122
Por causa da felicidade dos outros são deleitados os Conquistadores.
Mas se os outros são prejudicados ficam descontentes.
Conseqüentemente os agradando eu deleitarei aos Conquistadores
E prejudicando-os eu ferirei os Conquistadores.

123
Da mesma maneira que os objetos desejáveis não dariam para minha mente nenhum prazer
Se meu corpo estivesse envolvido em fogo,
Igualmente quando criaturas vivas estão em dor
Não há nenhum modo de os Compassivos serem agradados.

124
Então como eu causei dano aos seres vivos,
Hoje eu declaro todos meus atos insalubres abertamente.
Isso trouxe desgosto aos Compassivos.
Por favor sejam pacientes comigo, O Deuses, por este desgosto que causei.

125
De agora em diante para deleitar os Tathagatas
Eu servirei o universo inteiro e definitivamente cessarei de causar dano.
Embora muitos seres possam me espancar e cunhar minha cabeça,
Até mesmo ao risco de morrer que eu deleite os Protetores do Mundo (não retaliando).

126
Não há nenhuma dúvida que os com a natureza de compaixão
Consideram todos estes seres iguais a si próprios.
Além disso, esses que vêem a natureza de Buddha como a natureza dos seres sensíveis
vêem os próprios Buddhas;
Por que não respeitar então aos seres sensíveis?

127
(Agradando aos seres vivos) delicio aos Tathagatas
E perfeitamente realizo meu próprio bom propósito.
Além de dispersar a dor e miséria do universo,
Então eu sempre devo praticar isto.

128
Por exemplo, alguns dos homens do rei
Causam dano a muitas pessoas,
Mas os sensatos não revidam
Até mesmo se fossem capaz

129
Porque o soldado do rei não está sozinho
Mas é apoiado pelo poder do rei.
Igualmente eu não deveria subestimar
Os seres fracos que me causam um pouco de dano;

130
Porque eles são apoiados pelos guardiões do inferno
E por todos Os Compassivos.
Assim (se comportando) como os assuntos daquele rei ígneo
Eu deveria agradar a todos os seres sensíveis.

131
Até mesmo se tal rei fosse me prejudicar,
Não me infligiria a dor do inferno,
Que é o fruto que eu teria de experimentar
Desagradando aos seres sensíveis.

132
E até mesmo se tal um rei fosse amável,
Ele não me poderia conceder a Budeidade,
Que é o fruta que eu obteria
Agradando aos seres sensíveis.

133
Será que não vejo
Que o conseguir o fruto da Budeidade,
Como também a glória, o renome e a felicidade nesta mesma vida
Vêm de agradar aos seres sensíveis?

134
Por causa da paciência em existência cíclicas
Consigo beleza, saúde e renome.
Por causa da paciência eu viverei durante um tempo muito longo
E ganharei o prazer duradouro dos Reis Chakra, reis do Universo.

SHANTIDEVA, 7



Um guia para o caminho do Bodissátva
[texto integral]
Tradução de Rogel Samuel

CAPÍTULO SETE

Entusiasmo

1.
Tendo paciência eu deveria desenvolver entusiasmo;
No Despertar só estarão os que praticam a si próprios.
Da mesma maneira que nenhum movimento há sem vento,
Assim o mérito não acontece sem entusiasmo.
2
O que é entusiasmo? É achar alegria no que é saudável.
Seus fatores oponentes são explicados
Como preguiça, atração pelo que é ruim
E menosprezo a si mesmo devido à desesperança.
3
Tendo apego para o gosto aprazível da inatividade,
Almejando o sono,
E por causa de não ter nenhuma desilusão com a miséria da existência cíclica,
A preguiça cresce muito forte.
4
Caindo na armadilha das concepções perturbadoras,
Eu entrei na armadilha do nascimento.
Por que não estarei atento
Que vivo na boca do senhor da Morte?
5
Não vejo
Que ele está matando minha espécie sistematicamente?
Quem permanece profundamente adormecido
(Seguramente se comporta) como um búfalo com um açougueiro.
6
Ao ter bloqueado toda rota de fuga
O Deus de morte está olhando (para alguém para matar),
Como eu posso sentir o prazer de comer?
E igualmente como eu posso desfrutar do sono?
7
Enquanto a morte esteja realmente aproximando-se
Então que eu acumule méritos
Até mesmo se eu acabasse então com a preguiça,
Qual seria o uso? Não há tempo a perder!
8
Enquando isto não estiver terminado, quando isto esteja sendo terminado
E quando isto só esteja meio terminado:
De repente, o Deus de morte virá.
E ocorrerá o pensamento: “Oh não, eu não terminei, pára!”
9
As faces fluindo em lágrimas
E olhos vermelhos e intumescidos de tristeza,
Meus parentes perderão finalmente a esperança,
E eu terei a visão dos mensageiros da morte.
10
Atormentado pela memória de meus males,
E ouvindo os sons do inferno,
Com terror cubro meu corpo de excremento.
Que virtude pode fazer um tal estado delirante?
11
Se até mesmo nesta vida sou tomado de medo
Como um peixe vivo rolando (na areia quente),
Por até mesmo mencionar as insuportáveis agonias de inferno
Que será do resultado de minhas insalubres ações?
12
Como posso eu viver à vontade
Quando cometi as ações (que dão fruto).
No meu corpo de criança delicada encontrarei ácidos ferventes
No inferno de tremendo calor.
13
Muito dano acontece com quem não tem paciência
E com os que querem resultados sem fazer qualquer esforço.
Quanto apertados pela morte chorarão como os deuses:
“Oh não, não eu, dominado de miséria!”
14
Confiando no barco do corpo humano,
Livre-se do grande rio da dor!
Quão difícil de achar novamente é este barco!
Não há tempo a dormir, você se engana!
15
Tendo rejeitado a suprema alegria do sagrado Dharma
Que é uma fonte ilimitada de delícia,
Por que me distraio com as causas da dor?
Por que desfruto das diversões frívolas?
16
Sem me viciar em desânimo, eu deveria reunir minhas forças (para o entusiasmo)
E seriamente assumir o auto-controle.
(Então vendo) a igualdade entre mim e os outros,
praticar o “trocando o eu, pelos outros”.
17
Eu não deveria me viciar no desânimo, alimentando pensamentos como:
“Como eu posso despertar?”
Pois o Tathágata, que fala o verdadeiro,
Proferiu esta verdade:
18
“Se eles desenvolvem a força do seu esforço,
Até mesmo os que são moscas, mosquitos, abelhas e insetos,
Ganharão o Despertar insuperável,
Que é tão difícil de achar.”

19
Assim, se eu não abandonar o modo de vida dos Bodhisattvas,
Por que deve alguém como eu que nasceu na raça humana
Não atingir o Despertar, desde que posso reconhecer
O que é benéfico e o que é danoso?
20
—Mas não obstante me amedronta pensar
Que eu posso ter que dar meus braços e pernas—
Sem discriminar entre o que é pesado e o que é leve,
Eu fico confundido no meio da irreflexão.
21
Por milhares de incontáveis aeons
Eu tenho sido cortado, apunhalado, queimado,
E esfolado vivo por vezes inumeráveis.
Mas eu não despertei.
22
Mas este sofrimento
Com meu despertar terá um limite.
Será como o sofrimento de ter feito uma incisão
Para remover e destruir maior dor.
23
Até mesmo médicos eliminam a doença
com tratamentos médicos desagradáveis,
assim para superar os sofrimentos múltiplos
eu deveria poder agüentar um pouco o desconforto.
24
Mas o Médico Supremo não emprega
Tratamentos médicos comuns como estes,
Com uma técnica extremamente suave
Ele cura a maior de todas as doenças.
25
No princípio, o Guia do Mundo encoraja,
Dando tais coisas como comida.
Depois, quando acostumado a isto,
A pessoa pode até mesmo começar a dar sua carne, progressivamente.
26
Em tal momento, quando minha mente ficar desenvolvida,
A ponto de considerar meu corpo como comida,
Então que sofrimento haverá
Quando vier a dar minha carne?
27
Se abandonasse todo o mal não sentiria nenhum sofrimento
E devido à sabedoria haveria sempre alegria;
Mas agora minha mente está aflita por concepções enganosas
E meu corpo atingido por danos de ações insalubres.
28
Como seus corpos estão felizes devido aos seus méritos
E suas mentes contentes devido à sabedoria,
Até mesmo se permanecessem em existência cíclica por causa dos outros
Por que seriam transtornados os Compassivos?
29
Devido à força da Mente do Despertar,
O Bodhisattva consome seus males prévios.
Colhe oceanos de mérito:
Conseqüentemente se diz que supera os Shrávakas.
30
Assim, tendo montado o cavalo da Mente do Despertar
Isso dispersa todo desânimo e cansaço.
Quem, conhecendo esta mente de onde procede,
A alegria da alegria,
Decairia no desânimo?
31
Os apoios para o trabalho pelos seres vivos
São a aspiração, firmeza, alegria e os outros [que serão explicados].
A aspiração é desenvolvida com medo da miséria
E contemplando os seus benefícios.
32
Assim para aumentar meu entusiasmo,
Eu deveria me esforçar em abandonar as forças oponentes,
Para (o acúmulo de) aspiração, autoconfiança, alegria e outras,
Praticar seriamente e ficar forte no autocontrole.
33
Eu terei que superar
As faltas minhas ilimitadas e as dos outros,
E (para destruir) cada uma dessas faltas (só)
(Eu posso ter que me esforçar até) que o oceano de um aeon seja exaurido.
34
Mas se dentro de mim nem percebo
Até mesmo uma fração da perseverança (exigida) para esvaziar essas faltas,
Então por que não tenho eu um ataque de coração? Porque agora me tornei domicílio da miséria infinita.
35
Igualmente eu terei que perceber
Muitas qualidades excelentes para mim e para os outros,
E (para atingir) cada uma destas qualidades (só)
Eu posso ter que me familiarizar com sua causa até que um oceano de aeons seja gasto.
36
Mas eu nunca desenvolvi o conhecido
Com até mesmo uma fração dessas excelências.
Como é estranho desperdiçar
Este nascimento que eu achei por alguma coincidência.
37
Eu não fiz oferecimentos aos Senhores Buddhas,
Eu não dei o prazer de grande festivais,
Eu não executei ações para os ensinamentos,
Eu não realizei os desejos do pobre,
38
Eu não concedi intrepidez aos amedrontados
E eu não dei felicidade para o fraco.
Tudo que eu dei origem são
As agonias no útero da mãe, e para sofrer.
39
Em ambos agora e em vidas prévias
Tal privação surgiu,
Por causa de minha falta de aspiração para o Dharma.
Quem rejeitaria esta aspiração para Dharma sempre?
40
O Poderoso mesmo disse
Que aquela aspiração é a raiz de toda face de virtude;
Sua raiz é conhecida constantemente
Com os efeitos do amadurecimento das ações.
41
Dor física, infelicidade mental,
Todos os vários tipos de medo,
Como também a separação do que é desejado
Tudo surgem de um modo insalubre de vida.
42
(Porém) cometendo ações saudáveis
Que são (motivadas por aspiração) na mente,
Onde quer que eu vá que serei presenteado com
Símbolos do fruto daquele mérito.
43
Mas cometendo más ações,
Embora eu possa desejar felicidade,
Onde quer que eu vá eu serei completamente superado
Pelas armas da dor causadas por minha vida má.
44
Como resultado da virtude eu morarei no coração espaçoso, fragrante e fresco de uma flor de lótus,
Meu brilho será nutrido pela comida da doce fala do Conquistador,
Minha forma gloriosa sairá de um lótus desdobrado pela luz do Poderoso,
E como um Bodhisattva ficarei na presença dos Conquistadores.
45
Mas como resultado da não-virtude minha pele será arrancada pelo ajudante de Yama.
Derretido por tremendo calor o cobre líquido será vertido em meu corpo.
Perfurada por ardentes espadas e punhais, minha carne será cortada em cem pedaços.
E eu cairei no horrível chão de ferro ardente.
46
Então eu deveria aspirar para virtude,
E com grande respeito me familiarizar com isto.
Tendo empreendido o saudável de maneira de Vajradhvaja,
Eu deveria proceder e me familiarizar com confiança então.
47
Em primeiro lugar eu deveria examinar bem o que será feito,
Para ver se posso ou não posso empreender isto.
(Se eu sou incapaz) é melhor deixar isto,
Mas se eu comecei não me devo retirar.

48
(Se eu faço), então este hábito continuará em outras vidas.
E o mal e miséria aumentarão.
Também outras ações feitas na hora do gozo
Serão fracas e não realizadas.

49
Autoconfiança deveria ser aplicada para as (saudáveis) ações,
(Superando) as concepções perturbadoras e minha habilidade (para fazer isto).
O pensamento “eu sozinho farei isto”
É a autoconfiança de ação.

50
Impotente, suas mentes perturbadas,
As pessoas neste mundo não se podem beneficiar.
Então eu farei isto (por elas)
Sem mim estes seres serão incapazes.

51
(Até mesmo) se outros estão fazendo tarefas inferiores
Por que eu deveria me sentar aqui (não fazendo nada)?
Eu não faço essas tarefas por causa de ego-importância;
Seria melhor para mim não ter nenhum orgulho.

52
Quando corvos encontram uma cobra agonizante,
agirão como se fossem águias.
(Igualmente) se (minha autoconfiança) é fraca,
serei prejudicado pela queda mais leve.

53
Como esses de cabeças fracas deixam de tentar
Como acharão liberação com esta deficiência?
Mas até mesmo o maior (obstáculo) achará como superar (com uma mente firme).

54
Então com uma mente firme
superarei todos as quedas,
Porque se sou derrotado ante uma queda
Meu desejo de vencer os três reinos se tornará uma piada.

55
Eu conquistarei tudo
E nada me conquistará!
Eu, um filho do Leão-Conquistador,
Devo permanecer inabalável desse modo.

56
Quem tem ego-importância é destruído por isto:
está transtornado e não tem nenhuma confiança.
Os confiantes não sucumbem ao poder do inimigo,
Mas aqueles estão sob o poder do inimigo ego-importântes.

57
Inchado pela concepção perturbadora de minha importância,
serei conduzido por isto aos mais baixos reinos.
Isso destrói o festival jovial do ser humano.
Eu me tornarei escravo, comendo a comida de outros.

58
Estúpido, feio, fraco e em todos lugares desrespeitado.
Pessoas duras enfunadas por vaidade
estão entre os que se pensam importantes;
Diga-me, o que é mais patético que isto?

59
Quem tem autoconfiança para conquistar o inimigo da ego-importância,
é autoconfiante, o herói vitorioso. E além, quem definitivamente conquista a expansão desse inimigo, a vaidade da importância,
Completamente (ganha) o fruto de um Conquistador, cumprindo os desejos do mundo.

60
Se eu me acho entre a multidão de perturbadoras concepções
Eu os suportarei de mil modos;
Como um leão entre raposas
não serei afetado por este anfitrião perturbador.

61
Da mesma maneira que os homens protegem seus olhos,
Quando grande perigo e tumulto acontecem,
Igualmente eu nunca serei abalado pelas perturbações de minha mente,
Até mesmo nas vezes de grande discussão.
62
Seria melhor para mim ser queimado,
Ter minha cabeça cortada e ser assassinado,
Do que me prosternar
Para esses de concepções erradas.
(Tão igualmente em todas as situações
Eu não deveria fazer nada diferente do que é justo.)

63
Como os que anseiam pelo jogo,
(Um Bodhisattva) é atraído
Por qualquer tarefa que pode fazer:
Ele nunca acha bastante, isso só traz alegria para ele.

64
Embora as pessoas trabalham para encontrar felicidade,
É incerto se acharão ou não isto;
Mas como aqueles cuja única alegria é o próprio trabalho
Acham felicidade a menos que façam isto?

65
Se sinto que nunca tenho bastantes objetos sensuais,
Que são como o mel sobre uma navalha afiada,
Então por que deva sentir que tenho bastante
Mérito que amadurece em felicidade e paz?

66
Assim para completar esta tarefa,
Eu me arriscarei nisto;
Assim como um elefante atormentado pelo sol do meio-dia
Mergulha num lago de água fria.
67
Quando minha força declina, eu deveria deixar tudo que eu estou fazendo
Para poder continuar depois.
Tendo feito algo muito bem, eu deveria apartar isto
Com o desejo (realizar) o próximo trabalho.

68
Da mesma maneira que um velho guerreiro avalia
As espadas do inimigo na frente de batalha,
Assim devo evitar as armas das concepções perturbadoras
E habilmente imobilizar este inimigo.

69
Se alguém derrubasse sua espada durante a batalha,
Ele a recuperaria imediatamente devido ao medo.
Igualmente se eu perco a arma da plena atenção
devo recobrar isto depressa, por medo do inferno.

70
Da mesma maneira que o veneno se espalha ao longo do corpo
na dependência da (circulação do) sangue,
Igualmente se (uma concepção perturbadora) acha uma oportunidade
indignidades penetrarão minha mente.

71
Os que praticam deveriam ser atentos
Como o homem amedrontado que leva um jarro cheio de óleo de mostarda
sendo ameaçado por alguém com uma espada
Que ele será morto se derrama um pouco, uma gota.
72
Da mesma maneira que eu me levantaria rapidamente
Se uma cobra entrasse no meu colo,
Igualmente se o sono ou preguiça acontecem
Eu os repudiarei depressa.

73
Cada vez que acontece algo indigno
Eu deveria me criticar,
E então contemplar por muito tempo:
nunca deixarei isto acontecer novamente.

74
“Igualmente em todas estas situações
Eu me familiarizarei com plena atenção.”
Com esta (motivação) como causa devo aspirar
encontrar (com professores) ou realizar as tarefas (que eles me nomeiam).

75
Para ter força para tudo
Eu deveria recordar antes de empreender uma ação
O conselho do (capítulo) consciência,
E então alegremente realizar (a tarefa).

76
Da mesma maneira que o vento que sopra de um lado para outro
Controla (o movimento de) um pedaço de algodão,
Assim deva eu ser controlado por alegria,
E deste modo realizar tudo.

SHANTIDEVA, 8



Um guia para o caminho do Bodissátva
[texto integral]
Tradução de Rogel Samuel

CAPITULO OITO

Meditação

1
Tendo desenvolvido entusiasmo desse modo,
Eu devo colocar minha mente em concentração;
O homem cuja a mente está distraída
Mora nos dentes das concepções perturbadoras.

2
Mas pela concentração de corpo e mente
Nenhuma distração acontecerá;
Então eu devo abandonar a vida mundana
E completamente descartar as concepções distorcidas.
3
Por causa do apego (às pessoas) a vida mundana não é abandonada
E devido ao desejo de ganho material e outros;
Então eu deveria abandonar essas coisas completamente,
Este é o modo no qual o sábio se compraz.

4
Tendo entendido que concepções perturbadoras são completamente superadas
Pela perspicácia superior do ficar em paz,
Em primeiro lugar eu devo procurar a paz.
Isto é alcançado pela alegria genuína do desapego da vida mundana.
5
Por causa da obsessão que um ser passageiro
Tem para outro ser passageiro,
Ele não verá seu amado novamente
Por muitas milhares de vidas.

6
Não os vendo, fico infeliz;
E minha mente não pode ser posta em equilíbrio;
Até mesmo se os vejo não há nenhuma satisfação
E, como antes, fico atormentado, desejando.

7
Por estar preso aos seres vivos
Estou completamente obscurecido da realidade perfeita,
Minha ilusão (com a existência cíclica) perece;
E no fim sou torturado pela tristeza.

8
Só pensando neles,
Esta vida passará sem significado.
(Além disso) os amigos impermanentes e parentes
Destruirão até mesmo o Dharma (que conduz) à permanente (liberação).

9
Se eu me comporto da mesma maneira que uma criança,
Eu certamente cairei nos reinos inferiores;
E se sou conduzido até lá por esse mau uso (para os Nobres),
Para que serve me confiar na infantilidade?
l0
Um momento eles são amigos
E no próximo momento se tornam inimigos.
Desde que se chateiam até mesmo em situações joviais,
É difícil de agradar as pessoas ordinárias.

11
Eles estão irados quando algo de benefício é dito;
E também me tiram do que me é benéfico.
Se eu não escuto o que eles dizem,
Se aborrecem e conseqüentemente se lançam aos reinos inferiores.

12
Eles são invejosos dos superiores, e competitivos com os iguais,
Arrogantes para os inferiores, orgulhosos quando elogiados;
E se qualquer coisa desagradável é dita eles se aborrecem:
Não há qualquer benefício derivado do infantil.

13
Associar-se com o que é infantil,
Resulta em indignidades certamente;
Como elogiar e depreciar os outros
E discutir as alegrias da existência cíclica.

14
Se dedicando deste modo aos outros
Provoca-se nada mais que infortúnio,
Porque eles não me beneficiarão
E eu não os beneficiarei.

15
Eu deveria fugir das pessoas infantis.
Quando elas são encontrados; entretanto, eu devo agradá-los para que estejam contentes.
Eu devo me comportar bem somente por cortesia,
Mas não ficar muito familiar.
16
Da mesma maneira que uma abelha leva mel de uma flor,
EU somente devo levar (o que é necessário) para a prática de Dharma,
Mas permanecer pouco conhecido
Como se eu nunca me tivessem visto antes.

17
“Eu tenho muita riqueza material como também honra,
E muitas pessoas me amam” -
Ego-importância criada deste modo
faz o EU apavorado depois da morte.

18
Assim, com a mente completamente confundida,
Correndo para qualquer objeto,
Você está preso,
Miséria que resultará em milhares.

19
Conseqüentemente o sábio não deveria ser preso,
(Porque) o medo nasce do apego.
Com uma mente firme entenda bem
Que é a natureza destas coisas ser descartadas!

20
Embora eu possa ter muita riqueza material,
Seja famoso e bem falado,
Qualquer fama e renome que eu acumulei
Não tem nenhum poder para me acompanhar (depois de morte).

21
Se há alguém que me menospreza
que prazer posso ter eu em ser elogiado?
E se há outro que me elogia
que desgosto posso ter eu em ser desprezado?

22
Se até mesmo o Conquistador era incapaz
Para as várias inclinações de seres diferentes,
Quanto mais uma pessoa má como eu?
Então eu deveria deixar a intenção (de me associar com) o mundano.

23
Eles desprezam o que não têm nenhum ganho material
E dizem coisas ruins sobre esses;
Como podem eles, que são por natureza tão difíceis de se dar bem,
Ter sempre qualquer prazer (de mim)?

24
O Tathagatas disse
Que não se deveria ajudar o infantil,
Porque se elas não adquirirem por seu próprio modo
Estas crianças nunca estarão contentes.

25
Quando eu vou morar em florestas
Entre os cervos, os pássaros e as árvores,
Eles dizem: Isso não é desagradável?
Você acha delicioso associar-se com isso?

26
Ao morar em cavernas,
Em santuários vazios e aos pés de árvores,
Nunca olhe atrás—Cultive desapego.
27
Quando tenho de morar
Em lugares que não posso tomar como “meu”
Que são por natureza largos e abertos
E onde posso me comportar sem apego?

28
Quando devo eu venho viver sem medo
Tendo pouco como uma tigela mendicante e algumas coisas estranhas,
Roupas usadas que ninguém quis
E nem mesmo tendo onde esconder este corpo?

29
Tendo partido para os cemitérios,
Quando eu venho entender
Que este meu corpo e os esqueletos dos outros
São iguais estando sujeito à decadência?

30
Então, por causa de seu odor,
Nem mesmo as raposas
Chegam perto deste corpo meu;
isto é o que restará disto.

31
Se mesmo este corpo que surgiu como uma coisa,
Os ossos e carne com que foi criado
Se quebrarão e separarão,
Quanto mais os amigos e outros?

32
No nascimento eu nasci só
E também na morte morrerei eu só;
Como esta dor não pode ser compartilhada através de outros,
Que uso ou obstáculo fazem os amigos?

33
Da mesma maneira que viajantes numa rodovia
(Deixam um lugar) e alcançam (outro),
Igualmente os no caminho da existência condicionada
(Partem de) um nascimento e alcançam (outro).

34
Até que o tempo vem para este corpo
Ser apoiado por quatro pessoas que carregam caixão funerário
Até quando o mundo (ao redor) ferido de aflição,
Até então eu devo retirar-me para a floresta.

35
Ajudado por ninguém e não invejando ninguém,
Meu corpo morará na solidão.
Se eu já sou como um homem morto,
Quando eu morrer não haverá nenhum pranto.

36
E lá ao redor ninguém
Me perturbará com seu luto,
Assim não haverá ninguém para me distrair
De minha lembrança do Buddha.

37
Então morarei só,
Feliz e contente com poucas dificuldades,
Em florestas muito alegres e bonitas,
Pacificando todas as distrações.

38
Tendo deixado todas as outras intenções,
Estando motivado por um só pensamento,
Que eu me esforce para por minha mente em equilíbrio (por meio do estar calmo)
E subjugar isto (com superior insight).

39
Neste mundo e no próximo
Desejos dão origem a grande infortúnio:
Esta vida matando, escravizando e cortando,
E na próxima a existência dos infernos.

40
Por causa do desejo muitos pedidos
São feitos por todos,
Todo tipo de mal e mesmo a fama
Não é evitada para a causa dele.

41
Que eu me ocupe em ações medrosas para eles
Que até mesmo consumirão minha riqueza.
Mas estes (mesmos seus corpos)
Que eu grandemente desfruto no abraço sexual

42
Não são nada diferentes de esqueletos,
Eles não são autônomos e são identidades.
Em lugar de estar sendo tão cobiçoso e completamente obcecado,
Por que eu não vou para o estado de além do sofrimento?

43
No primeiro lugar eu fiz esforços para erguer (o seu véu)
E quando foi levantado ela olhou para baixo timidamente.
Previamente se alguém olhou ou não,
A face dela estava coberta com um pano.


44
Mas agora por que eu corro para fora
Ao ver diretamente
Esta face que me perturba a mente
Como está sendo revelada a mim pelos urubus?

45
(Previamente) eu protegi completamente (o corpo dela)
Quando os outros lançavam sobre ela os seus olhos.
Por que, mísero, não a protege você agora,
Quanto está sendo ela devorada por esses pássaros?

46
Desde urubus e outros a estão comendo
Esta pilha de carne que eu vejo,
Para quem eu ofereci guirlandas de flores, sândalo e ornamentos
Por que é agora a comida de outros?

47
Se fico com medo dos esqueletos que eu vejo,
Embora eles não se movam,
Por que eu não me amedrontei dos corpos do exército caminhando
Movidos por meus (impulsos)?

48
Embora esteja preso a isto quando está coberto (com pele),
Por que eu não a desejo quando é descoberto?
Se eu não tenho nenhuma necessidade disto,
Por que se copula com isto quando está coberto?

49
Desde que excremento e saliva
Surgem somente de comida,
Por que eu repugno excremento
E acho alegria em saliva?

50
O algodão também é macio ao toque,
Mas eu não acho nenhum (sexual) delícia em um travesseiro
Eu penso que (o corpo de uma mulher) não emite um odor pútrido?
Luxurioso, você está confuso sobre o que está sujo!

51
Pensando que não podem dormir com este algodão
Embora é macio ao toque,
Pessoas confusas, negativas e luxuriosas
Zangam-se com isto.

52
Se eu não estou preso ao que está sujo,
Então por que copulo com as mais baixas partes dos outros corpos
Que somente são gaiolas de ossos amarradas com músculos,
Engessadas em cima com a lama de carne?

53
Eu contenho muitas coisas sujas
As quais constantemente tenho que experimentar;
Assim por que, por causa de uma obsessão para a sujeira,
Eu desejo outras bolsas de sujeira?

54
—Mas é a carne que eu desfruto — Se isto é o que eu desejo tocar e ver,
Por que não desejo isto em estado natural
Destituído de qualquer mente?

55
Além disso, qualquer mente que eu possa desejar
Não pode ser tocada ou vista,
E tudo que eu posso tocar não será mental;
Assim por que me vicio nesta copulação sem sentido?

56
Não é tão estranho que eu não entenda
Que os corpos de outros são de natureza suja,
Mas é realmente estranho que eu não entenda
Meu próprio corpo ser de natureza sujo.

57
Tendo abandonado a jovem flor de loto
Desdobrada por raios de luz solar livre de nuvem,
Por que, com apetência da mente para o que é sujo,
Eu me divirto numa gaiola de sujeira?

58
Desde que eu não desejo tocar
Um lugar coberto de excremento,
Então por que desejo tocar o corpo
De onde o (excremento) surgiu?

59
Se eu não estou preso ao que é sujo,
Por que copulo com as mais baixas partes dos outros corpos,
Que surgem do campo sujo (de um útero)
E são produzidos por sementes dentro disto?

60
Eu não tenho nenhum desejo por uma pequena larva de inseto suja
Que veio de uma pilha de sujeira,
Assim por que desejo este corpo que por natureza está grotescamente sujo,
Que também foi produzido por sujeira?

61
Não apenas desacredito
da sujeira de meu próprio corpo,
Mas por causa de uma obsessão pelo que é sujo
Eu desejo outras bolsas de sujeira.

62
Até mesmo coisas atraentes como comidas saborosas,
Arroz cozido e legumes,
Fazem o chão sujo
Se forem para o chão depois de ter estado na boca.

63
Tal sujeira é óbvia.
Se eu ainda tenho dúvidas que eu vá aos cemitérios
E olhe para aqueles corpos sujos
Jogados fora ali.

64
Tendo percebido que quando aquela pele deles é rasgada e aberta
Dão origem a muito medo,
Como coisas como essas
Sempre novamente dão origem à alegria?

65
Os cheiros com os quais o corpo de alguém é untado
É sândalo e outros, mas não o de outro corpo.
Assim, por que apegar-se nos outros (corpos)
Por causa de cheiros que não são (os seus)?

66
Desde que o corpo tem um odor naturalmente sujo,
Não é bom estar livre disto?
Por que os que almejam coisas sem sentido do mundo
Untam este corpo com cheiros agradáveis?

67
E além disso, se é o cheiro agradável de sândalo,
Como pode vir do corpo?
Assim, por que me prendo a outros (corpos)
Por causa de cheiros que não são (os meus)?

68
O corpo nu em seu estado natural
É amedrontador devido a seus cabelos longos e unhas,
Seus dentes amarelados e mau cheirosos
E coberto de odor de sujeira,

69
Por que eu faço tal um esforço para polir isto
Como (limpando) uma arma que me causará dano?
Conseqüentemente, este mundo inteiro está transtornado com a loucura
Devido aos esforços dos que estão confuso sobre si próprios.

70
Quando minha mente cresce (com preocupações mundanas),
Por ter visto nada mais que esqueletos no cemitério,
Haverá alguma alegria na cidade
Que não esteja cheia de esqueletos comoventes?

71
Além disso, estes sujos (corpos femininos)
Não se acham sem pagar um preço [em dinheiro]:
Para obter [dinheiro] eu me canso,
E (no futuro) serei prejudicado nos infernos.

72
Como uma criança eu não posso aumentar minha riqueza,
E como jovem que posso fazer eu (não tendo dinheiro para dispor de uma esposa)?
Ao término de minha vida quando eu tiver riqueza,
Para um homem velho que bom será o sexo então?

73
Algumas pessoas más e luxuriosas
Usam a si próprios trabalhando todo o dia
E quando voltam para casa (pela noite)
Os seus corpos exaustos caem como exércitos prostrados.

74
Alguns têm o sofrimento de estar transtornado com a viagem
E tendo que ir longe de casa.
Embora almejam os seus cônjuges,
Não os vêem durante anos.

75
E alguns que desejam o benefício
Devido à confusão, até mesmo vendem a si próprios por causa de (mulheres etc.):
Mas não atingindo o que desejam,
Ficam desnorteados dirigidos pelos ventos das outras ações.

76
Alguns vendem os próprios corpos
E sem qualquer poder são empregados de outros.
Até mesmo quando suas esposas dão à luz
As suas crianças caem aos pés de árvores e em lugares sós.

77
Alguns bobos que são enganados pelo desejo,
Desejando seu sustento pensam, “eu ganharei a vida (como soldado)”;
E embora amedrontados de perder as vidas vão para guerra.
Outros se tornam escravos.

78
Algumas pessoas luxuriosas cortaram os seus próprios corpos,
Outros se empalam nas pontas de varas,
Alguns se apunhalam com punhais,
E outros queimam a si próprios - como estas coisas aparecem.

79
O cuidado de ganhar e perder fazem da fortuna um infortúnio. Os que têm o espírito apegado às riquezas estão distraídos e não se livram do sofrimento.


80
São assim as misérias dos homens presos do desejo e de suas satisfações mesquinhas que pouco mais valem que a ração do boi que puxa a carroça.

81
E é por esse gozo, acessível mesmo ao gado, que o homem, cego pelo destino, se deixa passar esta efêmera plenitude de uma existência tão difícil de obter.

82
Por causa de prazeres que de qualquer modo não duram, votamo-nos aos infernos e a todas as esferas da dor. Por objetivos tão pouco importantes, damo-nos a tantos trabalhos desde a origem dos tempos!

83
Com um esforço mil vezes menor teríamos atingido a Iluminação. Os escravos do desejo sofrem muito mais que os Bodhisattvas e não atingem a Iluminação.

84
Mesmo as espadas, o veneno, o fogo, os precipícios ou os inimigos, nada se pode comparar ao desejo se refletirmos nas torturas dos infernos.

85
Por isso, deviam temer os desejos; a vossa alegria devia estar na solidão, nas florestas tranqüilas, onde não há disputas nem penas.

86
Em rochedos encantadores, espaçosos como terraços de um palácio, refrescados pelo sândalo ao luar, feliz o que é acariciado pelas suaves e silenciosas brisas dos bosques e caminha meditando na salvação dos outros!


87

Vivendo numa cabana abandonada, ao pé de uma árvore ou numa gruta, livre da preocupação de preservar o seu ganho, por onde quer que vá vai descansado.

88

Indo assim sem apego usufrui de alegria tal que nem o próprio Indra a consegue igualar.

89
Com estas reflexões sobre a solidão, acalmamos o pensamento e cultivamos o Pensamento de Iluminação.

90
Primeiro devemos refletir sobre a similitude dos outros conosco mesmo: «Todos têm as mesmas penas e as mesmas alegrias que eu, devo protegê-los como a mim mesmo.»

91
O corpo, apesar da diversidade das suas partes, é protegido como um ser único. Devia ser assim neste mundo: os diferentes seres, quer experimentem a alegria ou a dor, têm todos em comum comigo o mesmo desejo de felicidade.

92-93

Se a minha dor não se reflete nos outros corpos, não me é por isso mais fácil de suportar, tal o apego que tenho a mim. Da mesma maneira, a dor dos outros, apesar de eu não a sentir, não lhes é menos difícil de suportar, por causa do apego que têm a si próprios.

94
Devo combater a dor dos outros porque é como a minha. Devo fazer bem aos outros porque são seres vivos, como eu.


95-96. Se todos temos igual necessidade de sermos felizes, porque privilégio devo eu ser o único objeto dos esforços para ser feliz? Todos temem o perigo e o sofrimento, porque privilégio tenho eu de ser protegido e os outros não?

97 «As dores dos outros não me atingem». Será uma boa razão para não os defender? Os sofrimentos da próxima vida também não me atingem agora, porque não me hei-de precaver?

98. «Mas, nesse caso, trata-se de mim!» Errado, pois um é o que morre, outro é o que renasce.

99. «Cabe ao que sofre defender-se contra o seu sofrimento!» Mas a dor do pé não é a mesma dor da mão, porque não sofrerá a mão?

100. «Talvez seja ilógico que procede do sentimento de personalidade!» Mas todo o ilógisco, na medida do possível, deve ser eliminado.

101. «Encadeamento» e «agregados» são ficções, como «assembléia» ou «exército». Não há sujeito para a dor, quem poderia portanto ter a sua dor?

102. Todas as dores, sem distinção, são impessoais; devemos combatê-las enquanto dor. Porquê fazer restrições?

103. «Se não existe o ser que sofre, porque se há o sofrimento?» Porque toda a gente é unânime quanto a isso. Se combater a dor, então que se combata por toda a parte; se não se deve, que não se combata em parte alguma, mas não mais em mim do que nos outros!


104. «Mas se a compaixão gera grandes sofrimentos, porque a havemos de provocar com o nosso próprio esforço?» Se considerarmos os sofrimentos do mundo, será que podemos dizer que os da compaixão são grandes?
105. Se o sofrimento de um grande número cessa graças ao sofrimento de um só, este deverá provocá-lo por compaixão pelos outros e por si mesmo.

106. Foi por isso que Supusha-Chandra (que por ter ensinado o Dharma foi martirizado pelo rei Víradatta), embora sabendo o que teria que suportar do rei, não se quis poupar à custa de tantos.

107. Tendo assim cultivado, os Bodhisattvas concentram sua alegria na dor dos outros, mergulham no inferno como os cisnes num lago coberto de flores de lótus.

108. A libertação dos seres é para eles um oceano de alegria que tudo inunda. De que lhes serviria a libertação?

109. Se faz algo no interesse dos outros, que não haja orgulho nem complacência! Nada de desejo de retribuição! Só o bem dos outros!

110. Por isso, da mesma maneira que me protejo do mal, terei pelos outros pensamentos de proteção e de bondade.

111. Por hábito, os homens ligam à noção de «eu» a gotas de esperma e de sangue que são estranhas e sem qualquer substância.

112. Porque não considerar então como «eu» os corpos dos outros? Reconhecer o nosso corpo como «outro» deixaria de ter qualquer dificuldade.

113. Considerando que nós estamos carregados de defeitos e que os outros são oceanos de qualidades, apliquemo-nos a rejeitar o nosso egoísmo e a identificarmo-nos com os outros.

114. Interessamo-nos pelos membros como partes do nosso corpo, porque não pelos homens como parte da Humanidade?

115. Por hábito aplicamos a idéia de «eu» a este corpo sem alma, porque não aos outros?

116. Desta maneira, se fazemos bem aos outros, não sentiremos nem orgulho nem complacência. Ninguém está à espera de ser recompensado por se alimentar a si mesmo.

117. Tal como tem vontade de se defender contra a menor ofensa, é indispensável que o pensamento de proteção e de bondade para com os seres se torne um hábito.

118. Foi assim que o Protetor Avalokiteshvara, na grande compaixão, abençoou o próprio nome para afastar dos homens o simples risco de serem intimidados diante de uma assembléia. (No Gandavyuha-Sutra, Avalokiteshvara diz: «Que não seja mais intimidado pela multidão, aquele que por três vezes se lembrar do meu nome!»)

119. Não se deixem abater pela dificuldade. Há coisas cujo mero nome nos fazia tremer e que, pela força do hábito, acabamos por não poder passar sem elas.

120. Quem queira salvar-se rapidamente a si e aos outros deve praticar o grande segredo: a troca de si pelos outros.

121-123. O amor desmesurado pelo corpo faz temer o menor perigo. Quem não odiaria este corpo tão inquietante como um inimigo e este «eu» que, por desejo de combater a doença, a fome e a sede, massacra pássaros, peixes e quadrúpedes e torna-se inimigo de tudo o que vive?
E que por amor do ganho e das honrarias seria até capaz de matar os próprios pais e de roubar o patrimônio das Três Jóias, o que faria de si o combustível dos fogos do inferno?

124. Qual seria o homem sensato que gostaria de acarinhar, guardar e cuidar do seu corpo, sem ver nele mais do que um inimigo, fazendo dele um objeto de honra?

125. «Se der, que terei para comer?» Este egoísmo nos fará um ogre. «Se comer, que terei para dar?» Esta generosidade nos fará i o rei dos deuses.

126. Quem faz penar os outros arde nos infernos. Quem aceite penar pelos outros tem direito a todas as felicidades.

127. O desejo de superioridade leva aos mundos inferiores. Se o transferirmos para os outros, produz para nós a honra e o respeito nos mundos superiores.

128. Aquele que impõe a outro a tarefa de trabalhar para si terá por retribuição a escravatura. O que se impõe a tarefa de trabalhar para os outros terá por recompensa o poder.

129. Todos os que são infelizes o são por terem procurado a sua própria felicidade. Todos os que são felizes o são por terem procurado a felicidade dos outros.

130. Para quê falar tanto? Basta comparar o tolo apegado ao seu interesse próprio com o santo que age no interesse dos demais!

131. Uma coisa é certa: não há maneira de se obter a dignidade de Buda, nem sequer a felicidade neste mundo das transmigrações, sem trocarmos o nosso bem-estar pela dor dos outros.

132. Sem falar no próxima vida, mesmo nesta vida, se o servidor não fizer o que lhe cabe e o amo não pagar o que lhe deve, ficam todos os dois em erro.

133. Longe de trabalharem para o seu bem-estar comum que é o princípio da felicidade nesta vida e nas vidas futuras, os homens só pensam em se prejudicar uns aos outros e atraem terríveis sofrimentos.

134. Todas os sofrimentos, dores e perigos provêm do apego ao «eu». Por que havemos de nos apegar a este mal?

135. Se não desalojamos o «eu» não poderemos escapar à dor, como se não nos afastarmos do fogo não poderemos escapar à queimadura.

136. Assim, para apaziguar a dos outros, ofereço-me a eles outros e adoto os outros como o meu verdadeiro «eu».

137. Pertenço aos outros! Esta deve ser a minha convicção! A partir de agora o interesse dos outros deve ser o meu único pensamento.

138. Não é conveniente que esses olhos e essas mãos, que pertencem aos outros, se movam em meu interesse, nem é conveniente que se movam contra o interesse de outrem.

139. Preocupado unicamente com o bem dos seres, tudo o que vir de útil no meu corpo devo retirá-lo e pô-lo a serviço dos outros.

140. Considerando minha identidade como inferior e colocando a identidade dos outros como superior, posso cultivar a inveja e o orgulho livre dos pensamentos.

141. «Aquele é bem tratado e eu não! Não sou tão rico como ele! Ele é honrado e sou desprezado! Sofro e ele está contente!"

142. Trabalho e ele repousa! Ele tem grandes qualidades, riqueza e eu sou pequeno e não as tenho.

143. Mas como conceber um homem desprovido de qualidades? Todos têm boas qualidades; há pessoas a quem sou inferior e outras a quem sou superior.

144-145. Pela força das aflições mentais a minha moralidade e a minha visão estão fora da minha vontade. Tenho de me curar, se possível, e aceitar os sofrimentos do tratamento. Se me julgo incurável, porque me despreza? Que me importam as qualidades se elas só servem a mim?

146. Nem sequer tem compaixão dos desgraçados que caíram nos abismos dos mundos inferiores e, no entanto, orgulhoso das suas qualidades, pretende ser mais do que os sábios!

147. Se reconhece um igual logo se esforça para o ultrapassar; se necessário armadilhando disputas para satisfazer a sua cupidez e ambição.
148. «Queira o céu que as minhas qualidades gozem de uma celebridade universal e que não se oiça falar das dele, quaisquer que elas sejam, em nenhum lado!"

149. «Possam os meus defeitos ficar escondidos! Possam todas as honras ser para mim e nenhumas para ele! Eis-me enfim na posse do meu ganho, eu sou honrado e ele já não é".

150. «Que prazer vê-lo todo este tempo na miséria! Não descansarei enquanto não o vir vilipendiado e gozado por toda a gente".

151. «Ele ousa rivalizar comigo! Como pode comparar-se comigo? Ciência, sabedoria, beleza, nobreza, riqueza.. tudo lhe falta!»

152. E assim, ouvindo por todo o lado elogiar as qualidades deste «eu», até me arrepio de alegria, que delícia, que prazer!

153. Se o outro possui algum bem, havemos de lho tirar pela força; há-de ficar apenas com o necessário para sobreviver e na condição de nos servir.

154. Há que derrubar a sua felicidade e fazê-lo carregar com as nossas penas. Por sua causa já sofremos cem vezes o suplício da transmigração.

155. Passamos séculos inumeráveis em busca dos nossos interesses e o preço que recebemos foi dor e mais dor.

156. Empenhamo-nos no servir aos outros e mais tarde veremos as vantagens, pois a palavra do Sábio é infalível.

157. Se tivéssemos praticado mais cedo esta regra de conduta, não estaríamos agora em tal situação, sem falar da bem-aventurada bondade de Buda que teríamos podido adquirir.

158. Por isso, da mesma maneira que transferimos a noção de «eu» à gotas de esperma e sangue que nos são estranhas, façamos o mesmo em relação aos outros.

159. Sendo o servo dos outros: tudo o que virmos neste corpo poremos ao serviço dos outros.

160. «Estou contente e ele não; estou de cima e ele de baixo; recebo ajuda e ele não.» A inveja contra mim mesmo.

161. Arrancar o «eu» da sua felicidade e atrelá-lo à infelicidade dos outros e vigiar continuamente as ações.

162. Fazer com que caiam sobre a minha cabeça as faltas dos outros e, por pequena que seja, denunciar a mais pequena falta perante a assembléia dos seres.

163. Arrasar a minha reputação exaltando a dos outros, como se fosse um servo das necessidades dos seres.

164. Não devo ser louvado por qualquer qualidade, de maneira a que, mesmo que tenha alguma virtude, ninguém saiba.

165. Todo o mal que fiz aos outros no meu interesse, farei cair sobre o meu «eu» no interesse dos outros.

166. Nem sequer tolero a arrogância. Obrigo-me a me guardar-se como uma jovem esposa, pudica, tímida e reservada.

167. «Faça isto, não faça aquilo, porte-se desta maneira!» Assim me devo vergar à vontade e me controlar.

168. Se não me obedece, oh minha mente, saberei dominar, oh suporte de todos os vícios!

169. Onde vai. ó mente? Pensa que não vejo? Acabarei com todas as suas veleidades. Faz tempo causava a minha ruína.

170. Renuncia à esperança de ainda ter hoje um interesse pessoal, eu a pus no interesse dos outros.

171. Se eu fizesse a loucura de não a entregar aos outros, teria de entregar-me aos guardiões do inferno.

172. Quantas vezes já não o fiz! E o que tive de sofrer! Agora, recordando o ódio, esmago-te, oh mente servidora do egoísmo!

173. Se procura a alegria, não cuide de ti. Se quer proteger, protege os outros.

174. À medida que vai cuidando do seu corpo, ele vai morrendo e ficando decrépito.

175. E mesmo nesse estado decadente, a terra inteira não chega para satisfazer sua cobiça. Quem é capaz de satisfazer?

176. Quem deseja o impossível recolhe uma triste desilusão. Quem abandona suas próprias expectativas goza uma felicidade inalterável.

177. Portanto, não deve dar livre curso ao aumento dos desejos do corpo. Bom o que não aparece como desejável.

178. O corpo é impuro e horrível e tem a cinza por fim e conclusão, é inerte e movido por um outro. Porque devo aplicar a noção de um «eu»?

179. Para que serve este corpo vivo ou morta? Qual a diferença entre ele e um pedaço de terra? Sentimento de um «eu», porque não morre de vez?!

180. Cuidar do meu corpo só me trouxe sofrimento. No entanto, ele não passa de um objeto.Que me importa sua afeição ou seu ódio?

181. Protegido por mim ou devorado pelos abutres, o corpo nem gosta de mim nem odeia os abutres. Porque considerar com afeição?

182. Irrito-me quando ele é maltratado e fico contente com as honras que recebe, mas ele nem se dá conta disso, para que me importar?

183. «Os que gostam deste corpo são como amigos para mim.» Mas todos os homens gostam do seu próprio corpo, porque não ter por eles a mesma amizade?

184. Por isso, renuncio ao meu corpo no interesse do mundo. Se o conservo, apesar dos defeitos, é como um instrumento.

185. Quero seguir os sábios. Recordando os ensinamentos, combaterei a indolência e o torpor.

186. Como os Bodhisattvas transbordando de compaixão, vou assumir pacientemente a minha tarefa. Se não fizer esforço constante noite e dia, algum dia verei o fim da minha miséria?

187. Possa eu afastar do mal a minha confusa mente para escapar da treva e deixá-la em equanimidade com o seu verdadeiro ponto de apoio.

SHANTIDEVA, 9


Um guia para o caminho do Bodissátva
[texto integral]
Tradução de Rogel Samuel



CAPÍTULO NOVE

Sabedoria

O Bodhicaryavatara
Capítulo IX: A Perfeição de Sabedoria

1. O Sábio ensinou este sistema inteiro por causa da sabedoria. Então, com o desejo para repelir sofrimento, a pessoa deveria desenvolver esta sabedoria.

2. Esta verdade é reconhecida como sendo de dois tipos: convencional e última. A última realidade está além da extensão do intelecto. O intelecto é chamado realidade convencional.

3. Na luz disto, são vistas as pessoas serem de dois tipos: o contemplativo e a pessoa ordinária; os ordinários são substituídos pelos contemplativos.

4. Devido à diferença na inteligência deles, os contemplativos são refutados por meio de analogias concordadas por ambas as partes, embora o que eles aprovem.

5. As pessoas ordinárias vêem e imaginam coisas como realidade e não como ilusórias. Neste respeito há discordância entre os contemplativos e as pessoas ordinárias.

6. Até mesmo os objetos de percepção direta, como a forma, são determinados por consenso e não por verificação cognitiva. Os consensos são falsos, assim como é o acordo geral que coisas puras são impuras, por exemplo.

7. O Protetor ensinou como trazer as pessoas a entender. Se estas coisas não estão no sentido último, mas só convencionalmente, momentâneas, isto é inconsistente.

8. Madhyamika: Não há nenhuma falta na verdade convencional dos contemplativos. Em contraste com pessoas ordinárias, eles vêem realidade. Caso contrário, pessoas ordinárias invalidariam a percepção como impura.

9. Como possa mérito possivelmente haver devido ao Jina que é como uma ilusão, como é o caso se ele é verdadeiramente existente? Se um ser sensível é como uma ilusão, por que ele é novamente renascido depois que ele morra?

10. Madhyamika: Até mesmo uma ilusão dura enquanto existe a coleção de suas condições. Por que os seres sensíveis deveriam existir verdadeiramente somente porque sua quantidade contínua dura muito tempo?

11. Yogacarin: Se consciência não existir, então não há nenhum erro matar uma pessoa ilusória. Madhyamika: Pelo contrário, quando a pessoa está ciente da ilusão da consciência, vício e mérito surgem.

12. Yogacarin: Uma mente ilusória não é possível, desde mantras e o igual não podem produzir isto. Madhyamika: Ilusões diversas se originam de causas e condições diversas. Em nenhuma parte há uma única condição que tenha a habilidade para produzir tudo.

13. Yogacarin: Se a pessoa pudesse ser emancipada no final das contas, e ainda transmigra convencionalmente, então até mesmo o Buda transmigraria. Assim o que seria o ponto do modo de vida do Bodhisattva?

14. Madhyamika: Enquanto suas condições não são destruídas, uma ilusão também não cessa. Devido a uma descontinuidade de suas condições, isto não se origina até mesmo convencionalmente.

15. Yogacarin: Se nem sequer uma cognição enganada não existe, o é uma ilusão?

16. Madhyamika: Se, para você não existe nem uma ilusão, o que temer? Até mesmo se for um aspecto da própria mente, em realidade existe como algo diferente.

17. Yogacarin: Se a própria mente é uma ilusão, então o que é isto que é percebido? Madhyamika: O Protetor do Mundo declarou que a mente não percebe a mente. Da mesma maneira que uma espada não pode cortar a si mesma, assim é a mente.

18. Yogacarin: Isto se ilumina a si próprio, como faz uma lâmpada. Madhyamika: Uma lâmpada não se ilumina a si própria, porque ela não se concebe (luminosa) na escuridão.

19. Yogacarin: Um objeto azul não requer qualquer outra coisa para ser azul, como faz um cristal. Assim algo pode ou não pode acontecer na dependência de qualquer outra coisa.

20. Madhyamika: Como é o caso do não-azul, o azul não é considerado como sua própria causa. O que azula por si próprio só poderia se fazer azul?

21. Yogacarin: É dito que uma lâmpada ilumina desde que seja conhecida pela consciência. É dito que a mente ilumina desde que conhecida com quê?

22. Madhyamika: Se ninguém percebe se a mente é luminosa ou não, então não há nenhum ponto discutindo isto, como a beleza da filha de uma mulher estéril.

23. Yogacarin: Se a auto-cognição da consciência não existe, como a consciência é recordada? Madhyamika: A lembrança vem de sua relação com qualquer outra coisa que foi experimentada, como o veneno para os ratos.

24. Yogacarin: Isto ilumina a si próprio, porque a mente, dotada de outras condições, percebe. Madhyamika: Um Jarro, visto devido à aplicação de um ungüento mágico, não é o próprio ungüento.

25. A maneira pela qual algo é visto, ouvido, ou conhecido não é o que é refutado aqui, mas a conceptualização de seu verdadeiro aparecimento que é a causa de sofrimento é o rejeitado aqui.

26. Se você fantasia que uma ilusão não é diferente da mente, nem não diferente, então se isto é uma coisa realmente existente, como não pode ser diferente? Se não for diferente, então realmente não existe.

27. Da mesma maneira que uma ilusão pode ser vista embora verdadeiramente exista, assim com o observador, a mente. Yogacarin: O ciclo de existência tem sua base em realidade ou então estaria como espaço.

28. Madhyamika: Como algo que não existe pode ter alguma eficácia estando baseado em algo real? Você chegou à mente como sendo uma unidade isolada.

29. Se a mente fosse livre de qualquer objeto apreendido, então todos os seres seriam Tathágatas. Assim, o que se ganha especulando que só a mente existe?

30. Yogacarin: Se até mesmo a semelhança da ilusão é reconhecida, como uma aflição mental cessa, quando o desejo de uma mulher ilusória surge até mesmo na mente do lascivo que a criou?

31. Madhyamika: Porque as impressões mentqais do criador dessas aflições mentais não as eliminou como objetos de conhecimento, e ao vê-las sua impressão de vacuidade é fraca.

32. Construindo as impressões de vacuidade, se diminui a impressão de existência; e depois de acostumar a si mesmo ao fato de que nada verdadeiramente existe, até mesmo isso diminui.

33. Yogacarin: Se se concebe que um fenômeno que realmente não existe não pode ser percebido, então como uma não-entidade, que não tem base, apareça diante da mente?

34. Madhyamika: Quando nem uma entidade nem uma não-entidade permanece diante da mente, então desde que não há nenhuma outra possibilidade, não tendo nenhum objeto, isto fica tranqüilo.

35. Da mesma maneira que um desejo da pedra preciosa que atende os desejos, ou um desejo que concede a árvore que satisfaz os desejos, assim a imagem do Jina é vista, por causa do voto dele e dos seus discípulos.

36. Quando um encantador contra veneno morre, depois de completar um pilar, que pilar neutraliza os venenos, mesmo por muito tempo depois da sua morte.

37. Igualmente, o pilar do Jina, completado de acordo com o modo de vida do Bodhisattva, realiza todas as tarefas, até mesmo quando o bodhisattva passou em Nirvana.

38. Hinayananist: Como poderia ser frutífero o venerar o oferecimento a algo que não tem nenhuma consciência? Madhyamika: Porque é ensinado que é o mesmo se ele está presente ou se passou em Nirvana.

39. De acordo com as escrituras, existem efeitos de adoração, se convencional ou essencialmente, da mesma forma que a adoração ao oferecimento ao verdadeiro Buda é frutífero.

40. Hinayananist: A liberação vem de entender as quatro verdades nobres, assim qual é o ponto do perceber vacuidade? Madhyamika: Porque as escrituras dizem que não há nenhum despertar sem este caminho.

41. Hinayananist: O Mahayana não é certamente autenticado. Madhyamika: Como a sua escritura é autenticada? Hinayananist: Porque ela é autenticada por nós ambos. Madhyamika: Então não é autenticado desde o princípio por você.

42. Aplique a mesma fé e respeito ao Mahayana como você faz a isto. Se algo é verdade porque é aceito por duas partes diferentes, então os Vedas e o igual também seriam verdadeiro.

43. Se você objeta que o Mahayana é controverso, então rejeita sua própria escritura porque é contestada por grupos heterodoxos e porque partes de sua escritura são contestadas por seu próprio grupo e outras pessoas.

44. O ensinamento tem sua raiz no monge-capuz e o monge-capuz não está em um fundamento firme. Para esses cujas mentes estão sujeitas a apego, o Nirvana também não está em um caminho firme.

45. Se sua objeção é que a liberação é devida à eliminação das aflições mentais, então deveria acontecer imediatamente após. Mas ainda a pessoa pode ver o poder do Karma sobre essas pessoas, embora elas não tenham nenhuma aflição mental.

46. Se você pensa que, quando não houver nenhuma desejo não haverá nenhum apego ao renascimento, por que não pode o desejo, ainda que livre de aflições mentais, não existir como ilusão?

47. O apego tem sua causa no sentir, e as pessoas têm sentimento. A mente que tem objetos mentais tem que se apegar numa coisa ou noutra.

48. Sem vacuidade é constrangida a mente e surge novamente o apego, como na meditação cognitiva. Por isso a pessoa deveria meditar em vacuidade.

49. Se você reconhece as expressões vocais que correspondem ao sutras como as palavras do Buda, por que você não respeita o Mahayana que a maior parte é semelhante aos seus sutras?

50. Se o todo está defeituoso porque uma parte não é aceitável, por que não considera o todo como ensinado pelo Jina porque uma parte é semelhante ao Sutras?

51. Quem não aceitará os ensinamentos não compreendidos por líderes como Maha - Kassapa só porque não os entendeu?

52. Permanecer no ciclo de existência por causa desse sofrimento devido à ilusão é cortado por livrar-se do apego e do medo. Isso é um fruto da vacuidade.

53. Assim, nenhuma refutação é possível com respeito a vacuidade, por isso a pessoa deveria meditar em vacuidade sem hesitação.

54. Desde que vacuidade é o antídoto à escuridão das aflições e obstruções cognitivas, como aquele que aspira por omnisciência não medita prontamente nisto?

55. Deixe o medo surgir para algo que produz sofrimento. Vacuidade pacifica o sofrimento. Assim por que temer que isto surja?

56. Se havia algo chamado “eu,” o medo poderia vir de qualquer lugar. Se não há nenhum “eu,” de que ter medo?

57. Dentes, cabelos e unhas não são “eu,” nem é eu o osso, sangue, muco, pus, ou linfa.

58. O óleo corporal não é o eu, nem é o suor, gordura ou entranhas, a cavidade das entranhas não é o “eu,” nem o é o excremento ou urina.

59. A carne não é “eu,” nem é tendões, calor, ou vento. Aberturas corporais não são “eu,” nem, de qualquer forma, as seis consciências.

60. Se a consciência de som fosse “eu,” então o som sempre seria temido. Mas sem um objeto de consciência, o que faz isto cognitivo por causa do qual é chamado consciência?

61. Para aquele que não está ciente da consciência, um pedaço de madeira seria consciência. Então, é certo que não há nenhuma consciência na ausência de seu objeto.

62. Por que quem está observando a forma não ouça bem? Samkhya: Por causa da ausência de som, há nenhuma consciência disto.

63. Madhyamika: Como pode algo que é da natureza da apreensão de som ser a apreensão de forma? Uma pessoa pode ser considerada como pai e filho, mas não em termos da realidade última,

64. Desde que Sattva, Rajas e Tamas não são nem um pai nem um filho. Além disso sua natureza não é vista como relacionado para a apreensão de som.

65. Se é a mesma coisa que leva outro disfarce, como um ator, ele também não é permanente. Se ele tiver naturezas diferentes, então esta sua unidade é sem precedente.

66. Se outro disfarce não for o verdadeiro, então descreva seu aparecimento natural. Se fosse a natureza de consciência, então seguiria que todas as pessoas seriam idênticas.

67. Aquele que tem volição e aquele que não tem nenhuma volição seriam idênticos porque suas existência seriam a mesmo. Se a diferença fosse falsa, então o que seria a base para semelhança?

68. Aquele que não está consciente não é “eu”, porque falta consciência, como um pano etc. Se fosse a consciência porque tem consciência, então quando deixasse de estar consciente de qualquer coisa, desapareceria.

69. Se o ego não está sujeito a mudança, qual a utilidade de sua consciência? Assim, isto implica que o espaço a que falta consciência e atividade tem um ego.

70. Objeção: Sem o ego, a relação entre uma ação e seu resultado não é possível, porque se o agente de uma ação pereceu, quem terá o resultado?

71. Madhyamika: Quando nós ambos concordanos que uma ação e seu resultado têm bases diferentes e que o ego não tem nenhuma influência neste assunto, então não há nenhum ponto a discutir sobre isto.

72. O que tem a causa não pode ser visto possivelmente como estando dotado do resultado. Está fora de cogitação que a existência do agente e o experimentador das conseqüências dependem da unidade da quantidade contínua de suas consciências.

73. A mente passada ou futura não é o “eu”, desde que não existe. Se a mente fosse o “eu”, então quando tivesse desaparecido, o “eu” não existiria mais.

74. Da mesma maneira que o tronco de uma árvore não é nada quando cortado em pedaços, da mesma maneira o “eu” é não-existência quando buscado analiticamente.

75. Qualm: Se nenhum ser sensível existir, para quem existe a compaixão? Madhyamika: Para o que é imaginado por ilusão que é aceito para esta tarefa.

76. Qualm: Se há nenhum ser sensível, de quem é esta tarefa? Madhyamika: Verdadeiro. Também, o esforço é devido à ilusão. Não obstante, para aliviar o sofrimento, a ilusão com respeito à tarefa da pessoa não é evitada.

77. Porém, apegando-se ao “eu”, que é causa de sofrimento, aumenta por causa da ilusão com respeito ao ego. Se este é o resultado inevitável disso, meditação em não-identidade é a melhor.

78. O corpo não são os pés, nem a panturrilha, nem as coxas. Nem é o corpo os quadris, o abdômen. A parte de trás, o tórax, ou os braços.

79. Não são as mãos, os lados do torso, ou as axilas, nem é caracterizado pelos ombros. Nem é o corpo o pescoço ou a cabeça. Então o que aqui é o corpo?

80. Se este corpo existe parcialmente em tudo isto, e suas partes existem nas partes dele, onde está isto por si só?

81. Se o corpo ficasse situado em sua totalidade nas mãos e outros membros, haveria da mesma maneira muitos corpos quantos sejam as mãos e assim sucessivamente.

82. O corpo não está no interior nem fora. Como o corpo pode estar nas mãos e outros membros? Não está separado das mãos e semelhante. Como, então, pode ser achado nada?

83. Assim, o corpo não existe. Porém, por causa da ilusão, há a impressão do corpo com respeito às mãos e semelhantes, por causa da sua configuração específica, da mesma maneira que há a impressão de uma pessoa com respeito a um pilar.

84. Enquanto uma coleção de condições últimas, o corpo se parece como uma pessoa. Igualmente, contanto que dure com respeito às mãos e semelhante, o corpo continua sendo visto neles.

85. Do mesmo modo, num grupo de dedos do pé, qual dedo seria o pé? O mesmo se aplica a um dedo do pé, desde que é um grupo de juntas, e para uma junta como bem, por causa de sua divisão em suas próprias partes.

86. Até mesmo as partes podem ser divididas em átomos, e um átomo pode ser dividido de acordo com suas direções cardeais. A seção de uma direção cardeal é espacial, porque está sem partes. Então, um átomo não existe.

87. Que pessoa perspicaz poderia estar presa a uma forma que é igual a um sonho? Considerando que o corpo não existe, então quem é uma mulher e quem é um homem?

88. Se verdadeiramente o sofrimento existe, por que não oprime o alegre? Se as delicadezas e semelhantes são um prazer, por que eles não agradam alguém golpeado por aflição e assim sucessivamente?

89. Se uma coisa não é experimentada porque dominada por algo mais intenso, como aquilo que não é da natureza da experiência ser experimentado?

90. Objeção: Seguramente existe sofrimento em seu estado sutil quando seu estado grosseiro for afastado. Madhyamika: Se simplesmente for outro prazer, então aquele estado sutil é um estado sutil de prazer.

91. Se o sofrimento não surgir quando as condições para seu oposto surgirem, não se segue que um “sentindo” é uma falsa noção criada por fabricação mental?

92. Então, esta análise é criada como um antídoto àquela falsa noção. Para as meditações estabilizadores que surgem do campo da investigações basta a comida dos contemplativos.

93. Se há um intervalo entre uma faculdade do sentido e seu objeto, onde está o contato entre os dois? Se não houver nenhum intervalo, eles seriam idênticos. Naquele caso, o que entraria em contato com quê?

94. Um átomo não pode penetrar outro, porque não tem espaço vazio e é do mesmo tamanho que o outro. Quando não há nenhuma penetração, não há nenhum entrosamento, não há nenhum contato.

95. Realmente, como pode haver contato com algo que não tem nenhuma parte? Se não há nenhuma parte, quando houver contato, demonstre isto.

96. É impossível para a consciência que não tiver nenhuma forma ter contato; nem é isto possível para uma combinação, porque não é uma coisa verdadeiramente existente, como investigado mais cedo.

97. Assim, quando não há nenhum contato, como o sentimento pode surgir? Qual é a razão para este esforço? Quem pode ser prejudicado por isso?

98. Se não há ninguém para experimentar o sentimento e se o sentimento não existe, então depois de entender esta situação, por que, oh apego, você não é quebrado?

99. A mente que tem um sonhar e uma ilusão como natureza vê e toca. Desde que o sentimento surge junto com a mente, não é percebido pela mente.

100. O que acontece mais cedo é lembrado mas não experimentado pelo que surge depois. Não se experimenta, nem é experimentado por qualquer outra coisa.

101. Não há ninguém que experimenta o sentimento. Conseqüentemente, em realidade, não há nenhum sentimento. Assim, por esta não-identidade quem pode ser doído por isto?

102. A mente não fica situada nas instalações do sentido, ou na forma e outros sentidos-objetos, ou entre eles. A mente também não é achada dentro, ou fora, ou em qualquer outro lugar.

103. O que não está no corpo nem em qualquer outro lugar, nem misturado nem em algum lugar separado, não é nada. Então, são liberados os seres sensíveis por natureza.

104. Se a cognição está antes do objeto de cognição, na dependência de que surge? Se a cognição é simultânea com o objeto de cognição, na dependência de que surge?

105. Se surgir depois do objeto de cognição, de que surgiria a cognição? E deste modo isto é averiguado: que nenhum fenômeno entra em existência.

106. Objeção: Se a verdade convencional não existe, como pode haver as duas verdades? Se existe devido a outra verdade convencional, como pode haver um ser sensível liberado?

107. Madhyamika: A pessoa é uma ideação da mente de outra pessoa, e a pessoa não existe pela própria verdade convencional de si própria. Depois que algo for averiguado, isto existe; se não, não existe como uma realidade convencional.

108. Os dois, a concepção e o concebido, são mutuamente dependentes; da mesma maneira que toda análise é expressa recorrendo-se ao que é geralmente conhecido.

109. Objeção: Mas se a pessoa analisar por meio da análise que é analisada a si mesma, então há um infinito regresso, porque aquela análise também pode ser analisada.

110. Madhyamika: Quando o objeto de análise é analisado, nenhuma base há para análise. Desde então que não há nenhuma base, não surge, e isso é chamado “nirvana.”

111. Uma pessoa para quem esses dois são verdadeiramente existentes está em uma posição extremamente incerta. Se um objeto existe por causa do poder da cognição, como se chega à verdadeira existência da cognição?

112. Se a cognição existe por causa do poder do objeto de cognição, como se chega à verdadeira existência da cognição? Se sua existência for devida ao seu poder mútuo, pode nem existir.

113. Objeção: Se não há nenhum pai sem um filho, como pode haver um filho? Madhyamika: Da mesma maneira que na ausência de um filho não há nenhum pai, da mesma maneira esses dois não existem.

114. Objeção: Um broto surge de uma semente. A semente é indicada por aquele broto. Por que a cognição que surge do objeto de cognição não averigua a verdadeira existência daquele objeto de cognição?

115. Madhyamika: É averiguado que uma semente existe devido a uma cognição que não é igual a um broto. Como a existência de um conhecimento de cognição é, como o objeto de cognição, averiguado por aquela cognição?

116. Pessoas observam toda causa por percepção direta, como os componentes de um loto, como o talo e assim sucessivamente, produzido por uma variedade de causas.

117. Qualm: O que faz a variedade de causas? Madhyamika: uma variedade precedente de causas. Qualm: Como uma causa pode dar um efeito? Madhyamika: Por causa do poder das causas precedentes.

118. Nyaya-Vaisesika: Isvara é a causa do mundo. Madhyamika: Então explique o que é Isvara. Se ele é os elementos, assim seja; entretanto por que luta em cima de um mero nome?

119. Além disso, a terra e outros elementos não são nada; eles são impermanentes, inativos, e não divinos. Eles podem ser pisados e podem ser impuros. Isso não é Isvara.

120. Espaço não é Deus porque é inativo. Nem é isto o Ego, porque isso foi refutado. Como o criador inconcebível do Inconcebível pode ser descrito?

121. O que deseja ele criar? Se ele desejar criar um ego, aquele ego não é a natureza da terra e outros elementos, nem Isvara eterno? A cognição está devido ao objeto de cognição e está sem começo.

122. Felicidade e sofrimento são o resultado de ação. Diga então, o que criou ele? Se a causa não tem nenhum começo, como seu efeito pode ter um começo?

123. Se ele não depende de qualquer outra coisa, por que ele não cria sempre? Não há nada que não seja criado por ele. Assim de que dependeria ele?

124. Se Isvara depender de uma coleção de condições, então novamente, ele não é a causa. Ele não pode se abster de criar quando há uma coleção de condições, nem ele pode criar na ausência delas.

125. Se Isvara cria sem desejar fazer assim, isso quer dizer que ele é dependente de algo diferente dele. Até mesmo se ele desejar criar, ele é dependente daquele desejo. De onde a supremacia do criador?

126. Os que reivindicam que os átomos são permanentes foram refutados mais cedo. O Samkhyas consideram uma substância primitiva como a causa permanente do mundo.

127. Os constituintes universais — sattva, rajas e tamas — que ficam em equilíbrio, são chamados de substância primitiva. O universo é explicado pelo desiquilíbrio deles.

128. É improvável que uma única coisa tenha três naturezas, assim não existe. Igualmente, estes componentes universais não existem, desde que cada um deles sejam incluídos de três componentes.

129. Na ausência dos três componentes universais, a existência de som e outros objetos do sentido está longe. Também não há nenhuma possibilidade de prazer e o igual em coisas inconscientes como pano e assim por diante.

130. Se você argumenta que as coisas têm a natureza das causas, não foram as coisas analisadas? Para você, prazer etc é a causa, mas pano etc não é o resultado daquela causa.

131. Felicidade e outros sentimentos podem ser devido a coisas como um pano, mas na ausência deles, não haveria nenhuma felicidade. A permanência da felicidade e outros sentimentos nunca é averiguada.

132. Se a manifestação da felicidade verdadeiramente existe, por que o sentimento não é temido? Se você vê que fica sutil, como pode ser total e sutil?

133. Objeção: É sutil ao deixar seu estado total. Sua grosseria e sutileza são impermanentes. Madhyamika: Por que você não considera tudo impermanente daquele modo?

134. Se seu estado total não for diferente de felicidade, então a impermanência da felicidade é óbvia. Se você pensa que algo não-existente não surge, porque não tem nenhuma existência qualquer quer que seja, então você aceitou, até mesmo contra seu argumento, a origem de algo manifesto que era não-existente.

135. Se você aceita que o efeito está presente na causa, então quem come comida estaria comendo excrementos, e uma semente de árvore de algodão seria comprada ao preço de um pano e usado como um artigo de vestuário.

136. Se você argumenta que as pessoas normalmente não vêem isto por causa da ilusão, este é até mesmo o caso para o que conhece a realidade.

137. Até mesmo pessoas ordinárias sabem disso. Por que elas não vêem isto? Se você argumenta que as pessoas usualmente não têm nenhuma cognição verificando isto, então até mesmo a percepção delas de algo manifesto é falsa.

138. Samkhya: Se verificando a cognição não se está verificando a cognição, então o que não é verificado falsamente? Na realidade, a vacuidade dos fenômenos não é averiguada por verificar a cognição.

139. Madhyamika: Sem descobrir uma coisa imaginada, não é temida sua não-existência. Então, se uma coisa for falsa, sua não-existência é claramente falsa.

140. Assim, quando em um sonho morreu um filho, o pensamento ‘que ele não existe ' previne o pensamento da existência dele; e que também é falso.

141. Então, com esta análise, nada existe sem uma causa, nem é contido em seu indivíduo, ou combinado em condições causais.

142. Nada vem de qualquer outra coisa, nada permanece, e nada parte. Qual é a diferença entre uma ilusão e que é considerado por tolos como real?

143. Examine isto: Como para o que é criado pela ilusão e para o que é criado por causas - donde eles vêm e aonde eles vão?

144. Como pode ser verdadeira a existência de algo artificial, como um reflexo, que só é percebida junto com qualquer outra coisa e não em sua ausência?

145. Para algo que já existe, que necessidade há para uma causa? Se algo não existe, qual é a necessidade de uma causa?

146. Algo que não existe não estará sujeito a mudança, até mesmo com milhões de causas. Como pode algo naquele estado seja existente. Que mais pode entrar em existência?

147. Se não há nenhuma coisa existente na hora do não-existente, quando uma coisa existente entrará em existência? Por isso aquela coisa não-existente não desaparecerá enquanto a coisa existente não seja produzida.

148. Enquanto uma coisa não-existente não desaparecer, não há nenhuma oportunidade para a coisa existente. Uma coisa existente não faz que fique não-existente; ou se seguiria que seria de duas naturezas.

149. Assim, não há cessação nem aparição em existência a qualquer hora. Então, este mundo inteiro não surge ou cessa.

150. Estados de existência são como sonhos; em análise, são semelhantes a árvores. Em realidade, não há nenhuma diferença entre os que atingiram Nirvana e os que não têm.

151. Quando todos os fenômenos estão deste modo vazios por dentro, o que pode ser ganho e o que pode ser perdido? Quem será honrado ou será menosprezado por quem?

152. De onde vem felicidade ou sofrimento? O que é agradável e o que é desagradável? Quando investigou em sua própria natureza, o que está almejando e para o que está almejando?

153. Em investigação o que é o mundo de seres vivos, e quem realmente morrerá aqui? Quem entrará em existência, e quem entrou em existência que é um parente, e quem é um amigo de quem?

154. Possa os que estão como eu apreendem tudo como espaço. Eles se enfurecem e se alegram por meio de disputa e júbilo.

155. Buscando a própria felicidade com ações más eles vivem miseravelmente com aflição, dificuldades, desespero e se cortam e se apunhalam um ao outro.

156. Depois de entrar nos estados afortunados de existência repetidamente e ficar acostumado novamente e novamente ao prazer, morrem eles e entram nos estados miseráveis de existência no qual há angústia longa e intensa.

157. Há muitas armadilhas na existência mundana, mas não há esta verdade aqui. Há incompatibilidade mútua. A realidade não pode ser assim.

158. Há oceanos incomparáveis, violentos, ilimitados de sofrimento. A força está lá escassa; e o período de vida é lá como bem curto.

159. Também, lá em práticas para vida longa e saúde, em fome, fadiga, e cansaço, em sono e calamidades, e em associações improdutivas com tolos,

160. A vida passa rapidamente e em vão. A consciência é difícil obter ali. Como poderia haver um modo de prevenir as distrações habituais?

161. Também, lá Mara tenta prendê-los em estados muito miseráveis. Lá, por causa da abundância de caminhos errados, a dúvida está difícil superar.

162. E o lazer é duro de obter novamente. O aparecimento de um Buda é extremamente raro. A inundação de aflições mentais é difícil de impedir. Ai, uma sucessão de sofrimento!

163. Ah, deveria haver uma grande piedade para o vagante na inundação de sofrimento, que, embora miserável, não reconhece a sua situação miserável.

164. Como aquele que repetidamente se imerge na água mas tem que entrar no fogo nova e novamente, assim eles se consideram afortunados, embora sejam extremamente miseráveis.

165. Como eles vivem assim fingindo que não estão sujeitos a envelhecer e morrer, a calamidades terríveis, com a morte na sua frente.

166. Assim, quando eu poderia trazer alívio a esses atormentados pelo fogo do sofrimento, com os requisitos de felicidade que saem das nuvens de meu mérito?

167. Quando eu ensinarei a vacuidade e a acumulação de condições de mérito da verdade convencional respeitosamente a esses cujas visões estão distorcidas?

SHANTIDEVA, 10



Um guia para o caminho do Bodissátva
[texto integral]
Tradução de Rogel Samuel


CAPÍTULO DEZ

DEDICATÓRIA DOS MÉRITOS

SHANTIDEVA

Que todos os seres sensíveis sejam ornados com o modo de vida do Bodhisattva pela virtude que eu obtive refletindo no Bodhicaryavatara.

Por meu mérito, que todos os em todas as direções que estão aflitos por sofrimentos corporais e mentais, obtenham oceanos de alegria e satisfação.

Enquanto o ciclo da existência dure, nunca possa a felicidade de todos declinar. O mundo possa atingir a alegria constante dos Bodhisattvas.

Tantos infernos quanto haja no mundo, que os seres se deliciem nas alegrias de satisfação em Sukhavati.

Que os afligidos com frio, achem calor. Que os opressos por calor estejam esfriados por oceanos de água das grandes nuvens do Bodhisattvas.

Que a floresta de folhas de espadas se torne para eles o esplendor de um arvoredo de prazer; e que a espada das árvores de Salmali cresçam como árvore que cumpre todos os desejos.

Que as regiões do inferno se tornam lagoas vastas de delícia, fragrantes com lotos, bonitas e agradáveis com os gansos brancos, patos selvagens, gansos e cisnes.

Que o monte de carvão ardente se torne um montículo de jóias. O chão ardente se torne um chão marmóreo cristalino; e que as montanhas do “Inferno que esmaga” se tornem templos de adoração de Sugatas.

Possa a chuva de carvão ardente, lava e punhais de agora em diante se tornar uma chuva de flores; e as batalhas agora se tornem brincadeiras - um jogo de flores brincalhonas.

Pelo poder de minha virtude, possam esses cuja carne caiu completamente, cujos esqueletos são da cor de uma flor de jasmim branca, e estão imersos no rio Vaitarani de água fervente como fogo, atingir corpos celestiais e morar com deusas pelo rio Manakini.

Possa de repente os agentes horrorizantes de Yama, corvos e abutres assistir aqui com medo. E olhando para cima vejam em Vajrapani ardente no céu e deseje saber: “De quem esta luz brilhante ao redor de que dispersa escuridão e gera a alegria de satisfação?” que eles partam junto com ele, livres de vício pelo poder da alegria.

Uma chuva de Lotos com águas fragrantes para extinguir os fogos incessantes dos infernos. Possa os seres dos infernos, de repente refrescados com alegria, desejarem saber: “o que é isto?” e possam ver Padmapani.

Amigos, venham depressa! Jogue o medo fora! Nós estamos vivos! Vencedor brilhante do medo, certo príncipe em roupa monástica, veio a nós. Pelo seu poder toda adversidade é afastada, fluxos de delícia, o Espírito do Despertar nasce, como é a compaixão, a mãe de proteção de todos os seres.

Aquele cujos pés de Loto estão adorados com tiaras de centenas de deuses de olhos úmidos de compaixão, em cuja cabeça um fluxo de chuvas de flores diversas vem abaixo, com os palácios de verão encantadores dele celebrados por milhares de deusas que cantam hinos de elogio. Ao ver Manjughosa diante deles, possam os seres dos infernos imediatamente ter alegria.

Por minhas virtudes, possam os seres dos infernos alegrarem-se ao ver as nuvens não-obscurecidas de Bodhisattvas, encabeçadas por Samantabhadra e agradáveis, frias chuvas fragrantes e brisas.

Possam as intensas dores e medos dos seres dos infernos estar pacificados. Possam os habitantes de estados miseráveis de existência ser liberados dos estados infernais.

Possa o risco de ser comido por um animal desapareça! Os Pretas possam estar tão contentes quanto as pessoas em Uttarakura!

Sempre possam os Pretas ser saciados, banhados e refrescados por fluxos de leite que verte da mão de Avalokiteshvara nobre.

Sempre possa o cego ver e possa o surdo ouvir. Que as mulheres grávidas dêem nascimento sem dores, como fez Mayadevi.

Que todos possam adquirir tudo o que é benéfico e desejado pela mente: vestido, comida, bebida, guirlandas de flores, pasta de sândalo e ornamentos.

Possa o medroso se tornar destemido e os golpeados acharem alegria. Possa o desesperado se tornar resoluto e livre de trepidação.

Possa o doente ter saúde boa. Os escravos possam estar livres de toda escravidão. Possa o fraco se tornar forte e ter coração afetuoso para os outros.

Todas as regiões possam ser vantajosas em tudo para os que viajam em estradas. Possa o propósito para o qual eles partiram ser realizado.

Possam os que viajam através de barco terem sucesso, como desejam eles. Possam eles chegar à costa seguramente e alegres com os seus parentes.

Possam os que se acham em caminhos errados em florestas tristes descobrir a companhia de viajantes da mesma categoria; e sem fadiga, possam eles viajar sem medo de bandidos, tigres e outros perigos.

Deidades possam proteger o sombrio, o insano, o desordenado, o desamparado, o jovem e o ancião, e esses em perigo de doença, na selva, e assim por diante.

Eles possam ser gratificados de toda a falta de lazer; eles possam ser dotados de fé, sabedoria, e compaixão; eles possam ser possuídos de estatura e conduta boa; e possam eles sempre se lembrar das suas vidas anteriores.

Eles possam ser tesouros inesgotáveis iguais aos Tesouros do Céu. Livres de conflito ou irritação, possam eles ter um modo independente de vida.

Que os seres que têm pouco esplendor sejam dotados de grande magnificência. Que os sem atrativo e miseráveis sejam dotado de grande beleza.

Possa as mulheres no mundo tornarem-se homens (conforme tradição da época). Possa o humilde obter grandeza e ainda estar livres de arrogância.

Por este meu mérito, possam todos os seres sem exceção se privar de todo vício e sempre se ocupar de virtude.

Não faltando o Espírito de Despertar, dedicado ao modo de vida do Bodhisattva, abraçados pelos Buddhas e livres das ações de Maras.

Todos os seres possam ter períodos de vida imensuráveis. Possam eles sempre viver felizes e possa igualmente a palavra morte desaparecer.

Possam todos os tempos do mundo ser encantadores com jardins de árvores que cumprem os desejos, cheios com Buddhas e as Crianças dos Buddhas e encantando com o som de Dharma.

Possa o chão de todos os lugares estar livres de pedras e arestas, lisos como a palma da mão, macios e feitos de Lápis Lazuli.

Possam as grandes assembléias de Bodhisattvas se sentar em todos os lados. Eles possam embelezar a terra com seu próprio brilho.

Possam incessantemente todos os seres ter notícias do som de Dharma dos pássaros, de toda árvore, dos raios de luz e do céu.

Possam eles sempre encontrar os Buddhas e as Crianças do Buddhas. Eles possam adorar o Mentor Espiritual do mundo com nuvens infinitas de oferecimentos.

Um deus possa enviar chuva a tempo, e estar lá uma abundância de colheitas. A população possa ser próspera, e possa o rei ser íntegro.

Medicinas possam ser efetivas, e possam os mantras desses que os recitam ter êxito. Que Dakinis, Rakasas e outros fantasmas sejam plenos de compaixão.

Que nenhum ser sensível esteja infeliz, pecador, doente, negligenciado, ou menosprezado; e possa ninguém estar desesperado.

Monastérios sejam bem estabelecidos, cheios de cantares e estudos. Sempre possa haver harmonia entre a Sangha, e que o propósito da Sangha seja realizado.

Monges que desejem praticar achem solidão. Eles possam meditar com as mentes ágeis e livres de todas as distrações.

As monjas recebam providências e estejam livres de disputas e dificuldades. Todas as renúncias possam ser de disciplina ética imaculada.

Possam os que são de disciplina ética pobre ser repugnado e constantemente se tornar intenção na extinção dos seus vícios. Eles possam chegar a um estado afortunado de existência, e seus os votos permanecer irrompíveis.

Eles possam ser aprendidos e culto, receber esmolas e ter providências. Que a mente flua pura e as suas famas sejam proclamadas em toda direção.

Sem experimentar o sofrimento dos estados miseráveis de existência e sem prática árdua, possa o mundo atingir Buddhahood em um único corpo divino.

Todos os seres sensíveis possam adorar todos os Buddhas em muitas formas. Eles possam ser sumamente joviais com as felicidades inconcebíveis do Buddhas.

Possam os desejos dos Bodhisattvas em desejar o bem-estar do mundo ser cumprido; e quaisquer protetores amem os seres sensíveis, possa isso ser realizado.

O Pratyekabuddhas e Sravakas possam estar contentes, sempre adorados pelos deuses altos, asuras e humanos.

Pela graça de Manjughosa, possa eu sempre alcançar ordenação e ter a lembrança das vidas passadas até que eu alcance o Chão Jovial.

Eu possa viver dotado com força em qualquer postura que eu seja. Em todas minhas vidas possa eu achar lugares abundantes de solidão.

Quando eu desejar ver ou perguntar algo, possa eu ver o Protetor o próprio Manjunatha, sem qualquer impedimento.

Que meu modo de vida seja igual ao de Manjusri que vive para realizar o benefício de todos os seres sensíveis ao longo das dez direções.

Enquanto o espaço dure e enquanto o mundo dure, possa eu viver dispersando as misérias do mundo.

Qualquer sofrimento que haja para o mundo, possa tudo amadurecer em mim. Possa a felicidade ser mundial por todas as virtudes do Bodhisattvas.

Que isso seja a medicina exclusiva para o sofrimento do mundo e a fonte de toda a prosperidade e alegria permaneça por muito tempo, acompanhada por riquezas e honra!

Eu me curvo a Manjughosa, por cuja graça minha mente vira a virtude. Eu saúdo meu amigo espiritual por cuja bondade fica mais forte.
FIM DO LIVRO